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Ler por aí

Ler por aí

08
Mar19

O Processo Violeta, de Inês Pedrosa

Patrícia

O processo violeta.jpg

Violeta, uma professora, envolve-se com um aluno, Ildo. Ana Lúcia, professora, vive o seu drama pessoal após ter sido violada por outro aluno. Clarisse, jornalista, persegue a história de Violeta e Ildo, enquando vive uma gravidez com a qual não se consegue conciliar. Paulina, mãe de Ildo, tenta sobreviver às consequências de uma verdade revelada.

Inês Pedrosa não nos facilita a vida e tenta obrigar-nos a olhar para os nossos próprios preconceitos (principalmente aqueles que insistimos que não existem). Apesar de nos transportar para os "loucos e maravilhosos" anos 80, é dos temas fracturantes da sociedade actual actual que este livro trata. Mas não é (ou não deveria ser) sempre assim na literatura?

Como olhar para a relação entre um miúdo e uma adulta? Aos 14 anos é-se miúdo ou adulto? O tema "consentimento", discutido até à exaustão nas tascas actuais (aka redes sociais) tem um lugar de destaque neste livro. Amor ou abuso? 

E quem acha que, com 14 anos, Ildo não tem maturidade para consentir num relacionamento como vê o miúdo, exactamente com a mesma idade, que viola Ana Lúcia?

E Violeta? Abusada ou abusadora? Mulher apaixonada ou infantil? 

Este livro, cheio de histórias de mulheres, obriga-nos a rever as convicções com que olhamos a sociedade actual. Não tenho dúvidas que, por isso, por ser uma história de mulheres que se atreve a pôr em causa limites e convicções estabelecidas será um livro mal visto, polémico e muito criticado. Aliás, já o é.

Por mim, gostei bastante. Não concordo sempre com as opiniões da autora que oiço regularmente no programa Páginas Tantas e no O último apaga a luz. Nem sequer concordo com tudo o que escritora (parece-me) quis transmitir com este livro. Mas isso não me impediu de o ler, de pensar e de formar as minhas próprias conclusões. Este é um bom ponto de partida para uma excelente discussão. E se há coisa que reconheço e respeito neste livro é que nele se ouve a voz da Inês Pedrosa em cada página...

Quando leio um livro, tento sempre separar o escritor das suas personagens e tento não o procurar em cada página. Claro que neste livro isso foi completamente impossível. Afinal, já ouvi "uma ou duas" daquelas histórias contadas na primeira pessoa pela escritora. Foi inevitável passar o tempo a pensar "quem é quem" no Insubmisso. E gostei do olhar crítico ao jornalismo...

Foi bom, muito bom rever Clarisse e Ana Lúcia, curiosamente duas personagens dos dois únicos livros que já li da Inês Pedrosa (Os íntimos e Desamparo). Gosto destas novas vidas dos personagens, gosto de os encontrar nas páginas de outros livros.

08
Jun15

Desamparo, Inês Pedrosa

Patrícia
 
 
Quase me envergonho de admitir que só li este livro porque foi o escolhido para a última reunião do Grupo de Leitura da LEYA. Depois de uma experiência menos feliz com um dos livros da escritora (e sinceramente já nem me lembro porquê mas desconfio que a idade e a maturidade tiveram qualquer coisa a ver com isso) comecei a deixar os livros da Inês Pedrosa para depois.Mas aviso desde já que me reconciliei com a escritora e com a sua escrita. Coma escritora porque nas horas que partilhou connosco foi extremamente simpática e interessante. Com a escrita porque, no final, gostei imenso deste livro. Ouvi-la na feira do livro foi um privilégio. E deixou-me com vontade de ler mais dos seus livros.
Mas falando deste Desamparo... Comecei mais ou menos interessada e até gostei da história que nos é contada na primeira metade do livro. É quase impossível não nos encantarmos com Jacinta, com as suas perdas e as suas dores,com as alegrias e a esperança que nunca perde. De uma forma ou de outra, todos conhecemos Jacintas, mulheres imperfeitas que ainda assim não merecem o desamparo e a solidão. Todos conhecemos ereceamos o abandono da velhice, o medo da solidão. Mas foi a Clarisse, a mulher da segunda metade do livro que me conquistou. O que querem? Às vezes são os personagens secundários que nos interessam e nos conquistam. E a Clarisse fez-me ficar a ler até às tantas. Nem sempre concordei com ela e amiúde apeteceu-me abaná-la mas, ainda assim,...
 

 

Acho que nunca me tinha acontecido não conseguir ler o livro antes da reunião do grupo de leitura e do respectivo encontro com o escritor mas (há sempre uma primeira vez) isso aconteceu com este livro e foi óptimo. Ouvir a escritora falar do livro fez-me prestar atenção a pormenores, a episódios da história, que de outra forma ter-me-iam passado despercebidos. E, um dia,quando me voltar a cruzar com a Inês Pedrosa, dir-lhe-ei que “sim, também me ri”.
10
Dez11

Os Íntimos, de Inês Pedrosa

Patrícia



Foi o primeiro livro da escritora que li e não posso deixar de me sentir um pouco desiludida. Esperava mais e o problema das expectativas é que elas crescem e na maioria das vezes ficamos com um certo formigueiro na ponta dos dedos.
Afonso é o fio condutor desta história que dá voz a 5 amigos, homens, diferentes e com uma amizade “tipicamente” masculina. Ou pelo menos é isto que a autora parece pretender. Afonso, Filipe, Pedro, Guilherme e Augusto reúnem-se para um dos seus habituais jantares e ao longo do livro conhecemos os seus pensamentos e boa parte da sua história. E principalmente a história da sua amizade, a tal tipicamente masculina (o que quer que isso seja) com todos aqueles clichés habitualmente atribuídos aos homens (e às mulheres). E foi aqui que este livro me desiludiu. Não me pareceu uma história sobre a amizade masculina, que compreendo perfeitamente ser atrativa para as mulheres, mas sim um livro sobre o que as mulheres supõem ser uma amizade masculina. Não é que o livro seja mau, porque não é, simplesmente parece-me pretender ser aquilo que não é. E parece-me isto precisamente pelas inúmeras menções ao que “as mulheres são...” e/ou “os homens são...”.
Gostei da história propriamente dita, dos personagens e da forma como todos, mais ou menos, têm voz e contam a sua versão de um mesmo acontecimento. Gostei as intrusões femininas no livro, da carta da Ana Luísa, da história de Bárbara e principalmente do conto da doente do Afonso. Apesar de estar um pouco descontextualizado achei-o brutal (nos vários sentidos desta palavra) principalmente por contrastar tanto com o tom (falsamente) ligeiro do livro.