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Ler por aí

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08
Jul10

A longa caminhada, de Slavomir Rawicz

Patrícia



Slavomir Rawicz era oficial da cavalaria polaca quando foi capturado pelo Exército Vermelho, em 1939, durante a divisão da Polónia entre a Alemanha e a URSS. Acusado de espionagem, seria condenado a vinte e cinco anos de trabalhos forçados na Sibéria, sem nunca ter tido a oportunidade de defender-se e sem que jamais fossem apresentadas contra ele quaisquer provas.

Juntamente com outros seis prisioneiros – cinco europeus de Leste e um americano – Rawicz elabora então um plano de fuga. Conseguem fugir um ano depois, levando consigo pouco mais do que a roupa que vestiam e a certeza de que não estariam em segurança enquanto se mantivessem em território russo. Rumo à Índia britânica, através das regiões inóspitas da Mongólia e do Tibete, numa caminhada longa e árdua feita em condições adversas, apenas o desespero e a esperança os acompanhavam. Mas parte do grupo consegue chegar à Índia, onde são assistidos pelos ingleses e enviados de regresso aos respectivos países.
É essa história de coragem e determinação, de amizade e trabalho de equipa, que o presente livro nos conta, dando ao mesmo tempo testemunho de um dos períodos mais marcantes da história do século XX.

Esta história é mesmo uma história e não uma estória. E isso faz toda a diferença. Não é um livro que se leia pela história, que é obviamente triste, mas sim pelo impacto que essa história tem em nós. 
Chamar-lhe "a longa caminhada" chega a ser irónico. Um ano de pé, a caminhar desde a Sibéria até à India. Um ano em fuga, desde o gelo da Sibéria, até à India, passando pelo calor infernal e mortal do deserto, pelas montanhas fatais, pelo Tibete. Um ano que mostra a força do ser humano, o seu melhor e o seu pior. A amizade daquele grupo de homens que mesmo nas piores circunstâncias são capazes de dar a vida uns pelos outros e pela menina-mulher que os acompanha. Conhecemos o melhor do ser humano, que mesmo com fome, sede, piolhos, é capaz de ser Homem, no melhor sentido da palavra. Conhecemos o melhor do ser humano em cada pessoa que os ajudou, muitas vezes sem sequer compreender o que aquele grupo de maltrapilhos dizia, e lhes deu um tecto, um chá, comida, abrigo, esperança.
Mas também este livro conhecemos o pior do ser humano, que tenta desumanizar os outros, que tortura, mata, humilha sem mais razão do que um estúpido sentido de superioridade que não tem explicação. Não há guerra, interesse, pátria que consiga justificar o que se passa nas guerras ou nos regimes totalitários que usam a força para se manter. 
Não consigo imaginar o que aqueles seres humanos sofreram. A força que foi necessária para sobreviverem nas condições mais adversas, mesmo depois de perderem o seu bem mais precioso.
Um livro que não é fácil de ler, mas que vale a pena.