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Ler por aí

Ler por aí

08
Jan16

Os miúdos devem ler o que querem, quando querem?

Patrícia

Depois do meu post anterior e da interessante conversa que se gerou nos comentários (isto é mesmo o melhor dos blogs) acabei por ficar a pensar na questão desenvolvida neste artigo (obrigada pela partilha numadeletra):

Kids Should read whatever they want, whenever they want” ou seja “os miúdos devem ler o que querem, quando querem

A minha primeira reação é dizer “NÃO”, não devem. Há imensos livros que não são adequados para todas as idades, há livros que os putos de determinadas idades não vão perceber, há livros que não ensinam nada, faz parte da responsabilidade de pais (professores e afins) orientar as leituras dos miúdos, ajudando-os a escolherem os adequados e aqueles que os poderão ajudar a crescer e a tornarem-se (boa) gente.

Mas depois penso na minha própria experiência e tenho que repensar isto tudo.

Sempre gostei de ler. Os meus pais davam-me regularmente livros e tinha acesso às estantes das minhas primas que me aconselhavam e emprestavam os livros que as tinham marcado quando tinham a minha idade. Ia a bibliotecas itinerantes (menos vezes do que as que gostaria) e no Natal ou no meu aniversário era aceite por todos que livros era a melhor coisinha que me podiam oferecer.

Mas eu adorava ir enfiar o nariz nas estantes alheias e volta e meia descobria livros que me interessavam. Várias vezes me disseram: ainda não, esse livro não é para a tua idade e obviamente aquele livros eram lidos nos dias/semanas seguintes. Era deixá-los esquecer o meu interesse, ir lá e ler.

Por motivos que não são para aqui chamados, a minha mãe ia olhando para os livros que eu lia, perguntava-me sobre o que eram mas não tinha tempo para muito mais do que isso. Não os lia ela mesma e muitas vezes nem se apercebia do que eu estava a ler (eu vivia/estudava fora e mesmo quando estava em casa passava muito tempo sozinha - a casa é grande, o quintal e a aldeia também e eu lia em todo o lado). Ela tentava orientar-me (“como nunca leste Júlio Dinis?”, “Porque é que não lês livros de autores Portugueses?”,”Anna Karénina foi o meu livro favorito de todos os tempos”, “tens tanta coisa na estante que não leste… como é possível dizeres que já não tens nada por ler?”) mas a verdade é que (bendita seja) me deu rédea solta em relação às leituras e eu tanto lia os livros da Patrícia como saltitava entre o “Os filhos da Droga” e o “O Conde de Monte Cristo”. Se não fosse essa liberdade talvez nunca tivesse lido Pearl S. Buck ou Alexandre Dumas, talvez não me tivesse apaixonado por Isabel Allende ou descoberto Christian Jack. Talvez não tivesse lido tanto livro mauzinho. Talvez não tivesse lido romances românticos até enjoar. Talvez não soubesse que o filme “Música no coração” acaba na antes da página 70 do livro em foi baseado e que este tem umas 500 páginas. Talvez não tivesse lido sobre droga a ponto de ficar sem qualquer interesse em experimentá-la. Talvez não fosse a leitora que sou hoje. Não seria certamente a pessoa que sou hoje.

Espero que as miúdas de 12 anos não andem a ler as cinquenta sombras e não cresçam a pensar que aquilo é um relacionamento sexy e divertido mas a verdade é que se as miúdas de 12 anos puderem escolher as suas próprias leituras e escolherem ler Henry Miller, Anais Nin ou MEC possam, mesmo sem perceber tudo – ou nada – crescer a saber que há mais literatura do que aquela que nos é impingida pelos “mercados” e que tenham curiosidade para ler mais e mais, aprender e crescer.

Há livros que nunca vou oferecer aos meus filhos, há livros que (provavelmente) vou tentar evitar que leiam em determinadas alturas da vida mas espero, acima de tudo, que leiam o que quiserem, que sejam imaginativos o suficiente para querer ler mais, melhor. Porque mais perigoso para a mente em formação do que ler algo desadequado é não ler de todo.

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