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Ler por aí

Ler por aí

17
Jul16

História do Novo Nome, de Elena Ferrante

Patrícia

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 A minha história com esta tetralogia continua a espantar-me. Leio compulsivamente e se tivesse os outros dois volumes provavelmente só parava quando tivesse acabado de ler história da Lenú e da Lila. Mas a verdade é que, depois de fechar de o livro, a magia vai desaparecendo e não consigo ficar assim tão ansiosa pelo próximo volume. Ainda assim, gostei mais um bocadinho deste volume do que do anterior apesar de não ser, para mim, tudo aquilo que dizem ser.

Lenú e Lila continuam a crescer e a percorrer caminhos distintos apesar do elo que as une. Lila, menina-mulher, luta para não se tornar num cliché, luta para não se tornar em mais uma mulher do bairro, sem rosto, sem vontade, sem nome. Mas tantas vezes a vemos como uma sombra de si. Lenú, continua a crescer e a sentir-se uma farsa. Ela própria se surpreende com as suas vitórias e, apesar de continuar a lutar com unhas e dentes, continua a sentir-se à sombra da Lila, que aos seus olhos continua a ser aquela a quem Lenú precisa mostrar o seu valor.

Elena Ferrante conta-nos esta história de uma forma fenomenal e é exímia em tornar reais sentimentos. Será por isso que tanta gente diz que esta é uma escrita "obviamente feminina"? 

A angústia de Lila, a raiva, o medo, a frustração que transbordam daquela criatura. Lila é sempre excessiva, seja na raiva, seja no amor. E o contraste desta explosão de sentimentos com a apatia que por vezes mostra deixa-me estarrecida.

Mas é Lenú que, uma vez mais, me fascina. E me entristece. Quando Lenú descobre que não pertence ao mundo a que tanto lutou para pertencer, ao mundo que deveria ser seu por direito mas que também já não pertence ao bairro, que nunca mais pertencerá ao bairro, o meu coração sofreu por ela. Sentir-se sem chão, sem nada nem ninguém que sirva de âncora é o que de mais triste pode existir.

Antes disse que Elena Ferrante tinha todo este sucesso porque sabia contar bem uma história. Agora acrescento que Elena Ferrante sabe transformar sentimentos em palavras. E no fundo, não é exatamente isso que a literatura procura? Transformar sentimentos em palavras, escrever o amor, a dor, a angústia? Bem, Elena Ferrante fá-lo como ninguém.

12
Mai16

A Amiga Genial, de Elena Ferrante

Patrícia

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"Foi durante esse percurso até à Via Orazio que comecei a sentir-me claramente uma estranha, que a minha própria estranheza tornava infeliz. Crescera com aqueles rapazes, achava os seus comportamentos normais, a sua linguagem violenta era a minha. Mas havia seis anos que seguia diariamente um percurso que eles ignoravam completamente, e que eu, pelo contrário, enfrentava de forma tão brilhante que revelara ser a mais competente. Com eles não podia usar nada daquilo que aprendia todos os dias, tinha de conter-me, de certo modo autodegradar-me. Aquilo que eu era na escola, ali era obrigada a pô-lo entre parêntesis, ou a usá-lo à traição, para os intimidar"

 

Lenú conta-nos a sua própria história, contando-nos a história de Lila. Amigas, rivais, cúmplices, duas faces de uma moeda numa vida que se insiste em entrelaçar.

Ferrante é uma exímia contadora de histórias. Ou melhor, Ferrante é uma exímia contadora de vidas, de sentimentos, de emoções. De uma forma pungente pega-nos na mão e leva-nos para dentro da vida desta menina-mulher que é Lenú. E é, na minha opinião, essa maravilhosa capacidade de contadora de histórias que faz dela o fenómeno literário que é.

Este livro (e claro, a tetralogia de que faz parte) é a maior surpresa literária da atualidade. Resisti a lê-lo porque não sou a maior fã de best-sellers, consigo sentir-me sempre a ovelha negra dos leitores e ando, quase sempre, às avessas com a crítica literária. As expetativas são tramadas e o "A Amiga Genial" é a estrela da literatura. Conseguiu-o de duas formas - uma fenomenal campanha de marketing (que inclui o "de mão em mão") e um regresso à literatura clássica (talvez não o devesse chamar assim, mas é a única forma que o sei dizer). E eu fico feliz por ver o sucesso de uma "estória" bem contada. 

Senti-me novamente a ler o "Mulherzinhas", de Louise May Alcott (talvez não seja coincidência ser o livro favorito da infância de Lenú e Lila) ou o Terra Bendita de Perl S. Buck, livros que marcaram a minha adolescência. Numa altura em que a literatura contemporânea está numa busca permanente pela novidade e pela diferença, ler este "A Amiga Genial" é como voltar a casa, voltar ao conforto das leituras intemporais. 

Talvez por fazer o paralelo entre este livro e o Terra Bendita, fiquei surpreendida por não ter ficado fascinada pelo "A amiga Genial". Para dizer a verdade precisei chegar quase ao fim para me interessar por esta história e apenas por suspeitar que as Lenú e Lila adulta serão infinitamente mais interessantes que as versões infantis. Talvez, mas só talvez, dê uma oportunidade ao resto da série.