Ler por aí
 
01 de Maio de 2018

Somos todos leitores em construção.

Construímo-nos a cada livro que lemos, a cada livro que nos transforma, que nos dói ou nos encanta.

Mas se é verdade que ler tem um lado lúdico muito importante (e admito que esse lado seja – para a maioria de nós, leitores - o mais importante), a verdade é que ler também deve ser mais do isso.

Ler deve ser um caminho para o crescimento, para a maturidade. Ler deve tornar-nos mais sábios, questionar as nossas crenças, as nossas certezas.

A verdade é que quanto mais leio mais pequena me torno. Quanto mais leio mais compreendo o quanto me falta crescer enquanto leitora. Não entendam pf isto, esta declaração de que ainda tenho que crescer enquanto leitora, como “falsa humildade” (que aqui entre nós é coisa de que não sofro) mas sim como a real noção de que ainda não atingi o meu potencial enquanto leitora. Para ser verdade gostava de nunca o atingir. Gostava de ter sempre esta ânsia de aprender, de ler mais e melhor.

Gosto da sensação de entrar numa livraria e ter tantos livros à minha disposição. Gosto de não me limitar e de não ter “medo” de pegar num livro “complicado”. Gosto da sensação de ler e ter que reler. Gosto de mergulhar nos vários níveis de um livro. Gosto de ser desafiada por um livro.

E, acima de tudo, acho que esta dimensão mais educativa da literatura (não é por acaso que neste ponto prefiro usar a palavra literatura em vez de livro) é a mais importante. O acto de ler e de compreender é muito importante. Isto para nem falar do facto do cérebro precisar ser estimulado e da leitura poder ter um grande papel nessa parte.

Os grupos de leitores (nomeadamente a Roda Dos Livros) em que tenho participado têm tido um papel fundamental no meu crescimento enquanto leitora, o que me tem feito questionar a ideia de que ler é fundamentalmente uma actividade solitária. Na verdade, a partilha de informação tem sido extremamente importante para olhar para os livros de forma mais crítica e fazer análises mais completas.

Desafiarmo-nos, enquanto leitores, é (quase) tão importante como desafiarmo-nos enquanto pessoas. Aliás, para mim e acredito que para vocês tb, estes dois conceitos estão tão emaranhados que se torna impossível separar um do outro.

Um exemplo do que acima escrevi, de que ler me desafia a pensar é saber que este texto (e os rascunhos que lhe deram origem) nasceu da reflexão que a leitura do post A história de um leitor, da Miúda Geek, me obrigou a fazer.

publicado por Patrícia às 16:14 link do post
23 de Fevereiro de 2018

A frase é um dos motes do A Biblioteca de, que vos sugeri na quarta-feira e deixou-me a pensar se realmente assim é.

A ideia é maravilhosa, confesso. Conhecer alguém pelo seu gosto literário, pela sua estante. Quem nunca achou alguém bem mais interessante porque ele ou ela estava com um bom livro nas mãos ou se desiludiu porque descobriu que esse alguém estava a ler algo que consideras um péssimo livro?

A verdade é que qualquer pessoa fica mais bonita com um livro na mão. Eu pelo menos acho que sim. Há dias partilhei no meu FB uma frase qualquer que dizia: I'm suspicious of people who don't like books. A verdade é que conheço imensas boas pessoas que não gostam de ler. Mas nunca conseguirei partilhar com elas tudo o que sou porque a minha paixão pela literatura é uma parte substancial do que sou.

Mas voltando à frase "diz-me o que lês e dir-me-ás quem és", até que ponto é mesmo assim? Ou melhor, eu acredito que seja assim... não acredito é que isso seja assim tão perceptível para os outros.

Primeiro há a questão de parecer bem. Não é por acaso que se diz que Ulisses é um livro que não tão lido como dizem (mas é o "livro de cabeceira" de tanta gente) ou que O deus das pequenas coisas é um dos best-sellers menos lidos. A maioria das pessoas filtra aquilo que mostra de si aos outros, procura mostrar o melhor. E também isso acontece no que aos livros diz respeito. Raramente mostramos os nosso guilty pleasures (e se mostramos, não o são realmente, pois não?).

Depois há a questão dos gostos pessoais. Não só de quem lê mas de quem julga. Eu leio fantasia. Para boa parte das pessoas sou catalogada como leitora mediocre e há quem tivesse a esperança que com a idade esta mania de gostar de dragões e mundos imaginários me passasse (para que conste, não passou, agravou-se). Para outros demonstra que precisamente o contrário. 

A fantasia estimula a minha imaginação, permite-me passar para lá dos limites do real, permite-me fugir para outro mundo. Leio mais fantasia quando estou triste, preocupada, com medo. Leio fantasia para que o meu cérebro se distraia dos problemas. Mas também leio fantasia porque a fantasia é tão mais do que dragões e magia. A fantasia permite que qualquer tema - qualquer tema - possa ser desenvolvido, dissecado, sem que o leitor sequer disso se aperceba. Mas quando se apercebe... oh senhores, quando nos apercebemos disso e percebemos que alguma da boa fantasia que por aí anda se aproxima muito da filosofia e da análise das perguntas que mais perturbam a humanidade, percebemos que este género é um dos mais mal-compreendidos que por aí anda. Além disso é divertido. 

Ainda há a questão do tempo: nem toda a gente tem tempo de qualidade para dedicar à literatura. Há tanta coisa na vida que nos impede de mergulhar num livro. É pena, é uma chatice, mas a verdade é que sempre ouvi dizer que o urgente impede de fazer o importante. Life sucks e não há nada a fazer.

Há inúmeras outras condicionantes para a leitura: o dinheiro, o acesso a bibliotecas, as leituras obrigatórias para o trabalho, a falta de informação (acreditem, nem toda a gente tem internet ou acesso ao goodreads  e não há marketing que lhes dê a conhecer a maioria do que por cá se publica).

Portanto: "Diz-me o que lês e dir-me-ás quem és"? hummm, mais ou menos... sim ou talvez não.

O que acham?

publicado por Patrícia às 07:00 link do post
16 de Fevereiro de 2018

Não é propriamente uma novidade. Todos nós, leitores, percebemos que há vários tipos de livros, vários tipos de histórias, que perceber as várias camadas de um livro é o que de mais interessante nos pode suceder numa leitura.

Tal como vos disse na quarta feira esta teoria é dos meninos do The Legendarium (que têm até um episódio que lhe é totalmente dedicado) e eu acho-a bastante interessante.

Basicamente referem 3 tipos de história/momentos: o primeiro nível, o mais superficial, é o da história em si. Um livro totalmente nível 1 contar-nos-á uma boa história, permitir-nos-á passar umas horas divertidas mas não nos acrescentará nada à vida, não nos fará sequer pensar ou reflectir, muito menos evoluir ou crescer. 

O segundo nível será uma história (ou momento na história) com conotações políticas, sociais, de crítica aos sistemas em vigor, etc. O tipo de livro que nos faz parar para pensar um pouco no que nos rodeia. 

O nível 3 será um pouco mais profundo, far-nos-á reflectir, irá ao âmago do que somos, de quem somos. Basicamente caem neste nível as grandes questões da humanidade, as relações com os outros, questões de fundo, de valores.

Claro que estes níveis acabam por ser diferentes para cada um. O que aqui escrevi já reflecte mais a minha posição do que a deles e certamente será diferente da vossa.

Independentemente de usarmos esta ou outra escala, esta teoria mantém-se para cada leitor.

É interessante pensar um livro consegue ser um puro nível 1 e que funciona lindamente mas que qualquer um dos outros níveis de história só funciona se estiver combinado com uma boa história. 

Acredito que haja leitores para quem o nível 1 é mais do suficiente, que seja isso apenas que procuram: uma boa história. Nada de problemático aqui. Eu, pessoalmente, cada vez procuro mais livros com várias camadas. Livros que me obriguem a pensar. 

Mas tenho que admitir que o melhor mesmo é quando um livro é transversal a todos estes níveis e permite que cada leitor mergulhe naquela história de maneira individual e que, mesmo sem dar conta, se questione, questione o mundo em redor. Esse é o grande poder da literatura. Esses são os momentos nível 3 que fazem com que um livro, um autor, se torne especial.

Boas leituras

 

 

publicado por Patrícia às 07:00 link do post
09 de Fevereiro de 2018

E desta vez a pergunta foi-me feita com genuíno interesse, por um leitor que se sentia sem tempo para ler o que queria, no final de uma interessante – e inesperada – conversa sobre livros e literatura.

Para responder a esta questão tenho que, por um lado, frisar que não leio assim tanto – pelo menos no meu conceito da coisa – e por outro lado voltar à infância.

Cresci rodeada de livros. Aprendi a ler com imensa facilidade, muito antes de entrar para a escola, e sempre li as minhas próprias histórias. Quando precisei de dar alguns saltos nas leituras tive uma mãe a segurar-me na mão e a dar-me força para avançar.

Em miúda, a minha loja favorita era a Bertrand da rua de Sto António em Faro de onde nunca, NUNCA, saí sem um ou dois livros.

Vivia numa aldeia onde tinha liberdade para sair à vontade… mas só depois das 18h e até à meia-noite … todas as outras horas eram passadas em casa, com ou sem amigos, em que tinha que inventar o que fazer. Os livros, os seus mundos, sempre foram o meu refúgio.

Nunca fui “rato de biblioteca” mas conhecia todas as bibliotecárias. Se não me encontrassem no campo de volley a grande probabilidade era que estivesse nos sofás da recepção da escola a ler um livro – e nunca um funcionário ou professor me expulsou de lá. Na faculdade, era aquela que tinha sempre um livro… e era natural que estivesse o estivesse a ler ao lado dos meus amigos que estavam a jogar cartas.

Ler tornou-se parte de mim. Tornou-se uma forma de estabilidade.

A questão não é, nunca foi e nunca será “como consegues ler tanto”. A questão é, sempre será “Como é que consigo aguentar lendo tão pouco?”

A verdade é que sendo adulta e tendo mais responsabilidades do que as gostaria de ter, tenho muito menos tempo para do que aquele que já tive. Por isso tive que encontrar formas de dar a volta à questão.

  1. Sou cada vez mais crítica com os livros que leio. Ler é fundamentalmente um prazer mas resisto a ler sempre o mesmo livro – e a verdade é que há escritores que parecem escrever sempre o mesmo livro.
  2. Aproveito todas as oportunidades para ler – tenho sempre um livro comigo (nem que seja um ebook no telemóvel) e leio nos tempos mortos. Leio à hora do almoço e às vezes ao pequeno almoço
  3. Desligo a televisão. Há noites lá em casa em que pomos música e cada um de nós se dedica a fazer o que lhe apetece – tanto podemos ficar horas a conversar ou a jogar um jogo de tabuleiro como ler ou simplesmente partilhar o silêncio.

Mas tenho que confessar. O meu segredo neste últimos meses têm sido os audiobooks. O tempo em que ando de carro sozinha é passado a ouvir ler ou a ouvir podcast sobre livros e literatura.

E acima de tudo, resisto a contabilizar leituras. Leio se e quando me apetece (e posso). Leio o que me apetece. Tento participar em grupos de leitura e outras tertúlias. Leio, não só livros mas também sobre livros.

publicado por Patrícia às 07:00 link do post
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