Ler por aí
 
12 de Março de 2018

jane eyre.png

 

A história que este livros nos conta é por demais conhecida, não vou por isso falar dela. Acredito que todos conhecemos, de uma forma ou de outra, nem que seja por ouvir falar, o amor entre Jane e Mr Rochester. Eu li uma versão juvenil deste livro quando era miúda e durante muito tempo acreditei ter lido a versão original (aconteceu-me o mesmo com o Mulherzinhas).

Se por um lado, conheci cedo e cedo me apaixonei por muitos clássicos da literatura, a verdade é que não gosto das versões juvenis. No meu caso sei que teria tido capacidade e tempo para ler o livro original. Crescendo antes do tempo da internet e da facilidade de comunicação e partilha de informação de hoje, sem acesso a bibliotecas (ainda sou do tempo da biblioteca itinerante passar lá na aldeia mas até isso acabou cedo) , fui-me abastecendo nas estantes da família (e que sorte tive neste aspecto), nas raras passagens pela Bertrand da rua de Sto Antónia em Faro (a minha versão infantil de paraíso) de onde nunca saí sem um ou dois livros e graças aos presentes de família e amigos. Li sem supervisão e com toda a liberdade dentro do meu próprio universo. E esse universo tinha quase todos os clássicos juvenis verbo.

Esta (re)leitura encantou-me. Gosto de reler e a impressão, bastante positiva que tinha, que "a paixão de jane eyre" me tinha deixado em criança foi claramente suplantada. 

Todo o ambiente "gótico" do livro me encantou. O frio, o silêncio, o nevoeiro que se sente nas páginas deste livro contrasta com a força e cor da personagem principal. Rochester é para muitos um dos favoritos (eu serei sempre da equipa "Darcy") mas foi Jane que me encantou. E Charlotte Brontë também.

Obviamente a critica social e religiosa está presente, muito presente neste livro. A forma como a relação com Deus tem um papel central neste romance é muito interessante (não é possível esquecermo-nos que o livro foi publicado pela primeira vez em 1847) e que criticar  e expor de forma tão aberta a hipocrisia da igreja era muito mais difícil na altura que hoje.

Ainda assim, foi a vertente feminista que me interessou mais. Na verdade foi a vertente pessoal que me interessou mais. Jane Eyre tornou-se uma das minhas personagens preferidas.

Dizia eu que este é um romance feminista, onde Jane e Edward são apresentados lado a lado, onde a força moral dela é claramente o centro da história. Jane nunca se trai. Acima de tudo, Jane nunca se trai a si mesma. Podemos não concordar com as suas escolhas, podemos (à luz da sociedade moderna) achar uma tolice as escolhas dela mas como não admirar a força de carácter de alguém que escolhe sempre não se trair? De alguém que decide por si mesma, assumindo erros da mesma forma que assume vitórias. 

Numa época em que somos, todos os dias, manipulados e em que o nosso comportamento é condicionado e padronizado, é bom ler um clássico, um livro escrito há tantos anos e cuja mensagem principal é "decidam por vocês, mantenham-se fiéis a vós mesmos. 

 

publicado por Patrícia às 07:00 link do post
Tenho uma pancada fortíssima pelas irmãs Brontë, que começou (como não podia deixar de) com o Wuthering Heights, e seguiu com o Villette e o Jane Eyre, e ainda The Tenant of Wildfell Hall (da Anne). Além de todos estes livros se sustentarem em personagens femininas fortíssimas, acho-os de um feliz, fresco feminismo. O papel da mulher, em todos eles, é avançadíssimo para a época.
Também Jane Austen me surpreendeu muito, nesse aspecto, embora as "suas" mulheres não sejam da mesma fibra que as das Brontë; talvez a experiência de vida destas o explique, não sei. São todas autoras fascinantes, e amo-as muito.
Izzie a 12 de Março de 2018 às 12:09

Acreditas que nunca li nada da Anne? Tenho que ir à procura. Prefiro Jane Austen (tenho uma amor antigo pelo Orgulho e Preconceito) a Emily Brontë. Para além de belas histórias estes livros são autênticos manifestos feministas e é muito bom lê-los nessa perspectiva.
Empresto ;)
Izzie a 16 de Março de 2018 às 10:14
Engraçado que muito do que referes - ou a forma como o interpreto, vá - é o que me irrita neste livro. Reconheço o seu valor - o facto de Jane ter tido coragem de se insurgir, dada a sua condição de mera empregada de um homem rico, vs a data em que o livro foi escrito e publicado - mas, por exemplo, o tom religioso moralista do cerca de primeiro terço do livro, com a Helen Burns, não me faz capaz de ver grande crítica religiosa no mesmo. Também não sinto que Jane e Rochester sejam exactamente apresentados lado a lado - ela no fim fica com ele, certo; ele está numa situação fortemente diminuída, ela está rica, ela desiste de muito para ser enfermeira dele. Sinto que, no fim, ele está rebaixado ao nível dela, que está agora um pouco mais elevado com a herança. Não acho Jane interessante, acho a fuga dela tonta. Personagem que me atrai: Bertha. A Jean Rhys escreveu um livro magnífico no qual tenta explorar esta personagem da qual sabemos tão pouco (excepto que o seu marido se fartou dela, que tem pele escura - o que assusta Jane - por ser das West Indies, e que foi trancada num sótão).
Bárbara Ferreira a 15 de Março de 2018 às 21:59
Olá Bárbara, 
Obrigada pelo comentário, é sempre bom olhar para os livros por outro ângulo.


Eu quando falo de crítica religiosa falo precisamente das várias formas como, no século XIX, a escritora conseguiu mostrar vários tipos de forma de viver a religião. Temos a Helena Burns, completamente submissa à religião comummente aceite, temos o John, um hipócrita de primeira, extremista e que dobra a religião a seu bel-prazer e a própria Jane, que se debate ao longo de todo o livro com essa questão e que tem uma forma de viver a  religião bem mais lata e baseada no espírito e intenção que nas regras escritas.  


Concordo contigo na questão do Rochester e da Jane. Quando falo em apresentados lado a lado é precisamente na questão da comparação. Eu olhei sempre para ambos, comparando-os (a linguagem com que falam um com o outro, por exemplo, marca essa comparação), fazendo um retrato da sociedade da época.
Não acho a fuga da Jane tonta - impulsiva e inocente, sim, mas o marco de uma escolha e da força da sua decisão. Uma fuga dele e dela mesmo, dos seus desejos e impulsos. A escolha da razão sobre a emoção. 
Também acho a Bertha fascinante e o livro Vasto Mar de Sargaços (acho que é assim que se chama) será uma das minhas próximas leituras. Tenho uma versão que saiu com a sábado há uns anos e acho que está na altura de o ler. Tenho ideia de ter visto, há muito tempo, um filme baseado nesse livro e de ter sentido um choque enorme quando me apercebi que aquele era O mr.Rochester da Jane Eyre...
Eu li o Vasto Mar de Sargaços (é assim que se chama - em português - sim!) há ano e meio, pouco tempo depois de reler Jane Eyre, e é brilhante. Adorei mesmo, é um retrato magnífico da ideia colonial, da ideia da "mulher exótica" vista aos olhos ocidentais. Tira o demónio de uma mulher que, no fundo, assumimos como louca mas nunca chegamos a conhecer. Humaniza-a. Tenho uma review do livro, se depois quiseres ler/comparar ideias :)
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