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Ler por aí

Ler por aí

27
Abr20

E as vossas leituras, como vão?

Patrícia

Eu ando a ler mais, retomei o As benevolentes e agora só páro quando o acabar. Não gosto de ter livros por terminar e este já anda nesse estado há demasiado tempo. Por alguém motivo estranho achei que um livro, do tamanho de um tijolo, sobre a segunda guerra mundial era o ideal para levar numa viagem para o outro lado do mundo. Claro que li pouquíssimas páginas na viagem e aproveitei para dormir. Provavelmente não teria lido qualquer outro livro que tivesse levado (estava na altura com um défice de sono que já estava a fazer estragos) mas este foi, definitivamente, o errado.

Apesar de não o ter começado na altura certa, este é um grande livro apesar de ser extremamente violento e triste. E importante. Mas tem sido uma leitura difícil a vários níveis até porque está cheio de descrições que não interessam nem ao menino jesus e de títulos do exército alemão que são absolutamente imperceptíveis. Eu tenho em ebook e tem uma manifesta falta de notas de rodapé. E estar sempre a saltar para o glossário não é, sequer uma opção viável.

Tenho também em andamento o "Madre Paula" que leio quando não me apetece, de todo, pegar no As benevolentes. Este é um livro que se lê bem e é interessante. Mas não consigo gostar da Paula e passo o tempo todo com vontade de lhe dar estalos. 

Li o "à espera no centeio", hei-de escrever um post sobre ele um dia destes. Amanhã vou participar numa discussão sobre este livro no clube de leitura a que pertenço e tenho a certeza que vou aprender bastante, que a minha opinião vai ser (também) formada por essa conversa e que ficará bastante mais interessante depois disso.

Houve uma altura em que achava que devia escrever as opiniões antes de discutir o livro com quem quer que seja, como se isso fosse de alguma forma garante de uma certa autenticidade e sinceridade. Actualmente não penso assim. Por um lado escrevo mais para mim que para vocês e isso significa sempre escrever o que e quando quero e por outro uma discussão enriquece a minha visão sobre o livro, chama-me a atenção para pormenores que não tinha reparado e ajuda-me a aprofundar e a limar a minha própria opinião. Discutir um livro obriga-me a reflectir um bocadinho mais sobre ele e a minha opinião só ficará definitiva após essa reflexão.

Acabo sugerindo-vos ler um texto que me provocou uma panóplia de reacções. Revirei muito os olhos e rangi os dentes. Acho que até disse alguns palavrões. Mas ainda assim, acho que merece ser lido. E acho isso porque sei que aquela é a opinião de muitos jovens. Caramba, acho que pensei assim quando era miúda. E é por isso que eu sei o quão a Helena Magalhães está errada em algumas das afirmações que profere mas merece ser ouvida. Está errada quando diz "Não se pode pedir que um jovem de 25 anos hoje se interesse por Saramago ou António Lobo Antunes ou Agustina Bessa-Luís ou Lídia Jorge ou Eça de Queiroz", está errada quando diz que se está a "perpetuar uma literatura portuguesa que arrasta as cinzas de um Eça ou de um Pessoa" mas merece ser ouvida porque essa é a percepção de muitos jovens e isso não deve, de forma alguma, ser ignorado ou desmerecido. Não me apetece esmiuçar o texto, até porque a minha intenção é apenas realçá-lo para que possa ser discutido e utilizado para fomentar uma discussão necessária e urgente mas vou comentar apenas uma das frases em destaque "A literatura tem de se adaptar aos leitores de hoje" dizendo que não, a literatura não tem que se adaptar aos leitores de hoje. E os leitores de hoje não são os miúdos  que estão a começar a aprender a ler. Os leitores de hoje somos todos, miúdos e graúdos, leitores novos, velhos, de meia idade. Talvez se possa dizer que as editoras têm que se adaptar aos leitores de hoje, a todos, isto se querem vender e sobreviver (apesar de eu achar que esse é um dos problemas, as editoras adaptam-se mas os leitores de hoje, como a Helena diz, querem ler mas não comprar, pelo menos não o tipo de compra que paga direitos de autor).  

 

3 comentários

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    Patrícia 27.04.2020

    O problema Bárbara é que o texto reflecte a opinião de muitos miúdos (e, tendo em conta a idade dos fãs da Helena Magalhães, muitos menos miúdos também) e não  pode, não deve ser desvalorizado. É preocupante que aquela seja a opinião de uma escritora - e não me interessa a idade dela.
    A Helena comunica com eficiência e eficácia. Ignorá-la é um erro. 
    Tenho visto muita gente dos blogs e canais a evoluir tanto, a ler coisas diferentes, a arriscar e a gostar dos clássicos. Não me incomoda por que livro se começa a ler. Pode ser pelo dela (que não li) ou por outro qualquer, desde que nunca se páre, se continue a evoluir e a ler mais e melhor sempre. 
    não tenho nada contra os YA, há YA fabulosos (especialmente no género fantástico) e é importante que essa leitura juvenil (é engraçado como quem lê YA nunca diz que está a ler literatura juvenil, não é?) seja de qualidade e capaz de conquistar leitores.
    Eu li muitos clássicos por pura falta de outras opções. E isso foi um privilégio. 
    Agora outra coisa: como assim não havia Dickens em Português? Eu tenho, desse tempo o Oliver Twist (e não tenho a certeza de não ter tb o David Copperfield). lembro-me que foi no verão dos meus 1o anos que o meu tio mo deu. E tb tenho uma versão mais antiga dos Contos de Natal, essa do circulo dos leitores.
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    Bárbara Ferreira 27.04.2020

    Sim, eu concordo que ela comunica bem. E precisamente por isso acho este discurso tão perigoso, e quase um tiro no pé. É preocupante que essa seja a postura de alguém que procura (e consegue) influenciar outros a ler. Porque é precisamente essa parte, de "o que é importante é que se continue a evoluir", que ela acaba por combater com esse discurso. Ela dá um ar muitíssimo depreciativo a livros que se mantiveram vivos por algum motivo. E que se calhar não fazia mal ler, nem que seja para se dizer que não se gosta.


    "YA" soa menos infantil que "juvenil". E digo eu isto, que adoro um bom livro infantil ou juvenil. Um livro quando é bom, é bom independentemente de se ter 25 ou 50 anos.

    Eu li muitos clássicos porque quis ler muitos clássicos. Ao mesmo tempo que lia Triângulo Jota! E Chuck Palahniuk, que li imenso até dada altura. Não julgo o que os outros lêem, acredito piamente no direito ao gosto individual. Agora, quando se está numa posição daquilo que há uns anos se chamaria "taste-maker" e agora se chama "influencer", dizer que ninguém quer ler clássicos porque são uma bodega e hoje em dia o que está a dar é a literatura juvenil e vamos lá esquecer o resto...


    Ah, mas a minha história é esta - corria o ano de 2005 ou 2006 e eu queria ler o Grandes Esperanças, e a única edição existente era uma com a Gwyneth Paltrow na capa (por conta de uma adaptação "loosely based on" do final dos anos 90), que tinha um erro de impressão daqueles que faltavam páginas. Passavas da 100 para a 40 e depois quando chegavas à 100 outra vez, passava para a 160, ou coisa que o valha :) portanto era um Dickens específico!
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