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Ler por aí

Ler por aí

05
Ago16

A Gramática do Medo, de Maria Manuel Viana e Patrícia Reis

Patrícia

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"esta semana trocamos, fazes de mim e eu de ti"

Sara Santiago e Mariana Sampedro. Mariana e Sara. Duas mulheres que são o avesso uma da outra, a metade uma da outra. Iguais e diferentes. Tão diferentes quanto duas pessoas podem ser sendo iguais. 

Um livro a que preciso voltar. Páginas que preciso reler. É demasiado fácil dizer que é um livro sobre o medo, isso é óbvio pelo título. É demasiado redutor dizer que é um livro sobre a amizade ou sobre o amor, apesar de ser isso tudo. É óbvio que é um livro que enaltece as palavras, a literatura, que joga com a realidade e ficção (e como se diz às páginas tantas "cabe ao leito e espectador a terrível tarefa de discernir ficção e história"). 

Acho que é o tipo de livro que terá um significado diferente para cada leitor. Para mim é um livro sobre o auto-conhecimento. A procura e luta para nos (re)conhecermos. O quão nos castigamos por vezes e como nos iludimos. Sobre as várias partes de nós. A necessidade de morrer e voltar a nascer. A vida como circunferência e não como linha recta.

 

 Arrisquem. Leiam este livro. Falem sobre ele. Discutam as vossas interpretações do que aqui se conta. Há tanto para falar. Quando (antes da página 50) comecei a desenvolver uma teoria sobre o final, achei que me ia desiludir se "acertasse" mas a verdade é que, apesar de achar que acertei em cheio, não me desiludi nem um bocadinho, adorei todo este puzzle. E se já tinha decidido que queria ler tudo o que a Maria Manuel Viana escreveu, agora tenho que ler também tudo o que a Patrícia Reis escreveu. A  expectativa de ter tantos livros bons para ler é maravilhosa. 

Em Português e no Feminino escreve-se muito bem*.

 

"...agora sou eu quem te pede para de encontrares, se me encontrares, como eu preciso, posso salvar-nos e seremos um, entendes?"

* não por aqui, claro. Fico sempre com a sensação de que quanto mais gosto de um livro menos consigo transmitir isso. Por isso deixem-me resumir: Este livro é brutal (em vários sentidos). Leiam.

26
Jul16

O proibido é o mais apetecido. Qdo a censura tem o efeito contrário

Patrícia

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O Facebook, esse sítio onde o bom gosto e moral imperam, considerou que esta imagem atenta contra a moralidade e... censurou-a. Não vou fingir perceber o porquê disso ter acontecido mas, só porque me apetece, vou aproveitar a ocasião para fazer um bocadinho de publicidade ao livro que será o próximo a ser lido. 

Bem, na verdade, já o comecei a ler. Comprei-o ontem (em ebook, ficou a 9.99€) e não resisti e já li umas páginas. Não sei se já vos disse mas, deste que li o Teoria dos Limites decidi ler todos os livros da Maria Manuel Viana (ando com alguma dificuldade em encontrar à venda o "A paixão de Ana B", se alguém o tiver e se quiser desfazer do seu exemplar, avise-me, pf). Ler também algo da Patrícia Reis (escritora super recomendada pela Roda dos Livros) é um excelente bónus. 

10
Jul16

A vida dupla de Maria João, de Maria Manuel Viana

Patrícia

 

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Fiquei fascinada quando li o “Teoria dos limites”, da Maria Manuel Viana e assim que apareceram a Maria João e a Ana B., lembrei-me do que a autora nos contou, aquando da sua visita à Roda dos Livros. Ana B e Maria João são personagens recorrentes nas histórias da escritora. Ora, eu adoro estes mimos, estas histórias cruzadas que são, para além da importância que o escritor lhes dará, piscadelas de olho aos leitores.

Por sorte (e porque a roda dos livros é espetacular) tinha cá em casa este “A vida dupla de Maria João”, coincidentemente a personagem que mais me despertou a curiosidade na sua breve passagem pelo “Teoria dos Limites”.

Neste pequeno livro, que se lê num ápice, pode já ouvir-se, com clareza, a voz da Maria Manuel Viana. E Maria João é fascinante. Um misto de menina e mulher, de sabedoria e inocência, forte e ao mesmo tempo tão fraca. Autodestrutiva por natureza, obcecada para além do normal, é ainda assim (ou por isso mesmo) interessante e dona de uma personalidade que apetece conhecer. E se é verdade que passei metade do tempo com vontade lhe dar estalos, às páginas tantas tinha a certeza que passaria de boa vontade umas horas à conversa com esta mulher.

Não vale a pena pegar neste livro à espera de uma história rocambolesca, de uma vida genial ou de um romance feliz. Este livro é um mergulho na loucura e, pelo menos para mim, foi impossível dissociar-me completamente desta mulher.

Mais uma vez, gostei muito e fiquei com a certeza que quero continuar a ler Maria Manuel Viana.

25
Jun16

Teoria dos Limites, de Maria Manuel Viana

Patrícia

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Leibniz, matemático e filósofo, diz-nos, entre tantas outras coisas, que "o todo não é a soma das partes mas sim a sucessão, a integração  mais a sua interação". Pegar nisto, na noção de limite e continuidade, na pirâmide de base infinita e transformar tudo em literatura (sobre literatura) é algo assombroso mas perfeitamente possível para Maria Manuel Viana.

Tal como, apesar de uma função não estar necessariamente definida num ponto o limite nesse ponto pode existir, assim todos os personagens deste livro convergem para o Escritor, para o Outro que, enquanto vivo, foi uma âncora na vida de todos estes personagens. Aqui conhecemos, através da sua convergência para este homem, Mariana, Ana Sofia, Ana Lúcia, João Caetano, a Velha Senhora, Ana B e Maria João, e conhecemos as suas perspectivas em relação ao Outro sem, no entanto, o conhecer verdadeiramente. 

Depois de me ter sido repetidamente aconselhado pelos Rodistas, rendi-me à escrita desta escritora e a este livro de pouco mais de 150 páginas mas que é do melhor que já li. Sem me querer armar em pedante, tenho total noção que este livro não é para toda a gente, que nem todos os leitores estão interessados neste género de literatura mas tenho a certeza que faria bem a todos lê-lo, obrigar-se a pensar, a refletir nas questões que este livro nos põe. E não tenho dúvidas que cada leitor o lerá de forma diferente. Para mim este é um livro sobre possibilidades, sobre escolhas e consequências. Sobre o que somos, como nos vemos e como os outros nos vêem. Na diferença entre essas três perspectivas. E no esforço que fazemos para que essas perspectivas se aproximem ou se afastem. E no que o que somos e as escolhas que fazemos influenciam os outros, os que, de alguma forma, convergem para nós.