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Ler por aí

Ler por aí

22
Ago20

Margarida Espantada, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Maria Marta, Maria Marta 
cuidado, que é farta 
a astúcia do mal 
não abras a porta à doce cantiga 
não espreites sequer 
nem medo ou fadiga 
te deixem ceder 
 
Que a porta oculta o que ainda não vês 
é engano do bruto 
e assim tão astuto 
é o diabo talvez 
 
Não abras a porta, Maria Marta

que o mal quando entra não sai nunca mais 
e de ti não se farta, Maria Marta 
e morde e sussurra e lambe e engana 
e finge que fala com voz quase humana 
e não mais se cala na tua cabeça 
bem podes pedir-lhe que um dia emudeça 
que o mal e o diabo prometem que sim 
mas riem assim que dançam de volta 
da Maria Marta 
 
Da Maria Marta 
que fica tão farta 
da vida tão torta 
que entrou pela porta 
que a Maria Marta 
é Maria morta.

Depois de "Jogos da Raiva" e do "Pianista de Hotel" o escritor Rodrigo Guedes de Carvalho entrou definitivamente para a minha lista de escritores "quero ler tudo o que escreveram". Margarida Espantada apenas veio confirmar que não sai dessa lista tão cedo. 

Com (literalmente) a inconfundível voz de RDG ler este livro foi uma experiência diferente. Optei por comprar o audiobook por gostar muito de ouvir histórias e também por querer recompensar a audácia de arriscar num formato tão incompreendido como o audiobook. RGD arriscou e venceu (espero que também em termos de vendas). Admito que de início foi difícil separar o pivô do narrador, foi difícil não ouvir este livro como quem ouve um qualquer período informativo na televisão mas depois de o ter feito consegui ouvir a história, as personagens, a voz de cada uma delas e sempre, sempre, ouvi-las conduzida pela voz do escritor, perito em transmitir-nos exactamente aquilo que pretende. Ouvir um audiobook é, por vezes, fazer um bocadinho de batota. É bem mais fácil perceber o que o escritor nos está a dizer. Especialmente quando é ele que nos narra a história. Batota e um enorme privilégio.o único

Tenho a certeza que nesta altura já sabem que Margarida Espantada é um livro que nos conta a história de uma família, que aborda inúmeros temas importantes e interessantes, por isso nem vou por aí. E acreditem em mim: a leitura será tão mais interessante quanto menos souberem sobre o que fala este livro. 

Nem sei porque esperava, no princípio, uma história leve e breve mas terá sido por não ter pensado em que escreveu o livro. RGC não escreve apenas por escrever, não escreve nem de forma leve, nem de forma simples. Não me interpretem mal, não é nada difícil ler este livro. Lê-se de um fôlego e tem uma linguagem bastante acessível. Mas não nos conta a história de uma forma linear, obriga-nos a pensar, a imaginar, a achar que percebemos tudo para perceber que não é bem assim, que a vida não é a preto e branco, tem todas as cores possíveis, na ficção como na realidade. 

O único defeito que aponto a este livro é um certo paternalismo (em algumas frases do livro que me fizeram revirar os olhos) ou se é a transposição da minha percepção do jornalista para o escritor. Mas não foi isso que prejudicou a leitura deste livro.

Não posso deixar de referir as piscadelas de olho aos seus leitores com a presença de personagens como a Ana Teresa ou a cena no Hotel Mirage. Acho muita piada a estes cruzamentos (lembro-me perfeitamente quando, numa releitura e pela primeira vez enquanto leitora, percebi uma ligação  que me deixou encantada). 

Arrisquem, oiçam o Margarida Espantada (ou leiam o livro, é como quiserem).

 

18
Nov18

Jogos de Raiva, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Jogos de Raiva foi uma óptima surpresa. 

Apesar de ter em casa um dos livros deste jornalista feito escritor (se bem que o mais justo e certo seria, talvez, dizer escritor feito jornalista), o Canário, a verdade é que nunca me tinha apetecido lê-lo. Foi depois de ouvir a sua participação no podcast do Expresso Palavra de Autor (partilho abaixo para quem não conhece e tem curiosidade) que decidi que queria ler este livro. E gostei muito mesmo.

Este é um livro extremamente actual. Sem dúvida será um livro datado, um livro da nossa época. Aquele que um dia daremos aos miúdos para lhes contar como foi o início do séc XXI. Há aqui um olhar acutilante, extremamente crítico mas também muito real da vida nas redes sociais. O olhar do jornalista aqui é tão importante quanto o talento do escritor. Aquela sequência final deixou-me sem ar. Não tanto pelo conteúdo (naquela altura já não tinha grandes dúvidas sobre o resultado da coisa) mas pela consciência do quão real é. Todos os dias. A toda a hora.

Exactamente como o escritor diz no Palavras de autor, a primeira página desde livro ataca-nos, provoca-nos uma impressão que não nos larga ao longo do livro. Quem é, afinal, aquele casal?

Uma discussão entre Francisco José e o seu filho Nuno, uma daquelas discussões que provocam um terramoto e mudam a geografia da terra, é o mote para levar-nos, a nós leitores, para o seio desta família. Francisco José e Clara,  os filhos Nuno, Ana Teresa e Santiago, a neta Catarina, o cão Camões, o amigo Pedro e outros personagens igualmente interessantes. O Xerife Sousa, por exemplo, cuja história me deu um aperto no peito que nem imaginam.

A família Sereno é uma família como qualquer outra. E como tantas tem um segredo. E os segredos têm essa coisa de crescer, criar tentáculos e às tantas destruir. Exactamente como as palavras. Que, às tantas, têm o poder de nos magoar de formas que nem imaginávamos.

Mas ia contar-vos um bocadinho sobre os personagens. Francisco, o pai que conta histórias mirabolantes aos filhos e que um dia escreve um livro que se tornará um sucesso porque foi descoberto pelos leitores presentes nas redes sociais, Clara, uma psiquiatra que adora flores e não sabe se fez diferença na vida dos doentes, Nuno que cresceu para ser jornalista, Ana Teresa que toca descalça, Santiago que vê o mundo de forma especial, Pedro que não é um artista (E então? Não temos todos de o ser), Catarina que já nasceu velha.

Às tantas o autor avisa-nos: Francisco José é assombrado por três naufrágios. Depois, conta-nos tudo. Um a um.