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Ler por aí

Ler por aí

17
Mar16

Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam, de Helena Vasconcelos

Patrícia

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Disclaimer: O texto seguinte reflete apenas a minha opinião, pessoal e intransmissível. Não faço, nem tenho conhecimentos para fazer, análise de estrutura ou forma ou lá o que seja, não faço nem pretendo fazer crítica literária. Este post é também uma forma de exorcizar os sentimentos que este livro me trouxe. Nunca sou imparcial enquanto leitora, mas neste caso ainda menos. E o texto está cheio de SPOILERS.

Por isso, se pretendem ler este livro, não leiam este texto. E depois, se quiserem podemos conversar. E se gostarem, venham dizer-me, mostrem-me tudo o que este livro tem de bom e que eu perdi, não percebi ou deixei passar. Eu agradecer-vos-ei.

 

Diz Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias, que a escritora Helena Vasconcelos queria escrever sobre Jane Austen e que a história de Ana Teresa é apenas uma desculpa para isso. Tenho imensa pena que a escritora não se tenha ficado pelo ensaio uma vez que gostei imenso de todas as partes referentes à Jane Austen e nem um pouco da história de Ana Teresa.

Gostei de ler sobre a vida de Jane Austen, sobre a sua vida familiar, sobre o contexto que explica parte da obra desta fascinante mulher. Foi essa parte que me ajudou a chegar ao fim deste livro. 

 

Já vos falei, nos Diários de Leitura (aqui e aqui) que senti necessidade de ir fazendo, duas das coisas que me chatearam.

 

As personagens femininas dos livros de Jane Austen que já li são maravilhosas, inteligentes, chatas, irritantes, execráveis, adoráveis mas sempre e acima de tudo interessantes. Ana Teresa, a protagonista deste livro é insonsa, tonta e absolutamente desinteressante.

 

Esta é a banal história de uma pobre menina rica. Em Londres, enquanto refaz os passos de Jane Austen, e enquanto acaba a tese sobre a escritora Inglesa, procura um paralelismo entre si mesma e maravilhosa Jane. Ao mesmo tempo que seguimos as “aventuras” e desventuras da Ana em terras de sua majestade, vamos conhecendo o seu passado e as pessoas que dele fazem parte. Ouvimos vagamente falar de Tiago, o namorado de quem não gosta realmente e que parece ser a única boa pessoa da sua vida; Rebeca, a única amiga e que não passa de uma desequilibrada, invejosa e frustrada artista; José e Paula, os pais displicentes; Marianne a avó hippie a quem correu mal uma ida ao Alentejo (“...um campo inóspito e monocromático em Portugal, sob um sol inclemente, numa paisagem a perder de vista”) depois de ter vivido uma paixão ardente e proibida em Londres e Eduardo, um ex-professor. Em Londres, conhece Mark, um atraente músico que, com uma agenda secreta, está intermitentemente presente na sua vida. A história de Ana Teresa é banal e totalmente incaracterística de uma miúda de 22 anos (a tendência para a melancolia parece ser a sua mais marcante característica).

Compreendendo e concordando com a maioria das críticas que a escritora faz a este meu país, a nada subtil critica ter-me-ia apenas deixado desconfortável e até envergonhada caso houvesse o contraponto necessário de forma a permitir-me reconhecer o meu Portugal. Um exemplo para que percebam a diferença entre o Portugal deste livro e o meu Portugal:

Já no finalzinho do livro e no regresso da protagonista a Lisboa...

“O céu pejado de nuvens negras e o ar sufocante não auguravam nada de bom. O motorista remoeu as suas queixas e as notícias dos fogos que consumiam o País. A Rádio debitava notícias de bancarrota, desemprego, desalento, cisões, pobreza, corrupção, raiva e violência.

“Quem disse que Lisboa é uma cidade bonita?”, pensou Ana

Estava de mau humor e o que avistava da janela não a entusiasmava: as casas incaracterísticas, os prédios desirmanados, e desproporcionados, a tinta das paredes a estalar, descoloridos aqui e ali, o lixo a voar rente aos passeios e tapumes a tapar prédios devolutos. Estranhou a ausência de confusão no tráfego e fez um comentário ao motorista que resmungou: “Está calor, não há trabalho, vai tudo para a praia!”

Pararam no Areeiro, uma praça que Ana sempre achara feia e que agora ainda lhe parecia mais estreita e apertada.

 

Mas ainda não foi isto que me fez saltar a tampa e o mau feitio.

Enquanto bebe um copo com um homem, “percebeu que não queria, não lhe apetecia, não podia ser. No entanto, não teve coragem para fugir”. Bebeu uns gins tónicos e acabou por ser violada.

A autora optou por pôr a miúda a ter medo de reagir e a preferir engolir a humilhação e a nunca contar a ninguém.

 

Sim, eu sei que isto, infelizmente acontece amiúde. O que eu não percebo é como é que, para esta escritora, esta cena não tem qualquer consequência. Como é que a miúda, 10 páginas à frente, tem um fugaz momento de intensa e verdadeira felicidade, como é que o trauma que necessariamente vem como consequência de uma cena destas (a miúda ainda se questiona se seria mesmo violação) simplesmente não existe.

 

No final, só consigo dizer que não gostei deste livro.

16
Mar16

Diário de Leitura #2: Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam (Pode ter spoilers)

Patrícia

Uma coisa que me tira do sério é quando encontro citações/frases/poemas e afins noutra língua sem a respectiva tradução. 

Às vezes faz todo o sentido que algumas frases estejam noutra língua mas uma pequena nota de rodapé resolve a questão.

Eu não tenho problemas em ler em inglês mas há imensa gente que tem. Qual é o problema de pôr a tradução?

Não sei o que será pior: ser esquecimento ou de propósito. Parece-me uma falta de cuidado e de um desrespeito pelos leitores que acho inaceitável. 

Vários exemplos disto neste livro.

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14
Mar16

Diário de Leitura: Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam (Pode ter spoilers)

Patrícia

Numa visita à maravilhosa livraria Lello comprei o livro "Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam", da escritora e crítica literária Helena Vasconcelos. Confesso a minha ignorância, não conhecia a escritora nem a Crítica Literária (provavelmente já li algumas coisas escritas por ela, uma vez que sou leitora do Público) e fiquei muito curiosa com este livro após ter ouvido o Pessoal e Transmissível em que foi entrevistada pelo Carlos Vaz Marques.

Enquanto esperávamos o avião para regressar a Lisboa (vá, o autocarro com asas) aproveitei para começar a lê-lo. 

Dei por mim a revirar os olhos logo na primeira página com esta frase:

 

"Ao darmo-nos conta do défice de «génios» no atual universo criativo - sim porque hoje em dia o mundo pertence aos economistas e aos políticos, quiçá duas das profissões menos sexy e inventivas da galáxia - compreendemos que é difícil encontrarmos um Rembrandt ou um Tolstói, um Da Vinci ou um Joyce, uma Gentileshi ou uma Woolf, num mundo em que quase tudo é programado, copiado e repetido e em que o dever e o haver são as maiores preocupações das pessoas sejam elas as mais banais ou as mais sofisticadas."

 

e um pouco mais à frente:

 

"...estudo de humanidades, em declínio acentuado, por essa altura, nas sociedades ocidentais, mais preocupadas com as apostas na economia dos mercados, cotações na Bolsa, subidas e descidas de ratings e afins"

 

Passa-me pela cabeça que começa aqui a critica à sociedade prometida na contracapa e que a sucessão de clichés mais não são que ironias. Ora se assim é, muito bem.

 

Mas se assim não é, e porque é o género de expressão que eu - com formação em Matemática - oiço regularmente deixem-me desabafar um bocadinho (e extrapolar completamente).

 

Há algumas pessoas das (chamadas) Letras que parecem ter um imenso orgulho em dizer "eu não gosto nada de matemática" ou "eu sou de letras, não percebo nada de matemática" ou "eu odeio matemática". Cada vez que oiço tal sinto a mesma vergonha alheia que quando oiço alguém de matemática (ou de qualquer ramo das ciências ditas exatas) a dizer "eu sou de ciências, não gosto de ler". É exatamente a mesma coisa. Ter mais apetência e talento para uma das coisas é natural, desprezar a outra é estúpido e considerar natural a distinção é menosprezarmo-nos. 

Eu tenho imensa inveja de quem domina áreas que eu não domino. E isso é verdade quer para quem trabalhar em Física Quântica quer em Literatura Clássica, só para dar dois exemplos. Mas isso é diferente de dizer, com desprezo, que quem faz investigação é "um cromo" ou que quem já leu Proust é um "Totó". 

Eu já estou habituada a ser considerada a croma dos livros, sou conhecida por ter sempre um livro comigo e estar sempre a ler e continuo a ficar surpreendida por isso ser considerado uma peculiaridade que me caracteriza, uma característica "engraçadinha que se suporta com um sorriso". E também estou habituada a ser a croma de matemática, um ser sobrenatural que efetivamente gosta cenas estranhas como a fórmula de Euler, sigma-álgebras ou números imaginários. Na verdade qualquer uma das duas coisas é simples e natural e nada incompatíveis.

E sendo pouco socialmente correta (temos pena, tenho mau feitio) deixem que vos diga: há mais gente da área de ciências a perceber que a área das humanidades é maravilhosa que o contrário. Não é por acaso que temos tantos cientistas e  engenheiros,matemáticos e médicos que são também escritores.

 

Claro que há exceções.

A escritora Maria Manuel Viana escreveu um livro "Teoria dos limites", também com base no trabalho de Leibnitz e foi maravilhoso ouvi-la (privilégios da Roda dos Livros) a dizer que ficou fascinada com a "teoria de limites", que a estudou por opção e que isso deu este livro maravilhoso. 

 

Claro que os valores da nossa sociedade estão extremamente errados mas dizer que: é difícil encontrarmos um Rembrandt ou um Tolstói, um Da Vinci ou um Joyce, uma Gentileshi ou uma Woolf, num mundo em que quase tudo é programado, copiado e repetido e em que o dever e o haver são as maiores preocupações das pessoas sejam elas as mais banais ou as mais sofisticadas parece-me de um saudosismo desnecessário, principalmente se tivermos em conta que as sociedades daquelas épocas eram tudo menos perfeitas.

10
Mar16

Não há tantos homens ricos como mulheres bonitas que os mereçam, de Helena Vasconcelos

Patrícia

Vocês sabem que não faço publicidade nem divulgações por aqui a não ser em ocasiões muito especiais. 

Desta vez a divulgação não tem a ver com conhecer o escritor ou ter com ele/a alguma relação. Aliás, só "conheci" a escritora Helena Vasconcelos quando a ouvi no Pessoal e Transmissível  (mais um dos meus podcast de eleição).

Hoje, nos destaques do SAPO encontrei, num post do blog da Quetzal o texto de Anabela Mota Ribeiro no lançamento do livro 'Não Há Tantos Homens Ricos como Mulheres Bonitas Que os Mereçam':

Assim que comecei a ler este livro senti que ele era uma carta de amor à literatura, e também uma carta de amor a Jane Austen. Uma carta de amor é uma celebração e uma forma de prestar tributo ao outro, de dizer ao outro que se ama que os nossos dias não seriam os mesmos sem ele ou ela ou aquilo. Que a teia de encontros que a vida sempre é se alimenta muito particularmente daquele encontro.

Quero muito ler este livro (e este título? Fabuloso:) )

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