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Ler por aí

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08
Fev16

O Coro dos Defuntos, de António Tavares

Patrícia

O coro dos defuntos.jpg

 

É impossível não começar a leitura deste livro com imensas expectativas. O vencedor do Prémio LEYA será sempre analisado, comparado, esmiuçado. Como leitura, leio os prémio LEYA com curiosidade e tento formar uma opinião imparcial. A qualidade de um livro que ganha este prémio é indiscutível pelo que o que resta é a opinião emotiva de cada leitor.

Diz ela que naquela terra da Beira, onde faunos havia tal como o Aquilino os tinha predito, as pessoas eram feias e duras. E dizia que o mundo é feito de gente que ainda não é bem gente ou então já está muito para além dela. Os da cidade e de outras paragens não conheciam o que isso era. Não ouviam os lobos nem sabiam do saltitar manhoso das raposas entre as giestas. Não adivinhavam que havia espíritos em todas as coisas, fosse nas águas do rio, nas árvores ou até nas cinzas de uma fogueira, e que os antigos permaneciam entre os vivos, apesar de os enterrarem num cerro a duas léguas dali.

Pág 6

Fosse a linguagem deste excerto exemplo da praticada em todo o livro e teria ficado fascinada. Com o intuito de evocar Aquilino Ribeiro e a sua linguagem riquíssima, cheia de regionalismos, este livro está pejado de expressões e palavras que me obrigaram a ir ao dicionário (demos graças pelos ebooks que nos permitem o acesso imediato ao dicionário, que isto de ir ao glossário no final do livro não é para mim) e me dificultaram a leitura, tornando-a lenta, fraturada e sinceramente, com menos interesse do que aquele que teria tido noutra circunstância.

Mas será difícil esquecer Manuel Rato, um filósofo escondido dentro de uma pedra, ou a avó d'Ela, parteira e cangalheira, misto de sabedoria e superstição. E a Olivita? De santa a amante. E Tritão, cheio de sabedoria atrás do balcão?

Histórias avulso contadas com graça e sempre salpicadas pela História. Delicioso como, quase sem nomes e referências, a História pré-25 de Abril está contada naquelas páginas. Este registo histórico, quase um jogo de escondidas, foi o que mais me agradou neste livro.

Mais do que uma história com princípio, meio e fim (apesar de haver um crime a desvendar) este é um livro de pequenas histórias, episódios que nos mostram a vida num Portugal rural, onde tudo é (demasiado) lento a chegar.

Sendo eu duma aldeia tenho sempre alguma dificuldade em reconhecer estes retratos pois, do que conheço e me contaram, lá pelas serras algarvias as coisas eram diferentes. O pré-25 de Abril viveu-se com ansiedade, o medo da PIDE era uma realidade e informação chegava.

Aprendi bastante com este livro.

Pela primeira vez, olhou com atenção os homens, vistos do lado de fora da taberna. Quem diria o quanto tinham mudado e como estavam diferentes? Para perceber isto era preciso estar além, ver os outros como se se fosse também um outro, um estranho dentro de si, alguém que não tinha feito parte daquele teatro, o que significava ter mudado. Imaginava que, noutros tempos, os homens deveriam nascer e morrer sendo sempre os mesmos. A mudança das coisas fazia-os alterarem-se, e eles próprios provocavam novas mudanças, ficando sem se saber a verdadeira origem de se trocar a volta às coisas. 

    Já dentro da taberna, o Tritão anunciou que havia um copo por conta da casa para se fazer um brinde. E foi assim, de copo na mão, bem erguido, que os homens atónitos ouviram o dono da tasca dizer: À mudança do mundo!

Pág 190

Vá, vão lá descobrir quem é que, afinal, matou a Chichona!