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Ler por aí

Ler por aí

07
Nov18

Falar bem ou mal, eis a questão

Patrícia

Com o poder vem a responsabilidade.

Em blogs (e outras plataformas digitais) como esta damos a nossa opinião sobre os livros que lemos e, numa escala maior ou menor, influenciamos outros leitores a ler (ou não), a comprar (ou não). E com isso vem uma dose de responsabilidade. As editoras há muito que o perceberam, os bloggers e os leitores também. E assim boa parte do marketing feito pelas editoras passa pelas famigeradas "parcerias" (que não são o tema deste post mas, para registo, é coisa que não tenho nem quero ter). E quer se goste ou não, quer se ache bem ou mal, a verdade é que esta comunidade tem algum poder e com isso tem alguma responsabilidade.

Este post é precisamente sobre essa responsabilidade. Ou melhor, sobre o meu entendimento dessa responsabilidade em relação aos livros de escritores portugueses.

Deixem-me começar por dizer que em relação ao tema "dizer bem ou mal de um livro" vs "opinião honesta" eu já mudei de opinião e tenho, ainda, sentimentos contraditórios.

Quando, há muitos anos, comecei esta brincadeira dos blogs (salvo erro, foi em 2006) , a minha ideia era apenas fazer um registo das minhas leituras. Achei piada à brincadeira de escrever sobre livros, a minha paixão, e adorei a possibilidade de encontrar outros leitores e de trocar opiniões. Este blog permitiu-me conhecer muita gente, entrar para um maravilhoso grupo de leitores, conhecer autores e, o melhor de tudo, fazer amigos. Muitos amigos. 

De uma forma um tanto ou quanto egocêntrica achava que era meu direito (quase dever) dar opiniões sinceras, quer fosse para elogiar, quer fosse para criticar. Há posts aqui a falar bastante mal de alguns livros (alguns até são ainda lembrados como tão divertidos que os levaram... a querer ler o livro para poderem ter opinião). Uma vez (até é capaz de haver por aí um ou mais posts sobre o tema) disseram-me que um blogger não devia falar de um livro se dele não gostasse. E alguém que faz (mesmo) crítica literária disse-me que só escrevia sobre livros de que tinha gostado. Confesso (ai, como a ignorância é atrevida) que aquilo me chocou. Como é que podia ser justo só falar bem de um livro? não, não, as opiniões devem ser dadas. É certo que nessa altura tinha uma ideia muito melhor acerca da minha própria capacidade enquanto leitora (ah, a arrogância da juventude) e a verdade é que quanto mais cresço e leio mais percebo o imenso caminho que me falta percorrer para ser isso que ambiciono ser "uma grande leitora"!

Hoje, anos depois, já não sou tão taxativa. Por um lado, não há nada tão divertido como desabafar e dizer mal de um livro de que não gostámos quando estamos com amigos à roda de uma mesa. Isso, garanto-vos, continuarei a fazer sempre. Mas quando penso que alguém não comprou aquele livro por causa da minha opinião, sinto que estou a prejudicar o autor. E essa é, cada vez mais e num país do tamanho de uma ervilha, uma responsabilidade que eu não quero para mim. 

Eu não tenho qualificações nem habilitações para ser critica literária (nem sequer ambição para tal). Eu não quero ser influenciadora - e se o for que o seja de forma positiva. Eu quero influenciar-vos a ler (aqueles que eu considero) bons livros. E tenho total noção que, se eu não gostar, isso não significa que seja um mau livro. Significa apenas que eu não gostei, que não é livro para mim. E sei que, muitas vezes, o problema é meu e não do livro. Quão justo é destruir esse livro por isso?

E antes que me digam que não é por uma opinião negativa que o livro não vai ser um sucesso vou ter que vos lembrar que se uma opinião positiva tem o poder de influenciar uma compra então, necessariamente, uma opinião negativa tem o poder contrário. E esse é um poder que eu não quero ter.

Ora (e lembrem-se que estou a falar maioritariamente de livros de escritores portugueses) se nunca irei dizer que adorei um livro sem que isso seja verdade começo (comecei há muito tempo aliás) a ter muito cuidado com o que escrevo quando gosto menos de um livro. Para já considero muito importante justificar a nossa opinião. É importante perceber porque é que não gostámos. E é importante, acima de tudo, pensar na nossa própria responsabilidade e pensar se valerá a pena, se será importante ou sequer relevante, dar aquela opinião negativa.

E neste caso, deixem-me ser parcial e sincera: eu defendo os nosso mesmo quando não gosto. Cada vez mais. Faço-o, não porque mo pediram, mas porque acho correcto.

Deixem-me só terminar com uma nota (ainda) mais polémica: quando pensarem em dar uma opinião negativa acerca de um livro de um escritor português pensem em quantas vezes pensaram ou disseram que "quem não gosta escusa de vir para aqui ser hater ou falar mal", "não gostam, bazem" porque "isto dá muito trabalho e vocês que não têm a capacidade de o fazer ainda têm a petulância de o criticar", pensem se querem para vocês a responsabilidade de um livro vender menos ou não vender e só depois, com base nessa reflexão, avancem para a publicação dessa opinião.

 

3 comentários

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    Patrícia 09.11.2018

    Minha querida Paula, 
    Nunca de desancaria por teres uma opinião diferente da minha e vou sempre ouvir-te, pensar e considerar aquilo que me dizes. Exactamente como à Célia. E obviamente, tenho que ponderar quando duas das pessoas que me lêem e de quem gosto (apesar de não te conhecer pessoalmente) me dizem que estou errada. 
    Posto isto, deixa-me dizer umas coisinhas:
    1. Nunca na vida (nem no meu post) iria considerar mentir acerca da minha opinião em relação a um livro. Aliás, digo-o explicitamente: nada é tão divertido quanto falar mal de um livro com outros leitores. E as melhores conversas são quando há opiniões diferentes a considerar.
    2. Concordo em género, número e grau contigo: alguém devia dizer a alguns escritores que nem todos o podem ser. Há gente que publica que não o deveria fazer, falta-lhe o talento e o trabalho. Mas EU não me considero apta para o dizer.  Não tenho os conhecimentos para isso. Quantas vezes olho para algumas das opiniões que escrevi há alguns anos e penso: "mas que raio de gosto tinha eu naquela altura".
    3. A relação dos escritores com os leitores é algo que daria um bom livro. Há com cada uma que me deixa de cara à banda. E não, não há ninguém intocável. Nem escritor, nem leitor, nem crítico...
    4. Não te vou dizer que conhecer um escritor não nos torna parciais. Torna. É como apreciar um livro de um amigo, é difícil e saber que ele/a nos está a ler ou ouvir obriga-nos a ser (ainda) mais responsável. Essa é uma das razões porque, cada vez falo de um livro de um amigo, começo logo por dizer "Sim, faço publicidade aos livros dos meus amigos porque quero e vou ser parcial porque gosto dele/a". E só o facto de não conseguir ser imparcial nesses casos me mostra que não sou a melhor pessoa para influenciar quem quer que seja.
    5. Já sabes que escrevo muito "a quente". E custa-me muito ver bons autores (e não falo sequer de amigos mas sim de gente com provas dadas) a ser "destruído" em blogs e redes sociais, sem sequer uma análise crítica. E isso fez-me olhar para mim e questionar a minha própria capacidade. 


    E não, eu não quero ser uma das "rodinhas" desta industria. Não quero ser influenciadora, não quero ganhar nada com isto. O facto deste blog ter apenas dúzia de leitores (e da maioria deles ser meu amigo)  deixa-me descansada e dá-me imensa liberdade. Eu reservo sempre o direito a mudar de opinião, se achar que isso é o correcto, por isso não sei o que farei de futuro. Mas reservo o meu direito a escrever apenas aquilo com o qual me sinta confortável e  a tentar, cada vez mais, ter uma atitude de total responsabilidade e consciência em relação às minhas palavras e acções - e acredita que, sendo tão impulsiva como sou - isto é muito difícil de fazer.
    Um beijinho e espero que continues a gostar de passar por aqui
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    Paula 09.11.2018

    Ora essa, não estás errada, não é nada isso, e tudo o que explicas faz mais do que sentido. E eu só discordo do teu raciocínio, não da tua lealdade nem dos teus princípios e muito menos da tua decisão. Eu vou continuar a ler tudo o que escreves, que eu também sou muito leal, mas vais fazer-me puxar mais pela cabeça para perceber quando é que um livro português que leste é bonzito ou é mesmo excelente. Vê lá se lês mais estrangeiros para poderes ser menos neutra e mais belicosa! ;-)
    Beijinhos e bom fds!
    Paula
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