Escrever por aí
Num ano novinho a estrear, é inevitável fazer uma espécie de balanço.
2025 foi, em vários aspetos, um ano estranho. Não foi um ano bom, mas podia ter sido infinitamente pior — especialmente porque o final acabou por ser relativamente pacífico, o que contrastou com o verão, que entrou para o meu top 5 dos piores. Isso refletiu-se nas minhas leituras: li menos do que devia e menos do que podia, e é isso que mais me chateia.
Podia culpar as redes sociais, mas a verdade é que este foi o ano em que saí do WhatsApp e do Instagram, ficando apenas com uma rede social (o Bluesky), e a coisa está bastante controlada. Também podia culpar a televisão — afinal, vi muitas séries (más) e muito filme de terror (alguns péssimos) — mas não seria justo. Podia ainda culpar o tempo, ou a falta dele, mas isso seria apenas uma desculpa esfarrapada. A verdade é que não li mais porque não tive disponibilidade mental para tal, e isso é algo bastante complicado de resolver.
Mas ler mais não será uma das minhas resoluções de ano novo. As duas palavras que me têm acompanhado nos últimos tempos e que precisam de se transformar em realidade são “caminhar” e “escrever”.
Quanto a “caminhar”, deixemos a coisa assim — é autoexplicativa e não há muito mais a dizer, pelo menos para já. Mas escrever é outra história.
Eu nunca fui muito de escrever. Desde miúda que me vejo como leitora e não como escritora. Nunca ambicionei escrever um livro, nunca fui uma contadora de histórias. Os blogs (e já ando nisto há 20 anos) deram uma ajuda, e durante muito tempo escrevi de forma regular, mas os últimos anos têm sido uma bela miséria nesse aspeto.
Deixei de escrever sobre a maioria dos livros que leio. Deixei de escrever sobre a maioria das coisas. E com isso, deixei (quase) de saber fazê-lo. No trabalho, não escrevo muito: uns emails, a maioria em inglês, um ou outro relatório, nada que exija grande esforço. A IA não veio ajudar. Ou veio, porque é tão fácil lançar ideias para o papel e pedir uma revisão que raramente resisto à tentação. E assim, escrever deixa de ser natural. Não sou daquelas pessoas que pede à IA para escrever um email, apenas para rever, mas ainda assim vou perdendo capacidades.
Depois há o sentido crítico. Quantas vezes penso numa opinião sobre um livro (anda ali às voltas na minha cabeça durante dias), mas quando a passo para o papel (ou computador) fica tão mau que desisto às primeiras frases. E assim, desabituo-me de o fazer.
Eu sei: devia escrever todos os dias, tal como leio todos os dias. Devia deixar que as palavras e frases que enchem a minha cabeça — e tantas vezes me impedem de dormir — passassem para folhas, posts, cadernos (e sabe Deus que não me faltam cadernos cá em casa). Não sei se vou conseguir. Provavelmente não. De certeza que não. Mas talvez me consiga disciplinar para, pelo menos, escrever um pouco sobre todos os livros que leio. Não avançar para o seguinte sem escrever algo sobre o anterior. Talvez consiga. Vou, pelo menos, tentar.
