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Ler por aí

Ler por aí

26
Out18

Pão de Açucar, de Afonso Reis Cabral

Patrícia

 

 

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Lembram-se quando, na infância, faziam aqueles exercícios de unir pontinhos até aparecer um desenho? Ou de ter frases com espaços em branco para preencher? De uma certa forma foi isso que o Afonso Reis Cabral fez com a história da morte de Gisberta.

Pegar num acontecimento chocante e marcante como este, principalmente quando é ainda tão recente, requer alguma coragem. Algumas das reacções que por aí houve são prova disso. Romancear a história atrás da história não foi, certamente, fácil.

Sabendo já o final do livro, o desafio era manter os leitores agarrados às páginas através do percurso.

Humanizar o desumano. Não sei se foi isto que o Afonso tentou fazer mas foi isto que eu senti. E não acho que humanizar seja, nem de perto de longe, sinónimo de desculpar, ok?

Aqueles miúdos, que foram capazes de matar a sangue frio e em matilha, transformaram-se, ao longo do livro em gente, em miúdos. Não sei (e sinceramente não quero saber) quão próximo da realidade este livro está. O que interessa são as possíveis respostas a perguntas  como “o que leva alguém, especialmente um grupo de miúdos, a matar?”, “Como se desumaniza alguém a ponto de ser capaz de lhe fazer o que eles fizeram a Gisberta?”, “Como é que miúdos adolescentes são capazes de fazer a um ser humano, aquilo?”, “Pior, como é que se atravessa determinados limites?”.

Ao longo do livro debruçarmo-nos também sobre a educação (mais ou menos enviesada), e o (des)equilíbrio emocional e social têm um papel fundamental na sociedade.

No próximo fim de semana há uma enorme possibilidade de ser eleito como presidente do Brasil um ser que, à pergunta “e se o seu filho fosse homossexual?” respondeu “preferia que morresse”. Crimes de ódio acontecem com frequência e há, infelizmente, a tendência para essa frequência aumentar. Para além disso é cada vez mais difícil discutir e analisar o que quer que seja no espaço público. A literatura poderá, assim o queiram os escritores e os leitores, ser um óptimo palco para analisar, discutir e fazer-nos reflectir na nossa responsabilidade cívica, humana no nosso cantinho em particular e no mundo em geral.

Sim, porque não me foi possível ignorar, ao longo das páginas deste livro, quem lá não estava. Não estavam adultos, não estavam amigos, não estavam pais nem professores, não estavam educadores, não estavam médicos, nem vizinhos, nem prostitutas nem clientes. Não estava lá ninguém.

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12
Dez14

O meu irmão, de Afonso Reis Cabral

Patrícia
          

Um desabafo de que fiquei“em estado de choque” quando acabei de ler este livro e que talvez nunca meapetecesse falar sobre ele acicatou a curiosidade de alguns. No nosso país,onde o prémio LEYA tem um destaque imenso (devido ao montante do prémio e aomarketing envolvido) é inevitável que haja uma imensa curiosidade relativamenteàs obras vencedoras.
Parti para esta leiturasem sequer ter lido a sinopse do livro e sabia apenas que era um livro sobre arelação de dois irmãos. Um tinha síndrome de down, o outro não.
Quando comecei a ler olivro (em versão eletrónica e ainda antes da versão em papel estar à venda –parabéns LEYA por ter posto à venda a versão eletrónica antes da versão física)não ia à espera do que encontrei.
Para poder escrever sobrea minha relação com este livro não consigo evitar SPOILERS, pelo que, se aindanão leram o livro, sugiro que parem de ler aqui, reclamações posteriores nãoserão aceites.
Num livro cuja açãosaltita entre um presenta numa aldeia do interior de Portugal e vários momentosno passado conhecemos, na primeira pessoa, a relação de um homem com o seuirmão que sofre de síndrome de Down. É inevitável estabelecermos uma ligaçãodiferente com os dois irmãos. Ao longo da maioria das páginas do livro duaspersonalidades distintas vão-se dando a conhecer e Miguel, com todas aslimitações inerentes à sua doença, é uma personagem fascinante. O seu amorincondicional por Luciana, as suas reações que fazem absoluto sentido no seumundo, a sua relação com os pais e com o irmão são tudo aquilo que esperavadeste livro. Não conheço de perto esta síndrome mas gostei do que li.
Mas foi a personagem donarrador que me fascinou. O percurso escolhido, as reações, os sentimentos aolongo do crescimento numa família que, necessariamente, vivia em redor daqueleque mais necessitava e que acabou por condicionar (ou no mínimo ajudar amoldar) irremediavelmente a personalidade deste homem foram-me deixando cadavez mais desconfortável.
A espiral de loucura foio que mais me chocou.
O que está escrito e oque não está (nunca me esqueci que aquela era a versão do narrador) e que melevou a questionar o poder da loucura, da inveja, do ciúme, da maldade e doamor.
Esta é, como sempre, umavisão muito pessoal de um livro que gostei de ler e que não me foi, de todo,indiferente. Acho que esta minha dificuldade em escrever sobre o livro é omaior elogio que lhe posso fazer. Afinal nunca gostei de livros muito fáceis.
(e notaram que conseguiescrever tudo sem referir a idade ou a família do autor? É que, sinceramente,isso não interessa mesmo nada)