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Ler por aí

Ler por aí

10
Jun19

Índice Médio de Felicidade, de David Machado

Patrícia

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Não me apetece tentar calcular o meu IMF. Acho que ficaria deprimida. Acho que qualquer número me faria sentir uma fraude. E a culpa é precisamente da tal relativização de que David Machado fala neste livro.

À primeira vista dir-vos-ia que este livro fala de resiliência ou de coragem. Pensando bem, fala de teimosia e de orgulho e de como facilmente estas (e outras) características passam, com toda a facilidade, de qualidades a defeitos e vice-versa.

Esta é a história de um homem que perdeu tudo excepto um irritante optimismo que insiste em preservar. É certo que apenas conhecemos a sua história do seu ponto de vista e todos sabemos o quão enviesadas são, tantas vezes, as nossas opiniões sobre nós mesmos. Daniel perde o emprego e com essa perda, perde (quase) tudo. A sua recusa em desistir consegue ser, ao mesmo tempo, admirável e irritante.

Admirável, por razões óbvias: a resiliência, a resistência à má-sorte e às vicissitudes da vida é uma enorme qualidade que Daniel tem de sobra.

Irritante porque insistir em arriscar tudo (mas tudo mesmo) só para não pedir ajuda, só para não aceitar ajuda é extremamente estúpido. 

Ao contrário do que podem, neste momento, estar a pensar, eu gostei bastante deste livro. Gostei porque é um livro que levanta algumas questões e porque se centra na relação que todos temos uns com os outros.

Na verdade, se tivesse mesmo que escolher um tema (numa palavra) para este livro, eu escolheria Altruísmo. 

Que preço estamos dispostos a pagar para ajudar os outros? No que estamos dispostos a perder para ajudar um amigo? 

Muitas vezes achamos que fazer uma boa acção de má vontade  não tem valor, que só a abnegação é virtuosa mas não será exactamente o contrário? Uma boa acção feita apesar da má vontade, apesar do que deixamos para trás é tão maior. Não quero com isto desvalorizar aquilo que é feito apenas com amor e alegria mas às vezes devíamos olhar para os custos do que os outros abdicam por nós para lhes dar verdadeiro valor.

Não sou uma optimista por natureza pelo que tenho a minha interpretação muito própria deste género de final mas ainda assim não fiquei desiludida e acho mesmo que será o ideal para este livro. E o final (e todo o livro afinal) davam uma óptima discussão e isso é, afinal, o grande propósito da literatura.

 

 

 

08
Jun19

Assassin's quest, de Robin Hobb (***SPOILERS***)

Patrícia

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Finalmente acabei uma das séries de fantasia mais amadas e aclamadas. Antes de começar a esmiuçar a minha opinião (e atenção que vai ter SPOILERS) deixem-me dizer-vos que a minha opinião resumida é um "gostei, mas...". 

Gostei mais do segundo e do terceiro livros que do primeiro. Para dizer a verdade, o segundo foi o meu favorito uma vez que o terceiro se arrastou muito no início.

Um dos pontos altos deste livro é a relação entre Fitz e Nighteyes. No início deste livro, Fitz regressa, relutantemente, ao seu próprio corpo mas o tempo em que partilhou a consciência do Lobo deixou marcas. Neste relação é muito bem explorado o que é ser "humano", o que nos separa (ou une) aos restantes animais. Toda a jornada de Fitz é acompanhada pelo nighteyes e a forma como este vai adquirindo características exclusivamente humanas está muito bem conseguida.

As novas personagens são extremamente interessantes mas confesso que senti falta das antigas. Para dizer a verdade estava à espera que o Chade morresse e até compreendo a necessidade de afastar o Burrich, deixar o Fitz crescer e enfrentar os seus próprios erros (e só deus sabe quantos erros o Fitz teve que cometer até acertar) mas senti-lhes a falta. E se o final do Burrich me agradou não posso dizer o mesmo do Chade.

Ainda não sei se as explicações sobre os red ships me convenceram completamente mas confesso que adorei a ideia dos elderlings. Talvez tenha sido demasiado fácil para o Fitz acordá-los (too much e nem sequer havia necessidade) mas o sacrifico do Verity deixou-me de coração apertado - fabuloso. 

Gostei muito da ideia - já antes explorada q.b mas que aqui tomou um lugar fundamental - do Catalyst e do White profet. Ter o Fitz (e não o Verity), o catalisador como protagonista foi um golpe de génio mas, caramba, não era necessário que o desgraçado falhasse tanto. Ao longo dos três livros, se pensarmos bem, Fitz teve pouquíssimas vitórias - escusava portanto de ter descoberto como acordar os elderlings de forma tão fácil e casual. Pessoalmente preferia que ele fosse tendo algumas vitórias pelo caminho.

Regal acabou por se tornar num verdadeiro vilão mas podia ter bastante mais consistência e nuances do que teve.

Kettle, Starling e Kettricken são todas maravilhosas à sua maneira. E o Fool, bem, o Fool continua a ser a minha personagem favorita. Foi maravilhoso vê-lo tornar-se um membro de pleno direito do pack do nighteyes e companhia.

 

19
Mai19

Um, dó, li, tá , de M. J. Arlidge

Patrícia

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Um, dó, li, tá...

A premissa deste livro é assustadora: Duas pessoas raptadas e presas... pelo menos até que um deles morra. Queres viver? Mata o teu companheiro de infortúnio. Simples e eficaz.

Helen Grace, a inspectora-chefe que lidera o caso tem, como normalmente acontece neste tipo de livros, muitos fantasmas e é uma pessoa bastante interessante. Gostei bastante dela.

Não vos vou contar nada sobre o enredo deste livro por razões óbvias: é um policial e não vos quero estragar a diversão.

No meu ponto de vista, não sendo o melhor policial que já li na vida, lê-se bem e tem um final suficientemente agridoce para agradar. As cenas negras são suficiente macabras para me dar a volta ao estômago. 

Só fiquei com pena de não ter tido a hipótese de descobrir quem era o assassino... 

 

15
Mai19

Berta Isla, de Javier Marías

Patrícia

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Berta Isla foi o primeiro livro de Javier Marías que li. Este autor estava naquela lista dos "incontornáveis e adorados por todos que não li porque tenho um medo do caraças de não gostar e ser a ovelha ronhosa cá do sítio". Em vez de começar pelos livros mais famosos ou por aqueles de quem todos os meus amigos falam (com o Os enamoramentos à cabeça desta outra lista) comecei por um que comprei por impulso no dia em fiz 40 anos.

Berta Isla conta a história de um casamento... não, de um "casamento" talvez não seja a palavra certa. Berta Isla conta a história de como duas pessoas, por pura teimosia (e no fundo talvez seja isso a que chamamos amor) se mantêm numa relação quando toda a lógica diz que aquela não faz nenhum sentido. É a história de duas pessoas que não deixam que a vida se intrometa na sua relação.

Berta e Tómas (ou Tom) conhecem-se no liceu. Ela, madrilena, ele, filho de um inglês e de uma espanhola, cedo percebem que é um com o outro que querem ficar. A separação do tempo da faculdade (ela estuda em Madrid, ele em Oxford) marca o início e, afinal, o ritmo de toda uma vida. As separações frequentes, a vida a dois e as vidas, que não se misturam, quando estão separados. É durante a estada em Oxford que Tom é recrutado, após um incidente que tem o poder de mudar o curso de uma vida e por ter um talento especial para as línguas, para os serviços secretos ingleses. Mas não é certamente a necessidade de secretismo que advém deste tipo de ocupação que se irá intrometer na vida de Berta e Tómas.

Berta não sabe, na verdade, a que se dedica o seu marido. E quando descobre continua a não saber. E como tal, como qualquer pessoa que, na verdade, não sabe mas tem parte da informação... especula, adivinha, remói, inventa, sonha, julga. E vou confessar-vos - esta parte chateou-me um pouco. Metade do espaço dedicado às especulações da Berta tinha sido mais que suficiente. É certo que a escrita de Javier Marías é excepcional. É certo que nos consegui transmitir o solidão, o isolamento, o abandono que Berta sente. É certo que as suas dúvidas são também as nossas (apesar de sabermos mais que ela, cortesia do narrador omnisciente da primeira parte do livro) e os seus medos e julgamentos são também os nossos. Ainda assim... demasiado longa, esta segunda parte. Resistir-lhe foi um exercício de persistência (bastante facilitado pela magnífica escrita do autor). 

Por outro lado gostei muito mesmo das primeira e terceira parte. Ouvir as histórias de Berta e Tom por um narrador omnisciente com um ritmo me me fazia virar página atrás de página foi mesmo muito interessante. O que me leva a querer ler a trilogia "o teu rosto amanhã" porque acho que vou gostar muito.

Apesar de ter achado desnecessariamente longa a parte em que são levantadas todas as questões morais e existências deste livro achei-as bastante pertinentes. Reflectir sobre o conceito e o pré-conceito do amor e das convenções sociais; sobre o casamento; a lealdade que devemos aos outros e a nós mesmos ou sobre quem somos, sozinhos ou com os outros, é sempre bom.

No geral acabou por ser um livro de que, apesar de não ter sido fácil de ler, gostei muito.

 

 

24
Abr19

Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves

Patrícia

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"Essa foi a minha identidade clandestina durante muitos anos. Se fazia novos amigos, evitava contar-lhes que ela morrera. Se as suas mães preparavam lanches ou os abraçavam, eu jamais revelava desencanto ou inveja, porque a ideia de ser solitário era o meu selo de singularidade"

 

 

Foi em Setembro de 91 que entrei para uma nova escola e que me esforcei muito para não ser "a miúda sem pai". Lembro-me do choque nos olhos de um dos meus melhores amigos quando, anos mais tarde, lhe disse - de forma bruta e aparentemente displicente - que o meu pai tinha morrido há anos.

Talvez não seja justo começar uma opinião sobre um livro a falar de mim, a escrever na primeira pessoa do singular, mas a verdade é que há livros com os quais nos identificamos de tal forma que temos, ao longo da leitura, de nos esforçar por reconhecer que o livro não foi escrito por nós, nem para nós, nem por ninguém que nos conhece. E quando isto acontece é muito difícil julgar o livro por algo mais que a nossa reacção a ele, que as nossas emoções quando o lemos. 

Por outro lado tenho sempre algum pejo em falar da vida dos outros e ler este livro - que foi tornado público por escolha do autor - fez-me sentir, repetidas vezes, que estava a imiscuir-me em algo que não devia... e eu tenho total noção que isso acontece porque a parte da minha vida onde estão os sentimentos, o medo, a tristeza, a raiva e as lágrimas é algo que protejo com unhas e dentes.

Acho que um escritor só o é, ou só o é na totalidade, quando tem alguma coisa para dizer, quando tem uma história para contar. Não acho que todos os escritores precisem fazer o que fez o Hugo Gonçalves mas acredito que, em cada livro que escrevem, põem um pouco (e tantas vezes mais do que apenas um pouco) de si. Imagino que não tenha sido fácil escrever e, acima de tudo, partilhar este livro. 

Há imensos livros, a maioria de psicólogos e psiquiatras, sobre o luto e mais especificamente, sobre o luto na infância. Esses livros serão óptimos para pais, professores e adultos. Têm zero importância para quem passa por isso. Imagino que haverá livros infantis que o expliquem, que tentem ajudar nessas situações. 

Mas ouvir na voz de outra pessoa aquilo que não podemos admitir a ninguém - "não me lembro da voz da minha mãe"  ou  "Eu sabia que ela ia morrer" talvez ajude mais que propriamente a infinidade de conselhos triviais e banalidade vazias com que, cheios de boa vontade, pena e superioridade, os adultos tentam ajudar as crianças. 

Não em interpretem mal, isto não é, nem pretende ser, um manual para ninguém. É apenas a história que o autor quis contar. Só que essa história cruza-se com a minha, com tantas outras histórias que nunca serão contadas.

 

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Persistência da memória, de Salvador Dali

 

 

 

 

 

20
Abr19

Armários vazios, de Maria Judite de Carvalho

Patrícia

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Na minha estreia e sem surpresa, fiquei conquistada pela forma como esta escritora escreve as mulheres e a solidão. Digo "sem surpresa" porque a tantas pessoas ouvi o elogio que já estava, de certa forma, à espera do que encontrei. Maria Judite de Carvalho foi, sem dúvida, uma escritora maravilhosa e com uma imensa capacidade de fazer o leitor sentir. 

Neste Os armários vazios, Maria Judite de Carvalho apresenta-nos, primeiro, a Dora Rosário, viúva antes de mulher, que procura sobreviver à sua condição e criar a filha Lisa que, tantas vezes, se parece mais com Ana, a sogra, que consigo. Depois, pela mão de Dora, pela sua história, vamos conhecendo as outras mulheres. Ana, Lisa, Júlia e, claro, Manuela. E os homens. Sempre os homens, que são secundários nesta história mas que serão sempre personagens principais nas vidas daquelas mulheres.

Sendo um romance (ou uma novela? nunca sei bem) tão curto lê-se quase de uma assentada e deixa-nos, ou pelo menos a mim deixou, com uma sensação de vazio e de tristeza. Não gostei, no final, de nenhuma das mulheres a que a escritora me apresentou. Faltou-me um toque de esperança de mudança (e não, a Júlia não foi o suficiente para isso). Mesmo reconhecendo (ou talvez por isso mesmo) tantas mulheres que se encaixam em cada um dos estereótipos ali representados, acredito que até nessas há mais alguma centelha de vida, ou que não se deixam derrotar com tanta facilidade. Não é a derrota que me incomoda... é a falta de haver gritos e berros e esperneio pelo meio.

 

 

07
Abr19

Royal Assassin, de Robin Hobb

Patrícia

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Depois de um início pouco auspicioso, porém com fé em quem me dizia que isto ia melhorar, aventurei-me no segundo volume da história de Fitz. E, confesso, este segundo volume conquistou-me. 

No início deste livro, Fitz está a recuperar da tentativa de assassinato e do sacrifício de Nosy. Está quebrado e é cedo que percebo que poucos escrevem a solidão e o medo de ter perdido tudo como a Robin Hobb. Não é propriamente a lealdade a Shrewd que o leva de volta a Buckkeep mas sim Molly e uma visão. Rapidamente se vê enredado nas intrigas da corte, continuando o seu trabalho como kingsman ao mesmo tempo que tem que ser o sempre foi para Patience, Burrich e Molly. 

Robin Hobb não nos deixa esquecer (e isso é de salientar) que, mesmo sendo tudo isto, Fitz é um miúdo. 

Acho que foi essa capacidade de escrever o que é ser humano que me conquistou. As personagens deste livro estão longe de ser perfeitas. Longe de ser boas ou más. Com excepção do Regal que, de facto, não se mostrou ainda minimamente humano (os maus desta fita ainda não me convenceram, apesar de já terem atingido o estatuto de vilões a sério), todos os outros são muito bem construídos. É difícil não sentir empatia com quem, apesar de ter tão boas intenções, comete tantos erros como aquele grupo.

Neste segundo volume deliciei-me com a magia Wit. Estabelecer um laço com um lobo? Adoro o Nighteyes e acima de tudo gosto deste meio termo a que a autora chegou: ela não deu ao lobo características humanas nem uma consciência humana - e isso é muito difícil de fazer tendo em consideração que o transformou numa personagem importante. Mas disto falaremos melhor quando escrever a opinião do terceiro livro.

O que não me convenceu (ainda) neste volume - e sei que é mais culpa deste meu feitio que da autora - é o romance entre a Molly e o Fitz. Chamem-me "coração de pedra"  mas não senti grande tristeza quando ela resolveu ir embora (e sim, eu percebi quem é esse ser que ela ama mais que tudo - não haverá quem não o perceba). A verdade é que a Molly merece muito mais que o Fitz. Merece mais que ser uma terceira escolha. Merece mais que passar uma vida inteira à espera que ele se digne a escolhê-la.  E merecia, acima de tudo, ser alvo da confiança dele. A moça subiu imenso na minha consideração quando se fartou e tomou as decisões que ele não tomou.

O Fool continua a ser a minha personagem preferida. E era sempre que ele aparecia que eu me emocionava. A dor, a dedicação, o sacrifício e sofrimento de quem vive para outro, para mitigar o sofrimento dos outros. Tanto nesta personagem pode servir para reflectirmos sobre a vida e morte. E, como "de sábios e de loucos, todos temos um pouco", é impossível não ter a convicção que ele é o mais sábio de todos.

Kettricken e Verity cresceram e tornaram-se nas personagens que espera. Ela é das mais interessantes personagens do livro, ele ainda não atingiu nem perto do seu potencial. Mas este é um romance que me agradou.

Como já disse antes, Regal tornou-se o vilão incontestado mas, para ser um grande vilão, precisava de não ter uma outra dimensão. Claro que isso é especialmente difícil porque estamos a ver sempre através dos olhos de Fitz. O problema dos livros na primeira pessoa é precisamente esse. Ainda assim, as cenas de tortura que ele protagonizou deixaram-me estarrecida. A forma como a escritora as escreveu, privilegiando as emoções às dores físicas, conseguindo transmitir toda a dor, abandono, desespero e desesperança que o Fitz sentiu foi magistral e elevou bastante as minhas expectativas para a terceira parte desta história (que não é trilogia nenhuma, é uma história dividida em três - ou mais, dependendo das edições - exactamente como o Senhor dos Anéis).

 

24
Mar19

Ragnarök, O Fim dos Deuses, de A.S. Byatt

Patrícia

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A importância de preservar as histórias, as lendas, as fábulas e os mitos de uma cultura faz com que, volta e meia, se conte a mesma história de uma forma ligeiramente diferente. Se é verdade que nos custa (a mim, pelo menos, custa) ouvir "aquela" história com inflexões completamente diferentes (sabem lá vocês o que sofro quando ouço as várias versões da guerra de Tróia) a verdade é que essa é uma forma usada desde sempre, seja na tradição oral, seja na escrita ou na sétima arte. Mudam-se os tempos e os mitos, de acordo com a sua essência, adaptam-se com toda a facilidade.

É assim que neste livro, que faz parte da colecção The Myths, nos é recontado o mito nórdico do Ragnarök, uma sequência de eventos que levam ao fim do mundo, à batalha final onde a maioria dos deuses morre. 

Ora, o meu problema com este livro começa precisamente aqui. Isto é, para mim, uma história completamente nova. Sim, já tinha ouvido falar de Thor e do seu martelo, de Odin, Tyr, Loki e até de Fenris mas Yggdrasil, , Rándrasill, Baldur, Frigg, Jörmungander e outros tantos foram completamente novos para mim. Um livro que era suposto transportar-me para um mundo mágico já conhecido acabou por me transportar para um sítio onde só lá para o final sabia quem era quem.

Este foi um claro caso de "não és tu, sou eu", tenho plena consciência que é um livro muito bom mas que me custou imenso a ler e que não consegui apreciar.

É verdade que aprendi muito sobre a mitologia nórdica e agora que o terminei estava capaz de começar a ler sobre os deuses nórdicos e efectivamente perceber, desde o início, o que estava a ser contado.

Ainda assim, no meio da luta para prosseguir na leitura, consegui apreciar a escrita e gostar imenso das partes da "criança magra". Deixem-me explicar-vos.

O Ragnarök é-nos contado pela criança magra que, estando protegida na Inglaterra rural na altura da segunda guerra mundial, comparava os mitos contados no livro Asgard e os Deuses com as histórias sobre Jesus que lhe eram contadas na catequese e com a sua própria vida. Foram estas partes do livro que me marcaram e agarraram. Dei por mim a destacar passagens, a ler algumas frases várias vezes. 

Não tenho dúvidas que ainda vou reler este livro e gostar muito mais mas esta primeira leitura foi algo penosa. Mas continuo a achar que o livro tem uma capa maravilhosa.

14
Mar19

The Assassin's Apprentice, de Robin Hobb

Patrícia

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Fitz fitz fice fitz. Fatz sfitz

FitzChivalry Farseer, bastardo de Chivalry, o príncipe herdeiro dos Six Duchies é entregue à família do pai aos 5 anos. Sem lugar na corte, acaba por crescer, sem nunca conhecer o pai (que acaba por abdicar do trono), aos cuidados de Burrich, o responsável pelos animais em Buckkeep. Um bastardo tem que encontrar o seu lugar. Mas não deixa de ser uma falha no plano, uma carta fora do baralho, que cria todo um leque de novas possibilidades.

"Do you think I keep you alive because I am so entranced with you? No. It is because you create so many possibilities. While you live you give us more choices. The more choices, the more chances to steer for calmer water. So it is not for your benefit, but for the Six Duchies that I preserve your life. And your duty is the same. To live so that you may continue to present possibilities.”

Este primeiro livro da série, conta-nos o crescimento de Fitz, o bastardo, como King's Man, como aprendiz de assassino, como ajudante de tratador de animais, como adolescente.

Não posso dizer que tenha sido o melhor livro de fantasia que li na vida. Não me foi difícil entrar na história mas foi complicado convencer-me a continuar - confesso que, de início, não me interessei muito pelo que andava Fitz a fazer mas sabendo a paixão que a Célia e a Carla tem por esta saga tinha mesmo que chegar ao fim. E senti muito a falta de um verdadeiro anti-herói, de um verdadeiro antagonista.

Tendo ouvido o audiobook, narrado por Paul Boehmer, fiquei bastante surpreendida quando, numa busca para perceber como raio se escreviam o nome dos personagens (tenho sempre este problema), percebi que este livro é de 1995. Nem imaginam como gostaria de ter lido este livro nessa altura - não só teria gostado muito mais como o teria lido inúmeras vezes (que é como os livros de fantasia devem ser livros) e nenhum dos seus segredos me teria passado ao lado.

Mas, não tendo sido o melhor dos livros de fantasia que já li, é um bom livro e tem um enorme potencial. 

(a partir de agora poderá haver alguns spoilers... nada que estrague a leitura mas sigam por vossa conta e risco)

 

Fitz, o nosso protagonista, conta-nos a sua história na primeira pessoa, o que significa que ao longo de todo o livro vemos os acontecimentos pelos olhos de miúdo. Às vezes vemos um bocadinho mais que ele (aquela mania de ser um King's man... vá, convenhamos que todos a percebemos quando o Verity contou ao Fitz o que Chiv tinha feito ao Galen quando eram miúdos) outras deixamo-nos enganar, sorrimos e sofremos com ele. Mas ainda não me "apaixonei" por esta personagem. Falta qualquer coisa nem vos sei explicar bem o quê. A personalidade dele ainda não está bem formada, as escolhas ainda não são bem dele e só no fim, mesmo no final deste livro, comecei a interessar-me pelas suas escolhas.

Mas gostei imenso de algumas das personagens deste Assassin's Apprentice.

Burrich ainda nos irá surpreender. É, desde o início, óbvio que também possui o talento para a ligação provocada pelo Wit e tem sido um bocadinho irritante por causa disso mas é daqueles que ainda vai aprender. E é, de facto, o pai do Fitz. Não o progenitor mas o pai.

Adoro a Lady Patience. Adoro. Deposito algumas fichas nela e no papel que ainda vai desempenhar.

E gosto muito do Verity. Ele e a Kettricken ainda vão provocar bons momentos de leitura. Da Molly e do Shrewd será inevitável falarmos nos próximos livros mas para já nem um nem outro me deixaram grande impressão.

O Galen desiludiu-me como vilão. Demasiado a preto e branco. A história do Chivalry com ele lá lhe deu alguma cor mas foi só de passagem. O Regal é, para já, apenas irritante e ainda terá que crescer muito para se tornar realmente o antagonista desta história (mas é ele a minha primeira aposta para o lugar) a não ser que apareça alguém verdadeiramente marcante nos Red-Ship (esta parte bem que podia ter sido um bocadinho mais desenvolvida mas lá chegaremos, não é?)

Já perceberam para quem vai o meu amor e entusiasmo nesta história, não é?

Pois, isto valeu pelo Fool e pelo Chade. Quem ou que género de criatura é o Fool? E o que vou sofrer quando o Chade morrer? Gosto tanto dele mas o mentor morre sempre... (ca nervos). 

Outro ponto forte do livro é o(s) sistema(s) de magia. Wit e Skill. Quero muito saber mais sobre ambas e se tivesse que escolher uma para mim, nem hesitava. Wit, obviamente. Ainda não recuperei do destino que Nosy e Smithy tiveram. Não se faz.

08
Mar19

O Processo Violeta, de Inês Pedrosa

Patrícia

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Violeta, uma professora, envolve-se com um aluno, Ildo. Ana Lúcia, professora, vive o seu drama pessoal após ter sido violada por outro aluno. Clarisse, jornalista, persegue a história de Violeta e Ildo, enquando vive uma gravidez com a qual não se consegue conciliar. Paulina, mãe de Ildo, tenta sobreviver às consequências de uma verdade revelada.

Inês Pedrosa não nos facilita a vida e tenta obrigar-nos a olhar para os nossos próprios preconceitos (principalmente aqueles que insistimos que não existem). Apesar de nos transportar para os "loucos e maravilhosos" anos 80, é dos temas fracturantes da sociedade actual actual que este livro trata. Mas não é (ou não deveria ser) sempre assim na literatura?

Como olhar para a relação entre um miúdo e uma adulta? Aos 14 anos é-se miúdo ou adulto? O tema "consentimento", discutido até à exaustão nas tascas actuais (aka redes sociais) tem um lugar de destaque neste livro. Amor ou abuso? 

E quem acha que, com 14 anos, Ildo não tem maturidade para consentir num relacionamento como vê o miúdo, exactamente com a mesma idade, que viola Ana Lúcia?

E Violeta? Abusada ou abusadora? Mulher apaixonada ou infantil? 

Este livro, cheio de histórias de mulheres, obriga-nos a rever as convicções com que olhamos a sociedade actual. Não tenho dúvidas que, por isso, por ser uma história de mulheres que se atreve a pôr em causa limites e convicções estabelecidas será um livro mal visto, polémico e muito criticado. Aliás, já o é.

Por mim, gostei bastante. Não concordo sempre com as opiniões da autora que oiço regularmente no programa Páginas Tantas e no O último apaga a luz. Nem sequer concordo com tudo o que escritora (parece-me) quis transmitir com este livro. Mas isso não me impediu de o ler, de pensar e de formar as minhas próprias conclusões. Este é um bom ponto de partida para uma excelente discussão. E se há coisa que reconheço e respeito neste livro é que nele se ouve a voz da Inês Pedrosa em cada página...

Quando leio um livro, tento sempre separar o escritor das suas personagens e tento não o procurar em cada página. Claro que neste livro isso foi completamente impossível. Afinal, já ouvi "uma ou duas" daquelas histórias contadas na primeira pessoa pela escritora. Foi inevitável passar o tempo a pensar "quem é quem" no Insubmisso. E gostei do olhar crítico ao jornalismo...

Foi bom, muito bom rever Clarisse e Ana Lúcia, curiosamente duas personagens dos dois únicos livros que já li da Inês Pedrosa (Os íntimos e Desamparo). Gosto destas novas vidas dos personagens, gosto de os encontrar nas páginas de outros livros.