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Ler por aí

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07
Abr19

Royal Assassin, de Robin Hobb

Patrícia

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Depois de um início pouco auspicioso, porém com fé em quem me dizia que isto ia melhorar, aventurei-me no segundo volume da história de Fitz. E, confesso, este segundo volume conquistou-me. 

No início deste livro, Fitz está a recuperar da tentativa de assassinato e do sacrifício de Nosy. Está quebrado e é cedo que percebo que poucos escrevem a solidão e o medo de ter perdido tudo como a Robin Hobb. Não é propriamente a lealdade a Shrewd que o leva de volta a Buckkeep mas sim Molly e uma visão. Rapidamente se vê enredado nas intrigas da corte, continuando o seu trabalho como kingsman ao mesmo tempo que tem que ser o sempre foi para Patience, Burrich e Molly. 

Robin Hobb não nos deixa esquecer (e isso é de salientar) que, mesmo sendo tudo isto, Fitz é um miúdo. 

Acho que foi essa capacidade de escrever o que é ser humano que me conquistou. As personagens deste livro estão longe de ser perfeitas. Longe de ser boas ou más. Com excepção do Regal que, de facto, não se mostrou ainda minimamente humano (os maus desta fita ainda não me convenceram, apesar de já terem atingido o estatuto de vilões a sério), todos os outros são muito bem construídos. É difícil não sentir empatia com quem, apesar de ter tão boas intenções, comete tantos erros como aquele grupo.

Neste segundo volume deliciei-me com a magia Wit. Estabelecer um laço com um lobo? Adoro o Nighteyes e acima de tudo gosto deste meio termo a que a autora chegou: ela não deu ao lobo características humanas nem uma consciência humana - e isso é muito difícil de fazer tendo em consideração que o transformou numa personagem importante. Mas disto falaremos melhor quando escrever a opinião do terceiro livro.

O que não me convenceu (ainda) neste volume - e sei que é mais culpa deste meu feitio que da autora - é o romance entre a Molly e o Fitz. Chamem-me "coração de pedra"  mas não senti grande tristeza quando ela resolveu ir embora (e sim, eu percebi quem é esse ser que ela ama mais que tudo - não haverá quem não o perceba). A verdade é que a Molly merece muito mais que o Fitz. Merece mais que ser uma terceira escolha. Merece mais que passar uma vida inteira à espera que ele se digne a escolhê-la.  E merecia, acima de tudo, ser alvo da confiança dele. A moça subiu imenso na minha consideração quando se fartou e tomou as decisões que ele não tomou.

O Fool continua a ser a minha personagem preferida. E era sempre que ele aparecia que eu me emocionava. A dor, a dedicação, o sacrifício e sofrimento de quem vive para outro, para mitigar o sofrimento dos outros. Tanto nesta personagem pode servir para reflectirmos sobre a vida e morte. E, como "de sábios e de loucos, todos temos um pouco", é impossível não ter a convicção que ele é o mais sábio de todos.

Kettricken e Verity cresceram e tornaram-se nas personagens que espera. Ela é das mais interessantes personagens do livro, ele ainda não atingiu nem perto do seu potencial. Mas este é um romance que me agradou.

Como já disse antes, Regal tornou-se o vilão incontestado mas, para ser um grande vilão, precisava de não ter uma outra dimensão. Claro que isso é especialmente difícil porque estamos a ver sempre através dos olhos de Fitz. O problema dos livros na primeira pessoa é precisamente esse. Ainda assim, as cenas de tortura que ele protagonizou deixaram-me estarrecida. A forma como a escritora as escreveu, privilegiando as emoções às dores físicas, conseguindo transmitir toda a dor, abandono, desespero e desesperança que o Fitz sentiu foi magistral e elevou bastante as minhas expectativas para a terceira parte desta história (que não é trilogia nenhuma, é uma história dividida em três - ou mais, dependendo das edições - exactamente como o Senhor dos Anéis).