The book that broke the world, de Mark Lawrence
Depois de ter gostado muito do primeiro volume, The Book That Wouldn’t Burn, este The Book That Broke the World custou-me a ler.
Não é que não gostasse sempre que o ouvia, mas não sentia urgência em voltar a ele. Não sei se foi por ser um audiobook — os podcasts semanais acabavam por se intrometer e passar-lhe à frente — ou se a própria história não me encantou, mas a verdade é que levei meses a terminá-lo, e só o fiz porque me fartei de o ter ali a meio.
O primeiro livro é dedicado ao amor aos livros. O próprio “universo” da obra é uma biblioteca: imensa, com incontáveis livros, contendo todo o conhecimento de várias civilizações e espécies, onde o tempo não é propriamente linear (especialmente no modo como a história é contada) e passado e futuro se confundem. Assim, o segundo volume desta trilogia é dedicado ao conhecimento.
Aliás, os nossos protagonistas são obrigados a fazer escolhas. Deve a biblioteca disponibilizar todo o conhecimento a toda a gente ou a ninguém, obrigando cada civilização a fazer o seu próprio caminho e as suas próprias descobertas? Ou existirá uma terceira via, a do meio-termo, do compromisso?
Neste ponto, destaco uma passagem de Yute:
“I am fluent in more languages than I can count, but in none of them can age speak to youth. I say compromise — you hear weakness and cowardice. I say wisdom — you hear blinkered thinking, you see me hidebound, afraid of change. I say the solutions will be messy, unsatisfying and may leave both sides feeling dirty. You hear the call of distant trumpets. You see the vision of a future glittering on some high hill, raised above the murky swirl of warring faiths.”
Não é possível ler (ou, no meu caso, ouvir) isto sem pensar em 2026, no que se passa atualmente em Portugal e no mundo. Em como, na era da informação, a desinformação é um perigo e tantas decisões — com consequências bem reais — são tomadas com base em informação falsa ou parcial. Em como os partidos convencionais (aqui representados pela solução de compromisso) não conseguem comunicar com os mais novos, sendo os extremos aqueles que parecem mais atraentes.
“I can’t. I just can’t. Please.”
Livira hated herself for begging. She hated how this crude, stupid man had reduced her to a blubbering mess simply with his boundless cruelty. His methods took no cleverness, no wit, no skill and yet were as effective as a hammer blow to the head.
A forma como desumanizamos os outros é clara neste livro — clara até demais, para ser sincera: é-nos esfregada na cara sem qualquer subtileza —, com destaque para os perigos e consequências dessa desumanização. No livro, como no mundo.
Penso muitas vezes no verdadeiro poder dos livros (que tem, na minha opinião, o seu expoente máximo na fantasia, nas distopias e na ficção científica): a capacidade de nos fazer pensar e ver o certo e o errado de forma bem mais certeira do que a realidade, e sem as consequências da vida real. Sempre foi esse o poder das histórias, dos contos, das fábulas.
