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Ler por aí

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24
Jun15

A Cifra, de Mai Jia

Patrícia


Há poucos livros com uma capa maisfantástica do que esta. Infelizmente é enganadora. Há poucas sinopses tãointeressantes quanto esta. Infelizmente é enganadora. Tirando isso gosteibastante do livro.

Comprei-o pela capa. E pela sinopse. 
Gostei pela escrita.  Pelas palavras,pelos personagens. Apesar destes serem pouco explorados. Na realidade e porconhecermos o personagem central (o único que realmente interessa) apenas pelaspalavras de terceiros quando ele é, nitidamente, alguém que não é passível deser atingido por quem quer que seja, rapidamente percebemos que afinal temosque tentar decifrar o próprio livro.
Rong Jinzhen é um miúdo estranho (éinclusive levantada a hipótese de sofrer de uma ligeira forma de autismo) que éeducado num amaldiçoado jardim de pereiras por um estrangeiro. É aqui, com asflores das pereiras, que aprende a contar. Quando acaba porocupar o lugar a que tem direito por nascimento é reconhecido pelo seu tutorcomo um génio da matemática e o lugar passa a ser seu por mérito e talento (e onde está a justiça disso?). Confesso que esta parte do livro me fascinou. Oautor consegue fazer-nos acreditar no génio e talento de Jinzhen. A relaçãodeste miúdo autodidata  com um professoruniversitário, também ele um génio da matemática com aspirações ao estudo dainteligência artificial (estamos nesta altura no final da segunda guerramundial), é super interessante. A ida deJinzhen para uma unidade secreta onde se torna um herói como criptoanalista marca a segunda parte deste livro. Eé aqui, quando pensava que a ação ia começar, que comecei a ficar um bocadinhodesiludida (e a culpa é de ter lido a sinopse). Nem a matemática toma um lugarde destaque, nem as cifras o fazem. Mas não deixa de ser interessanteacompanhar o destino de Jinzhen, a sua luta contra a Negra, o valor da amizade eda traição e a proximidade entre a loucura e o génio.
E é inevitável referir que, apesar de nãoconsiderar este um romance tipicamente Chinês (até porque, para ser sincera,não faço a menor ideia do que é isso), é possível aprender um pouco sobre aChina do pós-segunda guerra mundial, da cultura que ainda hoje marca este país.Essas marcas estão lá, inevitavelmente.

E apesar de ter ficado um bocadinho desiludida coma história (e continuo a culpar a sinopse, feita apenas para vender) gosteiimenso da escrita deste autor. Sem cair no facilitismo e na rapidez dospoliciais e thrillers conseguiu manter-me interessada do princípio ao fim.Parece que este é o primeiro livro de uma trilogia. Vou ficar à espera dacontinuação.