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Ler por aí

Ler por aí

21
Nov23

Caderno de Memórias Coloniais, de Isabela Figueiredo

Patrícia

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"A minha terra havia de ser uma história, uma língua, uma ideia miscigenada de qualquer coisa de cultura e memória, um não pertencer a nada nem a ninguém por muito tempo, e ao mesmo tempo poder ser tudo, e de todos, se me quisessem, para que me merecesse ser amada; quanto custava o amor?"

 

As memórias de Isabela Figueiredo fizeram-me companhia num voo longo de avião. Pude lê-las com tempo e de quase uma penada. A ideia de ter pela frente 8 horas de solidão é-me estranhamente apelativa. 8 horas sem notificações no telefone nem possibilidade de contacto. 8 horas minhas e só minhas, em que não me sinto de forma nenhuma culpada por ler e dormir como se não houvesse amanhã. Acho que percebem o quão cansada me ando a sentir. É um bocado triste ansiar pelo momento de ficar fechada num avião (e acreditem, não era o destino que me atraia - de todo - foram dias de intenso trabalho, longe de casa e sem tempo ou forças para fazer algo mais) mas é a pura verdade. 

Adiante.

As memórias de Isabela Figueiredo fizeram-me companhia num longo voo. E que bom foi. Livraço. Não é surpreendente. Sou fã assumida da escritora que agora também admiro pela coragem de se expor nas páginas deste livro. O retorno das colónias após o 25 de Abril marcou uma (ou várias) geração. Cá e lá. Como bons portugueses que somos gostamos de nos convencer que lidámos com tudo (colonização, descolonização, retorno, aceitação) da forma perfeita. Tão perfeita que nem vale a pena falar nisso. E é por isso que testemunhos como este, da Isabela Figueiredo, são tão importantes. Não vou falar do conteúdo do livro, não acho que seja relevante para a mensagem que vos quero passar. Prefiro destacar a importância do testemunho, a beleza das palavras e da forma como a escritora se mostra nestas páginas. Imagino que não tenha sido fácil. Imagino que tenha sido necessário. Não sei bem o que lhe diria se tivesse a oportunidade de me sentar a beber um café com ela mas acho que seria qualquer coisa do género "o amor transborda desde livro" antecedido de um "obrigada, foi um privilégio lê-lo".

Acabo a dizer o mesmo que digo sempre que falo de "O retorno", de Dulce Maria Cardoso ou do Gente feita de terra, da Carla M. Soares: eis um livro que podia ser lido nas nossas escolas, não apenas pela qualidade literária mas também pela ligação ao nosso passado recente e à importância que a memória do fomos tem para o nosso futuro.

"eu era ali a figura da terra vencida que pode saquear-se"

24
Mai23

Um cão no meio do caminho, de Isabela Figueiredo

Patrícia

 

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Acho que este foi dos livros mais consensuais dos últimos tempos. O problema é que eu sou, geralmente, a ovelha ronhosa e como tal fujo dos livros de que toda a gente gosta. Um outro problema é que todos me diziam ser um livro sobre solidão. Pior, um livro sobre a solidão nas cidades. E, para mim, a solidão tem duas facetas: ou é maravilhosa ou deprimente. As coisas maravilhosas não dão grande literatura e a "solidão deprimente" é coisa que me aflige muito e eu tenho medo de ver as coisas que me afligem muito transformadas em literatura bonita. Eu sei, sou estranha. Para além disto comecei três vezes este livro e não fiquei fascinada - em minha defesa devo admitir que essas três tentativas foram a altas horas de noites de insónia.

Mas quando percebi que o livro não é sobre solidão (eu compreendo porque o dizem) mas sim sobre o contrário da solidão e quando conheci o personagem fascinante que nos conta esta história fiquei completa e absolutamente agarrada. E li-o de duas penadas. 

Não considero que este seja um livro sobre solidão, apesar da "solidão", enquanto modo de ser, estar presente. Para mim esta história é sobre escolhas. Sobre coragem. Sobre a coragem de fazer escolhas que não são imediata ou facilmente entendidas. É também um livro sobre preconceito. A escritora mostra-nos os nossos preconceitos de uma forma muito pouco subtil mas bastante eficaz. 

 A coragem de viver de acordo com aquilo em que se acredita, a coragem de ser quem devemos e queremos ser deixou-me encantada. A força de nos libertarmos do condicionalismo da sociedade, de não permitirmos que seja as crenças dos outros a moldar-nos é aquilo que eu li nas páginas deste livro. Esta força, esta coragem não vem sem consequências. O caminho para sermos quem somos não é sempre fácil e sem caixas, quer dizer, sem pedras no caminho. E nem sempre é possível mesmo com toda a coragem do mundo. 

Isabela Figueiredo, neste livro, obriga-nos a enfrentar a nossa cobardia de uma forma ímpar.

Este foi um livro que ofereci mesmo antes de o ler. E não tenho dúvidas que o vou impingir a todos aqueles a quem ofereço livros.

 

13
Dez16

A Gorda, de Isabela Figueiredo

Patrícia

Não sei se em "A gorda" Isabela Figueiredo exorciza os seus demónios mas não tenho dúvidas de que, ao ler este livro, cada leitor o faz. 

Acredito que todos, com maior ou menor intensidade, do lado da vitima ou do lado do agressor, já vivemos situações de preconceito. Seja por uma característica física, uma situação familiar ou apenas por sermos de alguma forma diferentes, todos nós já fomos vencidos pelo preconceito. A maioria de nós terá, espero eu, ultrapassado esse tempo mais ou menos ileso mas a alguns esse preconceito deixou marcas permanentes, moldou personalidades e condicionou futuros.

A Maria Luísa viveu toda a sua vida com preconceito. Às tantas o seu próprio corpo traiu-a e deixou de lhe pertencer, deixou de a representar. Mas ninguém foge do seu corpo. Ninguém consegue evitar ver-se através dos olhos dos outros, através das palavras dos outros. Não imagino o que é chegar ao ponto de optar por se mutilar para finalmente se transformar naquilo que se sabe ser (não se preocupem, está na primeira página, não é nenhum spoiler). 

Este livro é feito de emoções. A escrita crua e angustiante da Isabela Figueiredo faz-nos olhar para a Maria Luísa de dentro. Faz-nos embarcar na viagem de auto-conhecimento enviesado que a própria personagem faz ao longo da vida.

Este livro é marcado pelas relações. Pelas relações de amor-ódio que marcam todos aqueles de quem somos próximos, pelas relações dos que entram e saem da nossa vida sem que percebamos bem porquê. Pelas relações que nos moldam e nos levam à felicidade da pertença ou ao abismo da solidão. Pelas relações de amor, com os outros, mas sobretudo connosco. Pelas relações que nos constroem e pelas que nos destroem.

Li este livro de uma forma muito pessoal, tornei-o meu e isso para mim é o maior elogio que lhe posso fazer. 

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