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Ler por aí

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18
Mar21

O Tempo é Relativo

Patrícia

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Quadro "a persistência da memória" de Salvador Dali

Um ano passou e continuamos em pandemia. Entraram palavras novas no nosso vocabulário e agora toda a gente sabe (mais ou menos) o que é um postigo (um parêntesis para vos dizer que fiquei muito surpreendida quando percebi que postigo era uma palavra que muita gente não conhecia. Como algarvia e serrenha, sempre conheci casas com postigo). Outras porém quase entraram em desuso. Ou outras actividades. "Jantar fora com amigos" já é uma expressão estranha. "Bora beber um copo"? parece uma proposta indecente. "Vem jantar cá a casa" é um convite ilícito. Mas todos, sem excepção, esperamos retomar a vida dentro em breve, voltar a abraçar sem medo, dar beijinhos aos mais velhos, conviver fora de casa sem máscara.

Agora que já vos relembrei da vossa situação miserável de quem ainda não pode fazer planos para o fim de semana que está aí à porta (e este ano a primavera parece ter vindo bem a tempo e horas) deixem-me pôr-vos uma situação hipotética. E se esta falta de liberdade fosse permanente ou pelo menos sem fim à vista? 

Imaginem saber que se vão passar anos até que que possam ir jantar fora com amigos, até que possam ir à noite a um bar, passar a passar algumas horas numa  esplanada ou aceitar qualquer convite em cima da hora. Imaginem que não sabem quando vão conseguir voltar a dormir até às 10 da manhã ou passar o dia de pijama no sofá. Imaginem que não podem desligar o telefone se vos apetecer. Imaginem que não têm tempo livre para ler um livro, ver um filme ou estar 30 minutos de olhos fechados.

Os "cuidadores informais", pessoas que têm outros a seu cargo, vivem vidas assim, dia após dia, ano após ano. Não acho que seja possível fazê-lo sem amor. Mas não é por haver amor que é mais fácil. Quer dizer, mais fácil é mas não é fácil. À necessidade de se escolher o outro em detrimento de si, ao cansaço físico, ao cansaço psicológico, às dificuldades financeiras, soma-se a dificuldade de ver o sofrimento e a dependência do outro, vê-lo a desaparecer.

Não escrevo sobre isto para vos dizer que esta situação que vivemos não é difícil, que não é uma merda, que ficar em casa no sofá não é difícil. Claro que é e podem queixar-se de tudo o que vos apetecer. O sofrimento dos outros é dos outros, não faz com que o vosso não exista. Não acho que seja sequer justo comparar sofrimentos.

Eu escrevo isto para vos fazer olhar para os outros com mais empatia. Não é possível saber o que sente um cuidador informal sem o ser. E mesmo entre os cuidadores informais há n situações distintas, umas mais fáceis que outros. Podem pensar no que estamos todos a viver e pensar no que os outros vivem e vão continuar a viver depois disto tudo passar. E podem ajudar. Podem não desvalorizar. Podem ouvir. Se tiverem alguém na família com esse género de responsabilidade podem substituí-los durante umas horas e deixá-los ir jantar fora ou dormir umas horas sem problemas. Podem ajudar a lutar pelos direitos destas pessoas no local de trabalho ou na vida. Podem deixar de os achar uns parasitas da sociedade como tantos acham. Se tiverem algum amigo nesta situação podem não fo cazer sentir culpado por não podem aparecer, por não aceitar convites. Podem, na loucura, ligar-lhe de vez em quando (já, agora, se ligarem não falem só de vocês a não ser que isso seja mais fácil para essa pessoa, oiçam tb um bocadinho). Podem perguntar-lhe como está. Podem fazê-lo sentir que ainda é gente, que ainda existe para além da sua situação. Podem pensar que um dia podem ser vocês e gostavam que não fosse mais difícil do que tem que ser.

 

Amanhã é dia do Pai e este texto faz mais sentido do que algum de vocês poderá pensar.

 

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