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Ler por aí

Ler por aí

22
Dez15

Espírito de Natal ou simplesmente sem palavras

Patrícia

(Fiz-me pequenina ao ler isto. Para mim (para nós) enquanto leitora, enquanto pessoa isto deixa-me estarrecida. Não sei como ainda acontece, como se deixa uma criança sem acesso ao mundo, aos mundos todos que cabem dentro das letras, dos livros. Para ele as letras podem ter cheiro bom a comida, para mim têm cheiro a liberdade, a fuga da realidade, a futuro)

 

Não interessa as razões que o trouxeram aqui, à adolescência sem letras, sem histórias de dragões lidas antes de adormecer, sem livros de aventuras devorados, sem companhia de livros com cheiro a livros e a imaginação. Tem 16 anos e não sabe ler. E, não fosse o amor pela cozinha, talvez nunca verbalizasse essa vontade que eu sei que vai esmorecer face ao trabalho que o espera, à dedicação que é necessária, ao esforço de decorar letras, juntá-las até formarem palavras e textos com significado. Mas verbaliza. Várias vezes. A última naquele dia em que o revi e me olhou nos olhos e perguntou-me, sem cobranças, mas com um olhar profundo: "tu também não me vais ajudar a aprender a ler, pois não Liliana?". Eu, apenas mais uma igual a tantas que se importaram mas que não concretizaram, a tantas que se comoveram instantaneamente e depois foram-se esquecendo da promessa com o passar pesado dos dias e dos afazeres. Eu a ser mais uma , apenas mais uma, a não conseguir fazer qualquer diferença.
Depois os astros alinharam-se. Uma pessoa queria oferecer um presente solidário ao homem que mais ama e contactaram-me. O input era: "um presente que fizesse a diferença na vida de alguém". Eu, a medo, falei dele, dos seus olhos pretos como azeitonas e do seu desejo de aprender a ler. E a ideia de oferecer ao rapaz a oportunidade de aprender a ler, de um dia poder ler receitas e cozinhar ganhou forma e jeito de se concretizar. Depois apareceu a pessoa certa para o poder ensinar e, neste Natal ganhámos todos: ele, que em 2016 irá aprender a ler, a mulher que oferecerá ao marido um life makeover como não há memória, o marido que terá a oportunidade de mudar a vida de alguém e eu, especialmente eu, que já não serei também mais uma pessoa que tem pena mas não resolve, que se comove e segue em frente, que pára mas não age, que gostava muito mas não concretiza. 
 
Pólo Norte, no seu Quadripolaridades