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Ler por aí

Ler por aí

18
Jun17

Aprender a rezar na era da técnica, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia

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(vou tentar que o post tenha o menor número de spoilers possível, mas terá SPOILERS)

Não será novidade para ninguém que este é um livro “duro”, difícil de ler. Difícil, não pela linguagem, mas pelo conteúdo. Não é possível haver qualquer empatia com os personagens. Também não é novidade que este é um livro sobre o “mal”. Mais um livro sobre o Mal, um tema recorrente nos livros do GMT, um livro sobre a capacidade, a tendência ou predisposição que o ser humano tem para o mal.

Estou a ler a tetralogia de “O Reino” numa ordem absolutamente aleatória e assim este é o segundo livro que leio (na verdade é o terceiro mas não conto a primeira vez que li o Jerusalém pois, claramente, não estava preparada para o ler).

Na primeira parte deste livro conhecemos Lenz Buchmann e ficamos (eu pelo menos fiquei) com certeza de que estamos perante um ensaio sobre “como se atinge o grau máximo de maldade”. Não é necessário estar com meias medidas, não acredito que haja uma pessoa capaz de ler este livro e não o associar imediatamente ao nazismo. Lenz Buchmann é um psicopata, infelizmente inteligente (geralmente são), execrável e que odiamos a cada página que passa. A construção deste homem, o resultado da sua educação ou da genética (teremos que ter em conta o contraste com a personalidade do irmão), a sua evolução de médico frio e orientado para os resultados (e para a excelência da técnica conseguida à custa da eliminação de qualquer réstia de compaixão ou empatia) para o político sedento de poder prepara-nos para tudo, menos para a segunda parte do livro.

O mais assustador, nesta fase, é o quão simples é o raciocínio atrás das atitudes daquele homem. A certeza que é superior, que as regras (sejam as da lei ou da ética) não se aplicam a si, a necessidade de controlo (sobre si e sobre os outros), a total ausência de humanismo (ou de humanidade) patente em cada gesto, em cada atitude, fazem de Lenz um líder extremamente eficaz e perigoso.

Disse que é impossível não associar este livro, este personagem, ao nazismo mas o mais assustador é que, a cada página, a cada atitude de Lenz, reconhecemos atitudes extremamente actuais, reais, contemporâneas. Atitudes que, sem dificuldade, reconhecemos.

A segunda parte do livro, é outra coisa absolutamente diferente. Lenz, continua a ser o ser humano execrável que é na primeira parte do livro, e obviamente que também me passou pela cabeça que “cá se fazem, cá se pagam” mas não me parece que esse seja o objectivo do autor. Aliás, parece-me que a aleatoriedade é um factor a ter em conta. As personalidades de Júlia e do irmão, o seu crescimento e transformação também nos devem fazer pensar.

No início deste texto disse que não foi possível criar empatia com qualquer personagem. Então porque gostei tanto deste livro? Porque gosto tanto dos livros do GMT?

Acho que é a escrita crua e dura, sem floreados, sem aparentes tentativas de tornar literariamente belas as reflexões sobre o mal. Posso passar metade do tempo horrorizada com o que este autor escreve mas ao mesmo tempo penso, reflicto sobre o que está ali e sobre o que eu vejo ali. E não é essa grande função da literatura?

27
Abr17

A Mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia

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Dizia o autor (nesta entrevista) que neste livro a história fazia tangentes à História e à tradição oral de contar histórias. De facto, é impossível não perceber algumas dessas tangentes até para alguém tão distraído e pouco culto como eu.

Neste novo universo, a que chamou Mitologias, Gonçalo M. Tavares apresenta-nos a personagens fascinantes. Desde logo a mulher-sem-cabeça e o homem-de-mau-olhado que nos são apresentados no título. Mas não acredito que haja leitores indiferentes a Ber-lim, cujo nome (e não só) foi divido ao meio numa viagem de comboio a alta velocidade, por exemplo. Ou à Mulher-ruiva. Ou aos Cem-homens mais um. Ou até, quiçá, ao Lobo.

Uma das coisas que me fascina na escrita deste autor é a possibilidade de ler o que escreve de uma forma mais ou menos literal. Optei por ler este livro devagar, com calma, sempre em busca de pistas para outros significados, outras camadas. Gosto da lógica estranha do escritor (não será por acaso que o meu livro favorito dele é o O  Torcicologologista, Excelência) que permite várias leituras, que permite que a sua escrita (especialmente neste tipo de livro onde as leis da física e da lógica sejam completamente deturpadas – gosto do fantástico, já sabem) se transforme quase num jogo, sempre em busca de mais uma camada.

E se pararmos para pensar um pouco começamos a perceber que, também aqui, num livro que podia ser considerado um livro de contos de terror, se reflecte sobre o mal, a natureza humana, a coragem e a cobardia, a aleatoriedade, as escolhas de cada um a cada momento. Afinal, são os temas que GMT vai explorando em cada livro.

Não espero que todos gostem deste livro mas eu não hesito, nunca, em recomendá-lo. E tendo em conta que já o li 2 vezes, acho que ainda vou voltar a estas páginas outras vezes. Gosto e pronto.

 

"O Muro é da altura de um homem de um metro e oitenta, cujos pés balançam quatro metros acima do solo. Era esta a medida, a referência" pag 66

 

 

21
Abr17

Sugestão para o fim de semana: A mulher-Sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado

Patrícia
03
Fev17

A Máquina de Joseph Walser, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia

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"Seis números encontravam-se colados ao dado e dali não saiam. E não havia um sétimo algarismo, uma sétima hipótese. O limite era seis.

Era essa exactidão que o excitava, essa exactidão bem definida por limites inalteráveis que no entanto guardava ainda um espaço para as suas decisões estranhas , que na verdade não eram decisões. (...) A grande decisão que existia no jogo, era afinal essa decisão profunda e forte que é decidir que se aceita, decidir que se está pronto para a submissão absoluta, para a não interferência no desenrolar dos acontecimentos"

Joseph Walser é um homem que vive à margem da sua própria realidade. De forma absolutamente voluntária escolhe ser um espectador e não um protagonista da vida. Para além dos jogos semanais de dados, "funde-se" com uma máquina mantendo com ela uma relação simbiótica, de subserviência, quase de amizade e tem uma peculiar colecção que guarda no quarto do filho que nunca teve.

Gonçalo M. Tavares é um dos escritores que considero mais desafiantes. Gosto da sua escrita, gosto da sua forma de falar de uma coisa enquanto fala de outra, gosto do domínio que tem da língua, da literatura e gosto acima de tudo do facto que ser um escritor que não poupa o leitor, que não escreve (só) para os leitores. Gosto das constantes reflexões que o autor nos propõe a cada passo.

Falta-me muito para compreender na totalidade os livros deste escritor mas facilmente lhe reconheço o génio. 

Parece-me que a natureza humana, o bem e o mal, principalmente o mal, estão sempre presentes nos seus livros. 

A relação do Homem com a Máquina é, de facto, um tema central neste livro mas é a relação do Homem com o Homem que me  despertou mais a atenção. Joseph Walser busca a solidão e total autonomia em relação aos outros. 

"Não tinha sequer uma pistola, mas eliminara a grande fraqueza da existência, fizera desaparecer a primária fragilidade da espécie: não possuía qualquer inclinação para o amor ou para a amizade!"

"E Walser não pôde deixar naquele momento de ser capturado por um orgulho: ele, sim, era um grande Homem, como defendia Klober, que conseguia estar separado de todos os outros, um homem verdadeiramente sozinho e individual."

Este foi um livro que não "digeri" nem fácil, nem rapidamente. Aliás, já o li há algumas semanas mas volta e meia volta-me à mente e obriga-me a reflectir. E esse é um dos principais objectivos da literatura, não é? Obrigar-nos a reflectir, pensar. Incomodar-nos. 

06
Abr16

O Torcicologologista, Excelência, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia

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Está completo o "audiobook" da primeira parte (diálogos) deste livro no Podcast "TSF - Livro do Dia"*.  Ainda quero reler e ouvir de novo antes de me atrever, de lápis na mão, a pegar na segunda parte. Depois falamos melhor. Mas adoro os diálogos. É para ouvir até que a aquilo deixe de ser surreal até que faça sentido.

 

*Juro que ninguém me paga a publicidade.

E aproveito para atualizar a lista de podcast para leitores (em PT-PT) (se conhecerem mais, avisem, pls)

Biblioteca de bolso

TSF - O livro do Dia

TSF - Pessoal e transmíssivel

À volta dos Livros

Última Edição

 

01
Fev15

Uma menina está perdida no seu século à procura do pai, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia
Marius, um homem em permanente fuga, ajuda uma menina na busca pelo seu pai. São os vários fragmentos  dessa busca que, tal como os cartões da caixa de Hanna, nos conduzem ao longo do livro. Várias são as personagens memoráveis neste livro. O homem que faz parte de uma família que pretende formar um exército obrigando-nos a parar, a baixar o ritmo e olhar com olhos de ver para o que nos rodeia ou o artista que esconde palavras e frases num só ponto são apenas alguns deles. A mim impressionou-me o casal dono de um hotel, com uma geografia muito especial: os quartos não tinham número, tinham nome de campo de concentração e estavam dispostos geograficamente como os campos de concentração no mapa.

 

Sem uma história linear, sem princípio nem fim, este livro levanta mais questões do que aquelas a que responde. Acabo de ler o livro e fico com asensação de que precisava de o ler mais uma ou duas vezes para descobrir os segredos, os sentidos escondidos naquelas páginas. Tenho vontade de me sentar em frente ao Gonçalo M. Tavares e de lhe perguntar o que é que Hanna disse a Marius e qual é, afinal, o segredo de Marius ou que me conte a história do velho que no quarto apenas tinha coisas com um peso igual à metade de seu próprio peso. Aliás gostava que ele me contasse a história de todos aqueles personagens fascinantes.
 

 

Há livros que me deixam com uma sensação de deixei passar alguma coisaou de que me falta conhecimentos ou sensibilidade para perceber o porquê de determinadas escolhas. Este é um deles. Apesar disso (ou também por causadisso) gostei de ler este livro com um nome e uma capa fantástica.
12
Jul11

Uma viagem à Índia, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia

Quando li o Jerusalém, a minha opinião não foi das melhores. Agora li o “Uma viagem à Índia” e a minha opinião não podia ser mais diferente. Gostei muito deste livro.
Confesso que o comprei assim um pouco contra-vontade mas faço parte de um grupo de leitura e este foi o livro escolhido.
A primeira abordagem foi complicada: este livro tem uma aparência muito parecida à dos Lusíadas, não me apetecia ler um livro em poesia (principalmente porque tinha quase 500 páginas) e depois da experiência menos positiva do Jerusalém estava um pouco reticente nesta leitura.
Mudei de ideias antes de chegar à página 40.
O livro não é em poesia, é uma mistura de prosa e poesia em doses mais ou menos iguais com uma cadência que o torna único e muito fácil de ler. É uma epopeia moderna (apesar de não respeitar certas regras da epopeia como por exemplo os decassílabos) quase “paralela” aos Lusíadas (por ex. o canto da ilha dos amores dos Lusíadas corresponde a outro género de “amor” neste livro).
A história é “simples”: Bloom, o herói, sai de Lisboa numa viagem à Índia. Primeiro vai a Londres, depois Paris a que se seguem outras cidades e chega finalmente à India onde espera encontrar espiritualidade e sabedoria. Bem, depois o resto é história porque nem Bloom é um grande herói nem encontra grande sabedoria.
Na realidade este livro é muito mais um livro para se reflectir do que um livro para ler apenas. Mas é um livro que vale a pena ler. E reler, aos bocadinhos. E pensar.
Depois deste, sei que vou ler mais livros deste escritor. Talvez não leia para já os outros livros d’ “O Reino” mas sim os d’ ”O Bairro”.
16
Mai11

Jerusalém, de Gonçalo M. Tavares

Patrícia
“SE EU ME ESQUECER DE TI GEORGE ROSENBERG QUE SEQUE A MINHA MÃO DIREITA”

Comecei a ler este livro com enorme expectativa. Gonçalo M. Tavares é considerado um grande escritor actual e este é o seu (na opinião de alguns, claro) melhor livro. Esperava tanto. Confesso que me desiludi um bocadinho. Na realidade achei o livro uma seca.
A história é simples, começa e acaba no mesmo sítio (uma das partes mais positivas do livro) e não é contada de forma cronológica. Apesar disso é facilmente percebida. Gostei do inicio e do final. O meio foi-se arrastando e tive que me esforçar por ultrapassá-lo.
As personagens são interessantes q.b. E digo q.b porque acho que havia muito mais a explorar em cada uma das personagens. Admito que o autor não tenha querido aprofundar cada personagem tornando-a “gente” e preferindo que fossem exemplos genéricos de um tipo de pessoa (desculpem, mas não consigo explicar melhor esta ideia). Acho que isto acontece com todos os personagens com excepção do Theodor Busbeck. Pessoalmente não acho grande piada a isto. Prefiro personagens construídas integralmente, porque para mim uma história não deve ser extrapolada, existe (e deve existir) por si própria.
Achei interessante que um dos altos do livro (pelo menos para mim) é exactamente o mesmo que num outro livro (O Vento Assobiando nas Gruas, da Lídia Jorge) sendo neste, Jerusalém, muito pouco aprofundado.
No geral não percebi o que faz deste um escritor tão premiado. É, sem dúvida, alguém que escreve bem mas não acho que seja um grande contador de Estórias. E eu gosto de escritores contadores de Estórias.**



** Não consegui transmitir neste post exactamente aquilo que queria. Não utilizo muitas vezes a palavra estória (até porque não gosto dela), prefiro manter-me fiel à antiga história e deixar para quem lê a interpretação e o significado. Neste caso abri uma excepção para acentuar o significado de “contador de estória”.