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Ler por aí

Ler por aí

13
Abr13

David Soares e o conselho aos escritores

Patrícia
DS - Seja de fantasia ou não, o meu conselho é sempre ler muito, porque é a única escola de escrita que existe. Ler muito e aprender bem as regras da gramática, chamemos-lhes isso. Um escritor tem de ser erudito. Se não for assim, não vale a pena escrever, porque só vai escrever obras menores. Como em qualquer arte, a personalidade criadora, a voz, vai de dentro para fora. Quando se é mesmo artista, isso rompe, mostra-se. O resto é polimento, é refinamento, é desenvolvimento. De facto, tem de ser-se, já, artista. Os artistas nunca se fazem: já o são. Um indivíduo pode matar-se a trabalhar, a aprender a ser muito bom, mas se não for, de facto, artista, isso vai notar-se sempre, vai ser sempre uma sombra que ofusca o que ele cria. Hoje, existe uma fronteira muito ténue entre o autor e o público, porque é o público que compra a obra, logo o mercado obriga a essa proximidade, mas isso é muito destrutivo porque os indivíduos acham que a arte tem de estar ao nível deles, quando são eles que têm de pôr-se ao nível da arte. Há poucas dezenas de anos, um tipo entrava numa galeria e até tinha vergonha de admitir que não percebia um fiapo de arte: hoje, pelo contrário, diz-se que a arte é má se não for compreendida à primeira olhadela. Há uma grande tirania do público que está a matar a arte. Não tenho nenhum hábito de citar Nietzsche, mas ele, no Para Além do Bem e do Mal, tem um aforismo certeiro sobre isto: «-Não gosto. - Porquê? -Porque não estou à altura. Alguma vez alguém pensou assim?» Os artistas precisam de recuperar inacessibilidade, ascetismo. Precisam de recuperar mistério, por que não?

Gosto muito dos livros do David Soares e estive a ler com muita atenção uma entrevista que ele deu  e que publicou no seu blog. Roubei-lhe a resposta à última pergunta "Que conselho darias a um escritor de fantasia?" porque achei um óptimo conselho e concordo totalmente com ele (e eu nunca o saberia dizer tão bem - lá está, sou leitora e não escritora) e porque é mais um forma de vos dar a conhecer este escritor e este blog.
Claro que não consegui deixar de revirar os olhos quando na mesma entrevista li "Aliás, eu leio dicionários como quem lê romances: começo no A e acabo no Z, por isso... "... a sério??? (sim, é trauma, mas à conta deste escritor já aprendi o significado de várias palavras sendo a minha preferida "peripatetismo")
28
Fev13

No Muro, de David Soares

Patrícia


Gostei do conto do David Soares que foi publicano nabiblioteca digital do DN. Chama-se "No Muro" e fala-nos de livros, tema por quetenho especial carinho.
Não é um estória feliz mas eu gostei.
Claro que me sinto sempre burra quando leio David Soares.Num mero conto de 3 páginas (nem isso) fui ver o significado de 8 palavras(sim, 8, sou uma inculta). Por curiosidade digo-vos que nem todas constam do Priberam.Não me surpreendeu ter tido que consultar o dicionário várias vezes – foi umaconstante enquanto lia o “Evangelho do enforcado”- mas acho que num contodivulgado num jornal o escritor poderia ter simplificado (e se calhar até ofez). Se há certamente muita gente que não teve qualquer dúvida ao ler o conto,outra há que as tiveram e esses (provavelmente) não terão grande vontade depegar nos romances do escritor – e vão perder imenso porque vale mesmo a penaler David Soares.
28
Abr11

O Evangelho do Enforcado, de David Soares

Patrícia

Sinopse

Nuno Gonçalves, nascido com um dom quase sobrenatural para a pintura, desvia-se dos ensinamentos do mestre flamengo Jan Van Eyck quando perigosas obsessões tomam conta de si. Ao mesmo tempo, na sequência de uma cruzada falhada contra a cidade de Tânger, o Infante D. Henrique deixa para trás o seu irmão D. Fernando, um acto polémico que dividirá a nobreza e inspirará o regente D. Pedro a conceber uma obra única. E que melhor artista para a pintar que Nuno Gonçalves, estrela emergente no círculo artístico da corte? Mas o pintor louco tem outras intenções, e o quadro que sairá das suas mãos manchadas de sangue irá mudar o futuro de Portugal. Entretecendo História e fantasia, O Evangelho do Enforcado é um romance fantástico sobre a mais enigmática obra de arte portuguesa: os Painéis de São Vicente. É, também, um retrato pungente da cobiça pelo poder e da vida em Lisboa no final da Idade Média. Pleno de descrições vívidas como pinturas, torna-se numa viagem poderosa ao luminoso mundo da arte e aos tenebrosos abismos da alienação, servida por uma riquíssima galeria de personagens.


Este livro não é (nem me parece pretender ser) um romance histórico. Também não me parece ser uma tentativa de solucionar o mistério sobre os painéis de S. Vicente. É um livro de fantasia e apesar de ter algumas referências históricas e muitas personagens reais não é um retrato usual da sociedade Portuguesa do Sec. XV. É no entanto estranho ler um livro com referências históricas e de repente “ver” pessoas completamente diferentes do que as que “conhecemos” nos bancos da escola e nos livros de história. A bem da verdade devo referir que, segundo o autor nos explica no final do livro, todos os “desvios” à história tradicional são baseados em hipóteses levantadas em estudos.
Para mim, Algarvia, é difícil ver um D. Henrique assim. E veja-se que o assim não tem nada a ver com a opção sexual do senhor mas sim com o carácter que era, no mínimo, questionável. Sinceramente não me custa muito a admitir a possível veracidade desta descrição mas colide com a importância e a dignidade a história sempre nos habituou em relação à personagem do Infante.
A história do livro é interessante e desperta-nos a curiosidade principalmente depois de percebermos que o livro não é um romance histórico. A loucura e a tanatofilia são o prato forte desta história que sendo assim para o negra não deixa de ser divertida.

Nunca tinha tido que ir tantas vezes ao dicionário durante a leitura de um livro. Este senhor usa mais palavrões (no sentido de palavras difíceis) que a Tia Agustina por quem tenho um ódio de estimação à conta da Sibila que fui obrigada a ler no 12º. A sério senti-me um bocadinho ignorante por ter que consultar o dicionário aí umas duas vezes por página. Confesso que na primeira metade do livro estive com o dicionário ao lado o tempo todo e o resultado são meia-duzia de post-its e muitas notas nas margens com definições mas na segunda parte de livro desisti e apesar de ter “tirado umas pelas outras” não tive dificuldade em perceber a história e ler o livro. Fiz isto porque tive que ler este livro a contra-relógio mas farei questão de lê-lo uma segunda vez e continuar o trabalho de sublinhar e escrever o significado de cada palavra desconhecida para mim. A verdade é que aprendi imenso. Não me parece que vá usar muitas vezes estas palavras mas é sempre interessante aprender.

No geral gostei bastante do livro.