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Ler por aí

Ler por aí

16
Jan19

A mão esquerda das trevas, de Ursula K. Le Guin

Patrícia

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Escrito em 1969, por Ursula K. Le Guin que com ele ganhou o Nebula e o Hugo, faz parte do ciclo Hainish mas lê-se perfeitamente a solo.

Andava com vontade de pôr as mãos neste livro há muito mas há livros que nos fogem. Começo já por vos dizer que gostei muito mas que preciso relê-lo. Há livros assim, que precisam ser lidos e relidos. Posso dizer-vos que assim que o teminei voltei a ler os primeiros capítulos. 

Não sei do que estava à espera (sou leitora de fantasia mas não sou grande leitora de Ficção ciêntifica - estou a mudar isso) mas não era disto. E ainda bem. 

Esta é a história de Genly Ai, nativo do planeta terra, que vai em missão (em nome do Ecuménio - o orgão governativo interplanetário) para Gethen (ou Inverno), um planeta que, tal como o nome indica, vive numa era glaciar. 

A missão? Convencer as nações daquele planete a juntarem-se ao ecuménio e assim estabelecerem, com os restantes 84 planetas, relações comerciais, de partilha de tecnologia e de comunicação. Não há invasões nem as haverá: um único homem é enviado como prova disso. Tempo é coisa que não falta ao Ecuménio (afinal o planeta mais próximo está a 17 anos-luz de Inverno).

Assim, temos Genly Ai a tentar convencer Karhide (principal região de Gethen) a juntar-se à coligação interplanetária de forma a que Orgoreyn e as restantes regiões do planeta lhe sigam o exemplo. Desde o início que o principal apoiante de Genly é Estraven que não só acredita nele como apoia a sua causa junto do rei. Mas na véspera da audiência com rei de Karhide, Estraven retira-lhe o apoio...

Gethen, para além de ser um planeta inóspito e gelado, tem a peculiariedade de que os seus habitantes são andróginos e apenas uma vez por mês entram em Kemmer, um período de sexualidade activa onde podem assumir o género feminino ou masculino. A vivência destes períodos de sexualidade activa é de tal forma aberta que não há crime sexual em Inverno. E o incesto é permitido.

Uma pausa para reflectir um bocadinho nisto. Um ser que pode ser mãe de um filho ( quando engravidam assumem 9 meses de género feminino) e pai de outro. 

Aquilo que mais chocou Genly quando chegou a este planeta foi precisamente esta questão. Como se relacionar com outro ser que não é homem nem mulher mas ambos simultaneamente?

Quais são as consequências sociais desta androginia?

Ursula K Le Guin pensou esta sociedade e estes seres. E nós, leitores? Como os conseguimos imaginar? Em primeiro lugar é simples, nós temos uma palavra para isto mas na prática é muito mais difícil: só temos os pronomes ELE e ELA para usar  e nenhum deles é neutro por isso, queiramos ou não, usamos o pronome pessoal MASCULINO para cada um dos habitante de Gethen. Para além disto (patente em cada página deste livro) temos a associação de características masculinas e femininas extremamente estereotipadas - várias vezes temos Genly a dizer que viu características femininas em Estraven ou no Rei - sejam doçura ou vontade de mexericar, por exemplo.

Uma das partes menos conseguidas do livro que, ainda assim, é uma excelente reflexão sobre igualdade e identidade de género (não consegui não fazer alguns paralelismos com o livro Orlando, da Virginia Woolf), é que todas as relações em Gethen (a não ser que eu tenha perdido alguma coisa, o que é possível) são heterossexuais - se em Kemmer, duas pessoas sentem atracção, uma manifesta-se como mulher, outra como homem. Isto torna-se bastante mais relevante na parte final do livro.

A escritora tenta imaginar uma sociedade sem tensão sexual, nem que o sexo ou o género, interfira nas decisões e na sociedade e isso é extremamente interessante.

Os jogos políticos também são uma constante ao longo do livro mas não se tornam uma questão tão proeminente como tudo o resto. Como todas as dualidade que são expostas ao longo destas páginas: mulher/homem, Luz/Trevas, confiança/traição, amizade/solidão, vida/morte.

Até aqui falei-vos, muito superficialmente, das questões que saltam à vista, que estão na capa e contracapa e em qualquer sítio onde se fale deste livro. Falta uma. Falta aquela que é, para mim, o verdadeiro tema deste livro, aquele que sobra depois de retiradas todas as camadas superficiais, as políticas, de género, culturais ou sociais: amizade. Por que a jornada de Genly Ai não pode ser dissociada da jornada de Estraven.

 

 

 

 

02
Jan17

Os despojados – uma utopia ambígua, de Ursula K. Le Guin (Parte 1)

Patrícia

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Sempre receara que isto acontecesse, mais do que alguma vez receara a morte. Morrer é perder o eu e reencontrar o resto. Ele conservara-se a si mesmo e perdera o resto

Acabei o ano de 2016 com um livro cuja primeira edição data de 1974. E que excelente final foi.

A ficção cientifica não é um dos géneros que mais leio e é um dos mais subvalorizados do panorama literário… e que injustiça isso é.

Ler Os despojados- uma utopia ambígua de Ursula K. Le Guin é muito mais ler um ensaio político, filosófico, feminista do que ler uma história com naves espaciais. Nesta primeira parte do livro a parte das “naves espaciais” (ou seja, das teorias que suportam a parte da ficção cientifica – com especial destaque para a teoria da simultaneidade, que Shevek desenvolveu – ainda mal deu um ar de sua graça) é claramente preterida em relação à parte política e social.

Não é possível ler este livro e começar sequer a compreendê-lo sem o contextualizar historicamente. Em 1974 duas guerras estavam na ordem do dia: a fria e a do Vietnam que ceifavam vidas e confrontavam ideologias políticas e sociais. Nem sequer é preciso ter grandes conhecimentos de história para perceber que em Urras estão presentes os Estados Unidos e a União Soviética. A introdução de um terceiro movimento, representado por Anarres, ajuda a complementar a reflexão a que a escritora se (e nos) propõe.

Nesta primeira parte (a edição que estou a ler é da Europa-América e está divida em 2 partes) é-nos contado que um grupo de pessoas vai viver para a lua de Urras contruindo ali uma sociedade anarquista/socialista com base nas ideias de Odo, uma mulher que, curiosamente, não sobreviveu tempo suficiente para ver a concretização dos seus sonhos. Algumas gerações depois, Shevek, um físico, vem para Urras tentar estabelecer uma ponte entre duas sociedades que se tinham separado de forma radical – a única comunicação entre estes dois planetas era feita atrás de muros.

Estes muros surgem literal e metaforicamente logo nas primeiras páginas deste livro. Literalmente quando separam os habitantes de Anarres das naves espaciais que chegam do planeta-mãe Urras e que nos levam a questionar se os muros são um símbolo de liberdade (uma vez que os habitantes de Anarres se exilaram por escolha própria) ou uma prisão mascarada. Metaforicamente quando começamos a perceber a filosofia base da sociedade de Anarres. Na página 20 podemos ler, a respeito das “ideias” que “Havia paredes à volta de todos os seus pensamentos e parecia não ter nenhuma consciência delas, embora se escondesse perpetuamente por detrás”.

Ao longo destas páginas todos os sistemas são questionados. Todos os conceitos são dissecados, transformados e refeitos. Muitos chocam com tudo o que conhecemos, que aprendemos, que nos é inerente. O conceito de família, por exemplo. Absolutamente deturpado (em relação ao que conhecemos) leva-nos a questionar a obrigatoriedade dos laços de sangue, do casamento, da sexualidade, dos sentimentos (e falar de sentimentos em Anarres é até uma coisa que parece estranha).

Apesar de ter ganhado bastantes prémios (Nebula, Hugo ou Locus) este é um livro claramente subvalorizado. Assim como Ursula K. Le Guin é, infelizmente, uma escritora esquecida em Portugal.

19
Ago15

A praia mais longínqua - Ciclo Terramar #3, de Ursula K. Le Guin

Patrícia


Continuofascinada pela saga de Terramar da Ursula K. Le Guin e é sempre muito interessantevoltar à companhia de Gued. Agora, pela Extrema Sul, na companhia de Arren,Gued busca respostas para perguntas que nem sabe bem quais são. É o instinto ouo próprio destino que o leva a partir para tentar perceber o porquê da magiaestar a desaparecer do mundo. Partir acompanhado por um jovem sem magia é algoque nem todos compreendem. Mas Gued há muito aprendeu que o próprio destino seencarregará de mostrar o caminho.
Este é acimade tudo um livro calmo, para pensar e aprender. Gued é professor e ao mesmotempo aluno. Arren, transforma-se e cresce tanto ao longo destas páginas quenos força a crescer com ele.
Cada vezmais acho esta coleção uma pérola (quase) esquecida e como gostava de a terlido na minha adolescência. Tenho a certeza que teria lido e relido e que, acada leitura, teria aprendido mais um pouco.
Aqui a Mortee Vida são temas incontornáveis neste livro. E é inevitável que algumasquestões nos obriguem a refletir. O medo da morte far-nos-á perder o importanteda vida? Até que ponto vale a pena prolongar a existência? De que estamosdispostos a abdicar? De quem estamos dispostos a abdicar? Até que ponto somosinfluenciados pela inevitabilidade da morte?
Mas nem sóde temas escuros se faz este caminhode Terramar. Afinal a confiança e amizade são sempre temas presentes.
E a escrita da autora é, sem surpresas, a cereja no topodo bolo. Simples (e não banal) mas cuidada, da que dá gosto ler e nos envolve earrebata. O tipo de livros que gostava de ver lidos e analisados nas nossasescolas
04
Nov14

Os túmulos de Atuan - Ciclo Terramar #2, de Ursula K. Le Guin

Patrícia


Uma menina é escolhida,ainda uma criança, para ser outra pessoa. Ela, que nasceu na mesma hora damorte de sua antecessora, é a nova sacerdotisa dos Túmulos de Atuan. Gued, o nosso feiticeiro, busca a outra metade do anel de Erreth-Akbe. As vidas deTenar e de Gued cruzam-se mas os destinos de ambos são incompatíveis.

Neste segundo livro dociclo de Terramar conhecemos mais uma faceta de Gued. Depois do feiticeiroinexperiente do “O feiticeiro e a sombra”, conhecemos um Gued maduro, ponderadoe bondoso. Mas é a personalidade de Tenar que é mais explorada neste livro. Aimportância e as consequências da educação de uma criança são bem visíveis noadulto em que se transforma. A ignorância que não deixa de ser criminosa. Asigrejas que, com base na fé, moldam mentes e gentes a seu bel-prazer.
Um livro que mesurpreendeu. Espera algo leve, mais ao jeito do primeiro volume, cheio de açãoe de magia. E até pode ser lido assim. Pode ser lido assim. Ou então não. Enesse caso há tanto para ler nas entrelinhas.

Gostei e espero pegar noterceiro volume desta saga rapidamente.
02
Out14

O feiticeiro e a Sombra - Ciclo Terramar #1 , de Ursula K. Le Guin

Patrícia

Precisava ler qualquer coisa mais leve, algo que me ajudasse a libertar da carga emocional do livro que tinha acabado de ler. Nada como ler algo de fantasia. Mas eu e a fantasia andamos meio desavindas, culpa dos livros YA que tenho andado a ler. Mas a Roda dos Livros não falha e as meninas que gostam de fantasia aconselharam-me esta colecção (apresentada várias vezes como tetralogia mas na realidade é, desde 2001, composta por 5 livros).

Para já li o primeiro livro.  Como a capa indica, é um livro juvenil mas engane-se quem o julga um "Livreco para miúdos".  Achei este livro adequado para todas as idades. Basta gostar de fantasia e de uma história bem contada. E, acima de tudo, de um livro extremamente bem escrito.

O nosso feiticeiro é o Gavião (tem um nome verdadeiro que não vos vou dizer porque os nomes verdadeiros têm muito poder) que cedo descobre um talento inusitado para a magia. Depois de dar mostras desse talento meio por acaso (ou por talento inato) acaba por ir desenvolver os seus poderes para uma escola de magia. Mas o orgulho e a raiva são perigosos quando crescem a par com o poder e o Gavião terá que aprender da pior maneira possível. 

É inevitável fazer comparações com o feiticeiro mais conhecido da actualidade (mr. Harry Potter, of course) mas de facto não tem nada a ver. Este é um livro muito mais sombrio que os do HP, com excepção dos dois últimos volumes da saga, e apesar de ambos terem escolas de magia, estas são tão diferentes que não há comparação possível. Mas tenho a convicção de que os fãs de HP (eu sou uma delas) irão gostar deste Ciclo de Terramar.

Uma curiosidade: este primeiro volume foi publicado pela primeira vez em 1968.

Adoro esta capa. Senti-me atraída para ela desde o primeiro minuto e imediatamente uma palavra me saltitou no pensamento: Danuta. Fui ver de quem era a capa e não consegui deixar de sorrir ao ver o nome "Danuta Wojciechowska"! Impressionante. É de facto a minha ilustradora favorita. E eu, uma naba completa nesta cena das artes (a sério, sou mesmo muito má) reconheço uma ilustração "Danuta" a léguas. E quando tenho que comprar livros para crianças são os livros ilustrados por ela que procuro. São maravilhosos. Adoro, Adoro, Adoro.