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Ler por aí

Ler por aí

29
Ago19

Voar no quarto escuro, de Marcia Balsas

Patrícia

 

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Entrar na cabeça de uma mulher não é fácil. Entrar na cabeça de muitas mulheres é uma loucura. Mas a literatura tem uma dose enorme de loucura.

Li este “Voar no quarto escuro” com um misto de espanto (ena, a Márcia escreveu isto tudo), orgulho (ena, a Márcia escreveu isto tudo!) e um nó na garganta.

Ainda bem que não é um livro muito grande  ou tornava-se claustrofóbico. Não é um livro fácil de ler.

A empatia com aquelas mulheres é quase imediata - quem nunca se sentiu mal na sua própria pele? Quem nunca arriscou o julgamento dos outros para ser feliz? Quem nunca quis fugir do seu trabalho? Quem nunca se sentiu menor? – e, também por isso, passei todo o livro a querer saber o que lhes ia acontecer (e confesso, tive muitas vezes vontade de lhes bater).

É, acima de tudo, Um livro sobre a solidão. A solidão acompanhada, auto imposta, infligida, envergonhada. E é um livro sobre a coragem de sermos quem queremos ser, quem sabemos (ou não) ser.

 

Está à venda.

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Márcia, esta será provavelmente a única vez que alguém acha o teu livro uma excelente almofada :)

 

15
Ago19

Em estado Selvagem, de Roxane Gay

Patrícia

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A violência deste livro é algo que não esquecerei facilmente. 

A capa não nos prepara para o que nos acontece logo nas primeiras páginas deste livro. O título remete-nos para algo animal (tamed significa domesticado), visceral mas, ainda assim, tem um certo ar romântico (também o título em Português, Em estado selvagem, apresenta esta dualidade). Mesmo que julguemos o contrário, só compreenderemos verdadeiramente este título perto do fim. Mas a esperança, essa, perdemo-la logo no início.

A crueza com que Roxane Gay nos conta uma e outra e ainda outra vez o que acontece a Miri ao longo do seu cativeiro não nos permite ser indiferente a este livro. Por um lado, e sendo uma história contada na primeira pessoa, sabemos que sobreviveu. Como e com que consequências não o sabemos.

No Haiti, os sequestros tornaram-se habituais e quase rotina. Após o pagamento do resgate as vítimas regressam a casa (quase) incólumes e nada se passa - ou pelo menos é isso que muitos acham.

Mireille, filha do Haiti mas educada nos Estados Unidos, está de férias com o marido e o filho, com quem forma uma tríade de cumplicidade, quando é raptada. Um milhão de dólares é o resgate pedido. Valor não negociável. Mas o pai de Miri também não aceita negociar com raptores - se ceder, será toda a família a sofrer e tem que pensar em Mona, a outra filha, na mulher e restantes membros da família. Demonstrar fraqueza não é, simplesmente, uma opção. Miri tem que descobrir como sobreviver até que o impasse se resolva. A força, a resiliência, sempre foi a qualidade mais importante e esta mulher sabe quem é e quem precisa ser para sobreviver.

E sim, este é um livro sobre sobrevivência. Mas não é um livro sobre justiça. Nem é um livro sobre esperança. Não é propriamente um livro sobre o Haiti apesar de se passar no Haiti. Poderia igualmente passar-se em Moçambique ou, por exemplo, na Nigéria. Gostava de acreditar que não se poderia passar em Portugal e talvez não pudesse... na forma. Porque no conteúdo, sim. Poder-se-ia passar em qualquer sítio onde houvesse homens e mulheres. Onde houvesse homens cruéis e homens gentis. 

A violência sobre uma mulher é levada ao extremo. Tê-la assassinado teria sido incrivelmente mais piedoso. Mas uma das coisas que mais me impressionou neste livro é a forma como alguns homens - e até os mais  gentis - ainda precisam que seja ela a ajudá-los a ultrapassar tudo o que se passou. Seria rísivel se não fosse tão normal.

Lorraine. Tenho que vos falar desta mulher. Foi ela quem me levou à beira das lágrimas (e toda a gente sabe o quão "pedra" eu sou a ler um livro). Foi a presença silenciosa daquela mulher que me devolveu a fé na humanidade, bem, pelo menos um bocadinho.

Que livro, este. Não sei ainda porque é que a Dora resolveu oferecer-me este livro. Mas muito obrigada, Dora. Vou agora tentar recuperar da sova que levei ao lê-lo.

 

 

 

 

07
Ago19

As crianças invisíveis, de Patrícia Reis

Patrícia

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"Mas havia sempre a culpa, a ideia de que ser difícil não é desejável, a vontade de encaixar, a vergonha de ser quem se é por não se saber ser melhor. Não tendo a certeza da possibilidade de regresso ao lugar que conhece, M. considerou que era melhor concordar, fazer o jogo do estou-bem"

 

Quão invisíveis são as crianças institucionalizadas? Suponho que essa invisibilidade seja directamente proporcional à falha da sociedade para com eles. 

Patrícia Reis, neste belíssimo livro - como objecto é extremamente cuidado, como já seria de esperar, desde a textura da capa à cor dos separadores dos capítulos (não me ouvem dizer isto muitas vezes mas este livro merecia uma edição em capa dura) - conta-nos a história de M. durante o tempo da sua institucionalização na "Casa".

Ao longo destas (poucas) páginas, vamo-nos debruçar e reflectir sobre uma realidade que, tantas vezes, apenas conhecemos na teoria e que, como geralmente acontece nestes casos, julgamos conhecer e atrevemo-nos a julgar e opinar. 

A institucionalização - algo que me parece um mal necessário - de crianças em risco e o drama que é, por vezes, a tentativa de as inserir numa família. O horror que é a possibilidade de devolução de uma criança nos primeiros 6 meses. O tipo de laços criados numa instituição, o tipo de família que, também aí se cria, e o seu futuro.

Acho que é unânime a opinião de que todas as crianças merecem ter uma família - seja mais ou menos tradicional - e a protecção e amor que lhes permitam crescer em segurança e com oportunidade para serem tudo o que quiserem ser.

Mas, e este é o ponto mais importante deste livro, será esta solução (a adopção) a mais certa para todas as crianças? Até que ponto, a nossa noção do que é "certo" entra em colisão com aquilo que é necessário, com aquilo que aquela menina ou menino, aquela pessoa, quer e precisa?

Gostava de ter tido mais tempo com M. e com Conceição para estabelecer com estas personagens uma ligação maior. Provavelmente isso iria implicar mais páginas e que a acção não abrangesse um período de tempo tão longo. Não me importava nada até porque a autora levantou várias questões que acabou por não aprofundar.

Doeu-me ler este livro e isso é o maior elogio que lhe posso fazer. Sem qualquer sombra de dúvida será um dos livros deste ano.

 

 

 

 

10
Jun19

Índice Médio de Felicidade, de David Machado

Patrícia

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Não me apetece tentar calcular o meu IMF. Acho que ficaria deprimida. Acho que qualquer número me faria sentir uma fraude. E a culpa é precisamente da tal relativização de que David Machado fala neste livro.

À primeira vista dir-vos-ia que este livro fala de resiliência ou de coragem. Pensando bem, fala de teimosia e de orgulho e de como facilmente estas (e outras) características passam, com toda a facilidade, de qualidades a defeitos e vice-versa.

Esta é a história de um homem que perdeu tudo excepto um irritante optimismo que insiste em preservar. É certo que apenas conhecemos a sua história do seu ponto de vista e todos sabemos o quão enviesadas são, tantas vezes, as nossas opiniões sobre nós mesmos. Daniel perde o emprego e com essa perda, perde (quase) tudo. A sua recusa em desistir consegue ser, ao mesmo tempo, admirável e irritante.

Admirável, por razões óbvias: a resiliência, a resistência à má-sorte e às vicissitudes da vida é uma enorme qualidade que Daniel tem de sobra.

Irritante porque insistir em arriscar tudo (mas tudo mesmo) só para não pedir ajuda, só para não aceitar ajuda é extremamente estúpido. 

Ao contrário do que podem, neste momento, estar a pensar, eu gostei bastante deste livro. Gostei porque é um livro que levanta algumas questões e porque se centra na relação que todos temos uns com os outros.

Na verdade, se tivesse mesmo que escolher um tema (numa palavra) para este livro, eu escolheria Altruísmo. 

Que preço estamos dispostos a pagar para ajudar os outros? No que estamos dispostos a perder para ajudar um amigo? 

Muitas vezes achamos que fazer uma boa acção de má vontade  não tem valor, que só a abnegação é virtuosa mas não será exactamente o contrário? Uma boa acção feita apesar da má vontade, apesar do que deixamos para trás é tão maior. Não quero com isto desvalorizar aquilo que é feito apenas com amor e alegria mas às vezes devíamos olhar para os custos do que os outros abdicam por nós para lhes dar verdadeiro valor.

Não sou uma optimista por natureza pelo que tenho a minha interpretação muito própria deste género de final mas ainda assim não fiquei desiludida e acho mesmo que será o ideal para este livro. E o final (e todo o livro afinal) davam uma óptima discussão e isso é, afinal, o grande propósito da literatura.

 

 

 

08
Jun19

Assassin's quest, de Robin Hobb (***SPOILERS***)

Patrícia

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Finalmente acabei uma das séries de fantasia mais amadas e aclamadas. Antes de começar a esmiuçar a minha opinião (e atenção que vai ter SPOILERS) deixem-me dizer-vos que a minha opinião resumida é um "gostei, mas...". 

Gostei mais do segundo e do terceiro livros que do primeiro. Para dizer a verdade, o segundo foi o meu favorito uma vez que o terceiro se arrastou muito no início.

Um dos pontos altos deste livro é a relação entre Fitz e Nighteyes. No início deste livro, Fitz regressa, relutantemente, ao seu próprio corpo mas o tempo em que partilhou a consciência do Lobo deixou marcas. Neste relação é muito bem explorado o que é ser "humano", o que nos separa (ou une) aos restantes animais. Toda a jornada de Fitz é acompanhada pelo nighteyes e a forma como este vai adquirindo características exclusivamente humanas está muito bem conseguida.

As novas personagens são extremamente interessantes mas confesso que senti falta das antigas. Para dizer a verdade estava à espera que o Chade morresse e até compreendo a necessidade de afastar o Burrich, deixar o Fitz crescer e enfrentar os seus próprios erros (e só deus sabe quantos erros o Fitz teve que cometer até acertar) mas senti-lhes a falta. E se o final do Burrich me agradou não posso dizer o mesmo do Chade.

Ainda não sei se as explicações sobre os red ships me convenceram completamente mas confesso que adorei a ideia dos elderlings. Talvez tenha sido demasiado fácil para o Fitz acordá-los (too much e nem sequer havia necessidade) mas o sacrifico do Verity deixou-me de coração apertado - fabuloso. 

Gostei muito da ideia - já antes explorada q.b mas que aqui tomou um lugar fundamental - do Catalyst e do White profet. Ter o Fitz (e não o Verity), o catalisador como protagonista foi um golpe de génio mas, caramba, não era necessário que o desgraçado falhasse tanto. Ao longo dos três livros, se pensarmos bem, Fitz teve pouquíssimas vitórias - escusava portanto de ter descoberto como acordar os elderlings de forma tão fácil e casual. Pessoalmente preferia que ele fosse tendo algumas vitórias pelo caminho.

Regal acabou por se tornar num verdadeiro vilão mas podia ter bastante mais consistência e nuances do que teve.

Kettle, Starling e Kettricken são todas maravilhosas à sua maneira. E o Fool, bem, o Fool continua a ser a minha personagem favorita. Foi maravilhoso vê-lo tornar-se um membro de pleno direito do pack do nighteyes e companhia.

 

19
Mai19

Um, dó, li, tá , de M. J. Arlidge

Patrícia

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Um, dó, li, tá...

A premissa deste livro é assustadora: Duas pessoas raptadas e presas... pelo menos até que um deles morra. Queres viver? Mata o teu companheiro de infortúnio. Simples e eficaz.

Helen Grace, a inspectora-chefe que lidera o caso tem, como normalmente acontece neste tipo de livros, muitos fantasmas e é uma pessoa bastante interessante. Gostei bastante dela.

Não vos vou contar nada sobre o enredo deste livro por razões óbvias: é um policial e não vos quero estragar a diversão.

No meu ponto de vista, não sendo o melhor policial que já li na vida, lê-se bem e tem um final suficientemente agridoce para agradar. As cenas negras são suficiente macabras para me dar a volta ao estômago. 

Só fiquei com pena de não ter tido a hipótese de descobrir quem era o assassino... 

 

15
Mai19

Berta Isla, de Javier Marías

Patrícia

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Berta Isla foi o primeiro livro de Javier Marías que li. Este autor estava naquela lista dos "incontornáveis e adorados por todos que não li porque tenho um medo do caraças de não gostar e ser a ovelha ronhosa cá do sítio". Em vez de começar pelos livros mais famosos ou por aqueles de quem todos os meus amigos falam (com o Os enamoramentos à cabeça desta outra lista) comecei por um que comprei por impulso no dia em fiz 40 anos.

Berta Isla conta a história de um casamento... não, de um "casamento" talvez não seja a palavra certa. Berta Isla conta a história de como duas pessoas, por pura teimosia (e no fundo talvez seja isso a que chamamos amor) se mantêm numa relação quando toda a lógica diz que aquela não faz nenhum sentido. É a história de duas pessoas que não deixam que a vida se intrometa na sua relação.

Berta e Tómas (ou Tom) conhecem-se no liceu. Ela, madrilena, ele, filho de um inglês e de uma espanhola, cedo percebem que é um com o outro que querem ficar. A separação do tempo da faculdade (ela estuda em Madrid, ele em Oxford) marca o início e, afinal, o ritmo de toda uma vida. As separações frequentes, a vida a dois e as vidas, que não se misturam, quando estão separados. É durante a estada em Oxford que Tom é recrutado, após um incidente que tem o poder de mudar o curso de uma vida e por ter um talento especial para as línguas, para os serviços secretos ingleses. Mas não é certamente a necessidade de secretismo que advém deste tipo de ocupação que se irá intrometer na vida de Berta e Tómas.

Berta não sabe, na verdade, a que se dedica o seu marido. E quando descobre continua a não saber. E como tal, como qualquer pessoa que, na verdade, não sabe mas tem parte da informação... especula, adivinha, remói, inventa, sonha, julga. E vou confessar-vos - esta parte chateou-me um pouco. Metade do espaço dedicado às especulações da Berta tinha sido mais que suficiente. É certo que a escrita de Javier Marías é excepcional. É certo que nos consegui transmitir o solidão, o isolamento, o abandono que Berta sente. É certo que as suas dúvidas são também as nossas (apesar de sabermos mais que ela, cortesia do narrador omnisciente da primeira parte do livro) e os seus medos e julgamentos são também os nossos. Ainda assim... demasiado longa, esta segunda parte. Resistir-lhe foi um exercício de persistência (bastante facilitado pela magnífica escrita do autor). 

Por outro lado gostei muito mesmo das primeira e terceira parte. Ouvir as histórias de Berta e Tom por um narrador omnisciente com um ritmo me me fazia virar página atrás de página foi mesmo muito interessante. O que me leva a querer ler a trilogia "o teu rosto amanhã" porque acho que vou gostar muito.

Apesar de ter achado desnecessariamente longa a parte em que são levantadas todas as questões morais e existências deste livro achei-as bastante pertinentes. Reflectir sobre o conceito e o pré-conceito do amor e das convenções sociais; sobre o casamento; a lealdade que devemos aos outros e a nós mesmos ou sobre quem somos, sozinhos ou com os outros, é sempre bom.

No geral acabou por ser um livro de que, apesar de não ter sido fácil de ler, gostei muito.

 

 

24
Abr19

Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves

Patrícia

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"Essa foi a minha identidade clandestina durante muitos anos. Se fazia novos amigos, evitava contar-lhes que ela morrera. Se as suas mães preparavam lanches ou os abraçavam, eu jamais revelava desencanto ou inveja, porque a ideia de ser solitário era o meu selo de singularidade"

 

 

Foi em Setembro de 91 que entrei para uma nova escola e que me esforcei muito para não ser "a miúda sem pai". Lembro-me do choque nos olhos de um dos meus melhores amigos quando, anos mais tarde, lhe disse - de forma bruta e aparentemente displicente - que o meu pai tinha morrido há anos.

Talvez não seja justo começar uma opinião sobre um livro a falar de mim, a escrever na primeira pessoa do singular, mas a verdade é que há livros com os quais nos identificamos de tal forma que temos, ao longo da leitura, de nos esforçar por reconhecer que o livro não foi escrito por nós, nem para nós, nem por ninguém que nos conhece. E quando isto acontece é muito difícil julgar o livro por algo mais que a nossa reacção a ele, que as nossas emoções quando o lemos. 

Por outro lado tenho sempre algum pejo em falar da vida dos outros e ler este livro - que foi tornado público por escolha do autor - fez-me sentir, repetidas vezes, que estava a imiscuir-me em algo que não devia... e eu tenho total noção que isso acontece porque a parte da minha vida onde estão os sentimentos, o medo, a tristeza, a raiva e as lágrimas é algo que protejo com unhas e dentes.

Acho que um escritor só o é, ou só o é na totalidade, quando tem alguma coisa para dizer, quando tem uma história para contar. Não acho que todos os escritores precisem fazer o que fez o Hugo Gonçalves mas acredito que, em cada livro que escrevem, põem um pouco (e tantas vezes mais do que apenas um pouco) de si. Imagino que não tenha sido fácil escrever e, acima de tudo, partilhar este livro. 

Há imensos livros, a maioria de psicólogos e psiquiatras, sobre o luto e mais especificamente, sobre o luto na infância. Esses livros serão óptimos para pais, professores e adultos. Têm zero importância para quem passa por isso. Imagino que haverá livros infantis que o expliquem, que tentem ajudar nessas situações. 

Mas ouvir na voz de outra pessoa aquilo que não podemos admitir a ninguém - "não me lembro da voz da minha mãe"  ou  "Eu sabia que ela ia morrer" talvez ajude mais que propriamente a infinidade de conselhos triviais e banalidade vazias com que, cheios de boa vontade, pena e superioridade, os adultos tentam ajudar as crianças. 

Não em interpretem mal, isto não é, nem pretende ser, um manual para ninguém. É apenas a história que o autor quis contar. Só que essa história cruza-se com a minha, com tantas outras histórias que nunca serão contadas.

 

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Persistência da memória, de Salvador Dali

 

 

 

 

 

20
Abr19

Armários vazios, de Maria Judite de Carvalho

Patrícia

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Na minha estreia e sem surpresa, fiquei conquistada pela forma como esta escritora escreve as mulheres e a solidão. Digo "sem surpresa" porque a tantas pessoas ouvi o elogio que já estava, de certa forma, à espera do que encontrei. Maria Judite de Carvalho foi, sem dúvida, uma escritora maravilhosa e com uma imensa capacidade de fazer o leitor sentir. 

Neste Os armários vazios, Maria Judite de Carvalho apresenta-nos, primeiro, a Dora Rosário, viúva antes de mulher, que procura sobreviver à sua condição e criar a filha Lisa que, tantas vezes, se parece mais com Ana, a sogra, que consigo. Depois, pela mão de Dora, pela sua história, vamos conhecendo as outras mulheres. Ana, Lisa, Júlia e, claro, Manuela. E os homens. Sempre os homens, que são secundários nesta história mas que serão sempre personagens principais nas vidas daquelas mulheres.

Sendo um romance (ou uma novela? nunca sei bem) tão curto lê-se quase de uma assentada e deixa-nos, ou pelo menos a mim deixou, com uma sensação de vazio e de tristeza. Não gostei, no final, de nenhuma das mulheres a que a escritora me apresentou. Faltou-me um toque de esperança de mudança (e não, a Júlia não foi o suficiente para isso). Mesmo reconhecendo (ou talvez por isso mesmo) tantas mulheres que se encaixam em cada um dos estereótipos ali representados, acredito que até nessas há mais alguma centelha de vida, ou que não se deixam derrotar com tanta facilidade. Não é a derrota que me incomoda... é a falta de haver gritos e berros e esperneio pelo meio.

 

 

07
Abr19

Royal Assassin, de Robin Hobb

Patrícia

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Depois de um início pouco auspicioso, porém com fé em quem me dizia que isto ia melhorar, aventurei-me no segundo volume da história de Fitz. E, confesso, este segundo volume conquistou-me. 

No início deste livro, Fitz está a recuperar da tentativa de assassinato e do sacrifício de Nosy. Está quebrado e é cedo que percebo que poucos escrevem a solidão e o medo de ter perdido tudo como a Robin Hobb. Não é propriamente a lealdade a Shrewd que o leva de volta a Buckkeep mas sim Molly e uma visão. Rapidamente se vê enredado nas intrigas da corte, continuando o seu trabalho como kingsman ao mesmo tempo que tem que ser o sempre foi para Patience, Burrich e Molly. 

Robin Hobb não nos deixa esquecer (e isso é de salientar) que, mesmo sendo tudo isto, Fitz é um miúdo. 

Acho que foi essa capacidade de escrever o que é ser humano que me conquistou. As personagens deste livro estão longe de ser perfeitas. Longe de ser boas ou más. Com excepção do Regal que, de facto, não se mostrou ainda minimamente humano (os maus desta fita ainda não me convenceram, apesar de já terem atingido o estatuto de vilões a sério), todos os outros são muito bem construídos. É difícil não sentir empatia com quem, apesar de ter tão boas intenções, comete tantos erros como aquele grupo.

Neste segundo volume deliciei-me com a magia Wit. Estabelecer um laço com um lobo? Adoro o Nighteyes e acima de tudo gosto deste meio termo a que a autora chegou: ela não deu ao lobo características humanas nem uma consciência humana - e isso é muito difícil de fazer tendo em consideração que o transformou numa personagem importante. Mas disto falaremos melhor quando escrever a opinião do terceiro livro.

O que não me convenceu (ainda) neste volume - e sei que é mais culpa deste meu feitio que da autora - é o romance entre a Molly e o Fitz. Chamem-me "coração de pedra"  mas não senti grande tristeza quando ela resolveu ir embora (e sim, eu percebi quem é esse ser que ela ama mais que tudo - não haverá quem não o perceba). A verdade é que a Molly merece muito mais que o Fitz. Merece mais que ser uma terceira escolha. Merece mais que passar uma vida inteira à espera que ele se digne a escolhê-la.  E merecia, acima de tudo, ser alvo da confiança dele. A moça subiu imenso na minha consideração quando se fartou e tomou as decisões que ele não tomou.

O Fool continua a ser a minha personagem preferida. E era sempre que ele aparecia que eu me emocionava. A dor, a dedicação, o sacrifício e sofrimento de quem vive para outro, para mitigar o sofrimento dos outros. Tanto nesta personagem pode servir para reflectirmos sobre a vida e morte. E, como "de sábios e de loucos, todos temos um pouco", é impossível não ter a convicção que ele é o mais sábio de todos.

Kettricken e Verity cresceram e tornaram-se nas personagens que espera. Ela é das mais interessantes personagens do livro, ele ainda não atingiu nem perto do seu potencial. Mas este é um romance que me agradou.

Como já disse antes, Regal tornou-se o vilão incontestado mas, para ser um grande vilão, precisava de não ter uma outra dimensão. Claro que isso é especialmente difícil porque estamos a ver sempre através dos olhos de Fitz. O problema dos livros na primeira pessoa é precisamente esse. Ainda assim, as cenas de tortura que ele protagonizou deixaram-me estarrecida. A forma como a escritora as escreveu, privilegiando as emoções às dores físicas, conseguindo transmitir toda a dor, abandono, desespero e desesperança que o Fitz sentiu foi magistral e elevou bastante as minhas expectativas para a terceira parte desta história (que não é trilogia nenhuma, é uma história dividida em três - ou mais, dependendo das edições - exactamente como o Senhor dos Anéis).