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Ler por aí

Ler por aí

30
Dez20

Os livros de 2020

Patrícia

Foram poucos mas muito bons. Alguns memoráveis. Outros cumpriram o seu objectivo de me ajudar a passar o tempo quando precisava parar de pensar. Muitos obrigaram-me a pensar. Não gostei de todos da mesma forma, há pelo menos 1 inacabado (que não consta da lista) mas no geral foi um bom ano de leituras.

(imagens "roubadas" do goodreads que nos faz estas coisas giras)

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29
Dez20

Book Love, de Debbie Tung

Patrícia

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Um livro maravilhoso que eu não conhecia e que me foi oferecido por uma amiga (muito) querida neste Natal (é tão bom partilhar a paixão dos livros). 

Uma vez mais Obrigada, you know who!

Uma novela gráfica (será que posso chamar a isto novela gráfica? não faço ideia mas vou chamar na mesma) que consegue transmitir de forma perfeita o que é amor aos livros. Revi-me em cada página e em mais do que uma passei o livro ao meu marido e disse-lhe "estás a ver?".

Aliás, ontem à noite, estava eu num sofrimento atroz por causa do Kaladin (Stormlight Archives, The Rhythm of War) quando lhe mandei a página que está aí em baixo.

Não há, nestas páginas, nada de novo. Há o prazer do reconhecimento. Cada um de nós já tentou explicar que o seu amor aos livros era parte de si e indissociável de quem somos. Agora até temos desenhos para o mostrar.

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01
Dez20

A casa quieta, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Não é o meu livro favorito do autor, prova disso é o (tanto) tempo que o levei a ler. Mas, como os outros livros de RGC, é exigente (talvez até um pouco mais que os outros). 

Sabemos (ou julgamos saber) logo no primeiro capítulo como é o final desta história: um homem, após a morte da sua mulher, entra numa casa vazia, demasiado vazia. Uma coisa é certa, RGC acaba-nos com a esperança em meia dúzia de linhas. Depois conta-nos o que levou àquele desfecho, os como e os porquês. E nunca, em ponto nenhum, nos devolve a esperança que nos roubou. 

António e Salvador. Dois irmãos. Salvador, um arquitecto, casado com Mariana. António, advogado, casado com Eunice e pai de dois filhos. Vidas que, exactamente como o pai deles pretendia, são quase perfeitas. Mas, como na vida, o mundo que vive em cada um de nós tem o poder de nos absorver, remodelar ou destruir.

Não há muitos factos ao longo destas páginas. E nem todos são consequentes à primeira vista. Às vezes até parecem ali metidos apenas para chocar ou para dar a oportunidade ao escritor de nos transmitir uma ideia interessante (como quando uma cidade é destruída apenas pelas palavras). Mas depois há torrentes de emoção, há capítulos (como os de António) que nos conseguem atingir e deixar com um nó na garganta. 

Um livro sobre a solidão, o medo, a loucura (ou sobre aquilo a que chamamos de loucura), a perda (não só de alguém mas de sonhos, de expectativas), escrito de uma forma dura, algo primitiva.

 

09
Nov20

Os testamentos, de Margaret Atwood

Patrícia

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Na sequência do "A história de uma serva", uma distopia que deu que falar nos últimos anos, este Os testamentos leva-nos a Gileade, onde as mulheres têm poucos direitos, onde ler é uma actividade reservada aos homens (e a algumas - poucas - mulheres), onde as meninas são forçadas a casar assim que entram na puberdade e onde a corrupção é cada vez mais presente.

Um aparte para comentar a proibição da leitura. Este elemento não é novo nem na ficção nem na realidade. Uma e outra vez somos obrigados a olhar para esta actividade como um privilégio e ainda assim desvalorizamo-la tanto. Muitos sabem o que fazem - uma sociedade sem livros é uma sociedade acrítica, sem vontade, sem capacidade de luta. Mas continuamos a dar pouco, muito pouco, valor aos livros, ao conhecimento, à educação, à escola - sítio único onde a igualdade de oportunidades tem uma hipótese de vingar e ser uma realidade.

Voltando a Os testamentos (que eu preferia que se chama-se "Os testemunhos" mas como não sou tradutora, deixo isso apenas como uma opinião sem grande validade)

Ao longo das páginas deste livro conhecemos a história e o testemunho de três personagens: Lydia, uma Tia fundadora, a testemunha 369A e a 369B. Três mulheres diferentes, com percursos bastante distintos mas que, sem surpresa, se vão cruzar.

É bastante interessante acompanhar o percurso e o que o condiciona, as escolhas de cada uma. A noção de somos, não apenas o que a sociedade e os outros fazem de nós, mas também (e acima de tudo) produto das nossas escolhas está bem patente neste livro. 

Como sempre, este género de livro - que tantos descartam como "fantasias" - reflecte profundamente sobre a sociedade actual, as escolhas, anseios e preocupações que nos afectam hoje (aliás, 2020 tem transformado muitas distopias em "ficção muito perto da realidade").

Margaret Atwood continua a  revelar-se uma voz importante e incontornável

 

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08
Out20

As Benevolentes, de Jonathan Littell

Patrícia

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Dizer que "gostei" deste livro parece-me sempre a despropósito. Dizer que é um livro "horrível", é uma injustiça. Ainda assim gostei deste livro e é um livro horrível.

Acho que nunca me tinha custado tanto ler um livro. A verdade é que foi uma leitura em andamento durante mais ou menos 10 meses, não por ser enorme (que o é) mas por apenas o conseguir ler em doses homeopáticas. É um livro duríssimo, aquele que menos protege o leitor em relação às atrocidades sobre o holocausto.

Um aparte para falar um pouco esta "moda" dos livros sobre o holocausto. Já toda a gente sabe que pôr Auschwitz no título de um livro vende. Mas convém que, pelo menos, que não se romantize a época mais negra da história da humanidade. Eu compreendo o fascínio que tanta gente tem sobre o holocausto e a segunda guerra. É fácil perceber porque tentamos, através da literatura, compreender como foi possível que o ser humano chegasse a tal desumanização. Mas não (me) é fácil compreender a quantidade de histórias (bonitas) para contar que não trazem nada de novo, que nem sequer respeitam o sofrimento, tornam-no banal, suportável, apenas um obstáculo chato mas transponível. Sim, é importante falar sobre o assunto, principalmente agora que o mundo em geral e o nosso país em particular vê crescer a extrema-direita e se assiste a uma tentativa de normalização do fascismo.

Em as Benevolentes, ouvimos a versão de Max, um oficial de topo no exército alemão e que está envolvido em quase todas as fases da guerra. É na sua voz (num tom nada arrependido e em total demissão de qualquer responsabilidade pessoal em tudo o que aconteceu, diga-se de passagem, uma vez que "apenas cumpre ordens") que ouvimos o relato do percurso feito até à total desumanização dos outros que permitiu o extermínio étnico de milhões de pessoas. O leitor não é poupado a nada, uma e outra vez e outra ainda.

Acompanhamos também a história pessoal de Max, a sua relação com a família, com a   sua própria sexualidade, com o passado.

Há quem condene este livro pela sua excessiva violência e por ser tão explícito em algumas cenas. É-o, sem dúvida. Violento e explícito. Mas isso é plenamente justificado. Não deve ser fácil ler sobre esta época. Deve ser difícil e horrível. Deve incomodar-nos, horrorizar-nos e deixar-nos certos que nunca podemos deixar que a história se repita. E isso este livro consegue. 

O título e o final deste livro remete-nos para a figura mitológica das Fúrias também conhecidas como As Benevolentes) e dá um toque literário interessante à forma do livro.

Nem sei a quem devo recomendar este livro. Mas é incontornável para quem está interessado neste período da história. 

 

 

18
Set20

O gesto que fazemos para proteger a cabeça, de Ana Margarida de Carvalho

Patrícia

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Depois de um início difícil, este é um livro que se lê surpreendentemente bem... considerando a total ausência de pontos finais e parágrafos em cada capítulo (há 6 neste livro de 255 páginas). Tem, como já é hábito, um ritmo muito especial, uma cadência própria da "voz" da autora. Talvez por tudo isto seja um livro para se ler em voz alta (o que eu gostava de ouvir isto em audiobook), com tempo, uma vez que cada capítulo é uma única e longa frase. A prosa é rica, poética, bonita. Talvez até um bocadinho a mais que o necessário porque, às páginas tantas, eu queria era saber o que estava a acontecer, o que ia acontecer a cada uma daquelas personagens.

Queria saber de Simão, bondoso, inocente, crédulo e de Maria Albertina, o seu único e verdadeiro amor. Queria saber de Constantino, odiado pela mãe, um de dois, que fica subitamente amputado de parte de si. Queria saber das mulheres de Nadepiori, com chumbo nas bainhas das calças, cabelos ao vento e regras de conduta muito próprias. Queria saber da Tenenta, de Séfora, de Camilo, de Sandoval ou da Lariça (que, tenho para mim, se daria lindamente em Nadepiori).

Não terá sido um dos livros mais fácieis que li mas foi, sem dúvida, um dos que me deu mais gosto acabar.

 

22
Ago20

Margarida Espantada, de Rodrigo Guedes de Carvalho

Patrícia

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Maria Marta, Maria Marta 
cuidado, que é farta 
a astúcia do mal 
não abras a porta à doce cantiga 
não espreites sequer 
nem medo ou fadiga 
te deixem ceder 
 
Que a porta oculta o que ainda não vês 
é engano do bruto 
e assim tão astuto 
é o diabo talvez 
 
Não abras a porta, Maria Marta

que o mal quando entra não sai nunca mais 
e de ti não se farta, Maria Marta 
e morde e sussurra e lambe e engana 
e finge que fala com voz quase humana 
e não mais se cala na tua cabeça 
bem podes pedir-lhe que um dia emudeça 
que o mal e o diabo prometem que sim 
mas riem assim que dançam de volta 
da Maria Marta 
 
Da Maria Marta 
que fica tão farta 
da vida tão torta 
que entrou pela porta 
que a Maria Marta 
é Maria morta.

Depois de "Jogos da Raiva" e do "Pianista de Hotel" o escritor Rodrigo Guedes de Carvalho entrou definitivamente para a minha lista de escritores "quero ler tudo o que escreveram". Margarida Espantada apenas veio confirmar que não sai dessa lista tão cedo. 

Com (literalmente) a inconfundível voz de RDG ler este livro foi uma experiência diferente. Optei por comprar o audiobook por gostar muito de ouvir histórias e também por querer recompensar a audácia de arriscar num formato tão incompreendido como o audiobook. RGD arriscou e venceu (espero que também em termos de vendas). Admito que de início foi difícil separar o pivô do narrador, foi difícil não ouvir este livro como quem ouve um qualquer período informativo na televisão mas depois de o ter feito consegui ouvir a história, as personagens, a voz de cada uma delas e sempre, sempre, ouvi-las conduzida pela voz do escritor, perito em transmitir-nos exactamente aquilo que pretende. Ouvir um audiobook é, por vezes, fazer um bocadinho de batota. É bem mais fácil perceber o que o escritor nos está a dizer. Especialmente quando é ele que nos narra a história. Batota e um enorme privilégio.o único

Tenho a certeza que nesta altura já sabem que Margarida Espantada é um livro que nos conta a história de uma família, que aborda inúmeros temas importantes e interessantes, por isso nem vou por aí. E acreditem em mim: a leitura será tão mais interessante quanto menos souberem sobre o que fala este livro. 

Nem sei porque esperava, no princípio, uma história leve e breve mas terá sido por não ter pensado em que escreveu o livro. RGC não escreve apenas por escrever, não escreve nem de forma leve, nem de forma simples. Não me interpretem mal, não é nada difícil ler este livro. Lê-se de um fôlego e tem uma linguagem bastante acessível. Mas não nos conta a história de uma forma linear, obriga-nos a pensar, a imaginar, a achar que percebemos tudo para perceber que não é bem assim, que a vida não é a preto e branco, tem todas as cores possíveis, na ficção como na realidade. 

O único defeito que aponto a este livro é um certo paternalismo (em algumas frases do livro que me fizeram revirar os olhos) ou se é a transposição da minha percepção do jornalista para o escritor. Mas não foi isso que prejudicou a leitura deste livro.

Não posso deixar de referir as piscadelas de olho aos seus leitores com a presença de personagens como a Ana Teresa ou a cena no Hotel Mirage. Acho muita piada a estes cruzamentos (lembro-me perfeitamente quando, numa releitura e pela primeira vez enquanto leitora, percebi uma ligação  que me deixou encantada). 

Arrisquem, oiçam o Margarida Espantada (ou leiam o livro, é como quiserem).

 

21
Jul20

O deserto dos tártaros, de Dino Buzzatti

Patrícia

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Um dos livros que li nos últimos tempos foi este O Deserto dos Tártaros, escrito em 1940 pelo escritor italiano Dino Buzzati. É um livro sugerido de forma recorrente nos vários clubes de leitura em que fui participando ao longo dos tempos e li-o finalmente porque foi o livro escolhido pelo moderador para ser discutido numa dessas tardes de partilha literária.

A minha primeira impressão foi que é um livro surpreendemente fácil de ler tendo em conta que não se passa (quase) nada ao longo daquelas páginas. 

Giovanni Drogo, jovem e oficial, é destacado para a  Fortaleza Bastiani, uma posição remota na fronteira, onde nada se passa mas que tem um estranho efeito por aqueles que ali vão chegando. Em época de paz, só a disciplina férrea dos militares permite que se continue a patrulhar a fronteira e defender o reino. A disciplina e a esperança de glória. Drogo acredita sempre que, um dia, terá o seu momento de glória. Sonha com um ataque à fortaleza que lhe permita mostrar aquilo que sabe ser: um homem corajoso.

É sobre esse desejo de gloria e sobre escolhas (ou sobre a escolha que é a própria ausência de escolha) que trata este livro. Onde se traça a linha entre ser perseverante no caminho e o medo de arriscar novos desafios? 

Foi muito interessante ouvir outras pessoas a falar deste livro que tantas interpretações tem e constatar, uma vez mais, que o leitor se apropria da história. Há quem veja aqui uma história de esperança, de perseverança, de uma vida plena de significado. Há quem só consiga ver uma vida perdida à espera de nada, dedicada a uma falácia, uma vida quase inútil, de medo de arriscar.

É verdade que não se passa nada, ou quase, nesta espera pelos tártaros mas este é um livro que que gostei de ler e que ficará comigo muito tempo.

 

20
Jul20

Série Sebastian Bergman, de Hans Rosenfeldt e Michael Hjorth

Patrícia

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Ler thrillers é uma óptima forma de limpar a cabeça. Mesmo quando não são muito bons (eu advogo o direito a ver más séries de tv, assim como advogo o direito a ler maus livros). E sim, é o caso. Não achei esta série assim tão espectacular. Sim, eu sei que tem críticas fantásticas e que há imensas pessoas meio apaixonadas pelo Sebastian. Mas esse é um dos problemas que aponto a estes livros. O Sebastian. 

Não é apenas o facto dele ser um cabrão da pior espécie, que é. Mas é a sensação que a história do personagem está escrita para que o seu lado cabrão seja justificado, relativizado e acabe apresentado como o "bad boy" que as adolescentes adoram porque sentem que, no fundo, ele pode mudar. E que só é cabrãozinho porque tem um trauma, coitadinho. Infelizmente, é assim que o Sebastian é apresentado em todos os livros. Pior, há livros em que as suas atitudes conseguem ser absolutamente incompatíveis com a sua personalidade (mas demonstram que o homem tem sentimentos e todas sabemos como isso perdoa tudo - ah, revirei tanto os olhos durante a leitura destes livros). Para não falar do dedinho podre do senhor. Há uma altura em que começa a enjoar.

Posso dizer que todos os crimes dos livros me interessaram, uns mais que outros, mas foi a sua resolução que me manteve interessada. A história pessoal do gang da Riksmord, a polícia criminal lá do sítio, não me conseguiu atrair assim tanto. Ok, concordo convosco, vai ser interessante ver onde vai o Billy parar (apesar de achar o percurso dele um bocadinho rápido demais mas ok, não tenho conhecimentos suficientes para dizer que é tudo um grande exagero).  A Vanja é irritante, sim, uma fedelha mimada quando já não tinha idade para isso. A Ursula é interessante qb, não fosse aquela mania de que todos os outros policias são uma nódoa (e a persistência dos autores em dar-lhe razão é um cliché que me irritou) e o Torker é outro que apenas quer um rabo de saia que lhe dê estabilidade (aliás, os romances destes livros são todos bastante estranhos).

Mas o que me matou mesmo foi o último livro. Eu papei a sobrevivência da outra (you know who) mas a sério que não houve um exame físico / autópsia que levante sequer suspeitasse? A sério? O percurso para descobrir o assassino tinha mesmo que ser aquele? E ninguém dá conta que o outro desapareceu? Pior, ninguém se interessa? Tudo tão coladinho a cuspo, senhores.

Mas foram umas horas de leitura rápida e fácil, com algumas irritações pelo meio, o livro 5 é, de longe, o mais interessante, quero saber como raio o Billy se vai safar (ou não)  e ptto hei-de ler o 7º (e espero que último) volume da saga.