Ler por aí
 
23 de Fevereiro de 2018

A frase é um dos motes do A Biblioteca de, que vos sugeri na quarta-feira e deixou-me a pensar se realmente assim é.

A ideia é maravilhosa, confesso. Conhecer alguém pelo seu gosto literário, pela sua estante. Quem nunca achou alguém bem mais interessante porque ele ou ela estava com um bom livro nas mãos ou se desiludiu porque descobriu que esse alguém estava a ler algo que consideras um péssimo livro?

A verdade é que qualquer pessoa fica mais bonita com um livro na mão. Eu pelo menos acho que sim. Há dias partilhei no meu FB uma frase qualquer que dizia: I'm suspicious of people who don't like books. A verdade é que conheço imensas boas pessoas que não gostam de ler. Mas nunca conseguirei partilhar com elas tudo o que sou porque a minha paixão pela literatura é uma parte substancial do que sou.

Mas voltando à frase "diz-me o que lês e dir-me-ás quem és", até que ponto é mesmo assim? Ou melhor, eu acredito que seja assim... não acredito é que isso seja assim tão perceptível para os outros.

Primeiro há a questão de parecer bem. Não é por acaso que se diz que Ulisses é um livro que não tão lido como dizem (mas é o "livro de cabeceira" de tanta gente) ou que O deus das pequenas coisas é um dos best-sellers menos lidos. A maioria das pessoas filtra aquilo que mostra de si aos outros, procura mostrar o melhor. E também isso acontece no que aos livros diz respeito. Raramente mostramos os nosso guilty pleasures (e se mostramos, não o são realmente, pois não?).

Depois há a questão dos gostos pessoais. Não só de quem lê mas de quem julga. Eu leio fantasia. Para boa parte das pessoas sou catalogada como leitora mediocre e há quem tivesse a esperança que com a idade esta mania de gostar de dragões e mundos imaginários me passasse (para que conste, não passou, agravou-se). Para outros demonstra que precisamente o contrário. 

A fantasia estimula a minha imaginação, permite-me passar para lá dos limites do real, permite-me fugir para outro mundo. Leio mais fantasia quando estou triste, preocupada, com medo. Leio fantasia para que o meu cérebro se distraia dos problemas. Mas também leio fantasia porque a fantasia é tão mais do que dragões e magia. A fantasia permite que qualquer tema - qualquer tema - possa ser desenvolvido, dissecado, sem que o leitor sequer disso se aperceba. Mas quando se apercebe... oh senhores, quando nos apercebemos disso e percebemos que alguma da boa fantasia que por aí anda se aproxima muito da filosofia e da análise das perguntas que mais perturbam a humanidade, percebemos que este género é um dos mais mal-compreendidos que por aí anda. Além disso é divertido. 

Ainda há a questão do tempo: nem toda a gente tem tempo de qualidade para dedicar à literatura. Há tanta coisa na vida que nos impede de mergulhar num livro. É pena, é uma chatice, mas a verdade é que sempre ouvi dizer que o urgente impede de fazer o importante. Life sucks e não há nada a fazer.

Há inúmeras outras condicionantes para a leitura: o dinheiro, o acesso a bibliotecas, as leituras obrigatórias para o trabalho, a falta de informação (acreditem, nem toda a gente tem internet ou acesso ao goodreads  e não há marketing que lhes dê a conhecer a maioria do que por cá se publica).

Portanto: "Diz-me o que lês e dir-me-ás quem és"? hummm, mais ou menos... sim ou talvez não.

O que acham?

publicado por Patrícia às 07:00 link do post
Eu acho que avaliar uma pessoa pelos livros que lê e achar que a conhece é um pouco como achares que conheces uma pessoa porque lês aquilo que ela escreve em blogues ou redes sociais. Claro que diz alguma coisa sobre essa pessoa e podes fazer alguns juízos a oartir daí sem grande margem de erro, mas se há algo que tenho aprendido é a não julgar em demasia. 
Portanto, concordo em parte com o "Diz-me o que lês e dir-me-ás quem és". Acho que podes tirar algumas conclusões sobre a pessoa em causa, mas tendo sempre presente que se trata apenas de uma parte da pessoa.
Célia a 23 de Fevereiro de 2018 às 10:07
Olá Célia, 
(obrigada por mais este comentário)
Deixar de julgar em demasia é mesmo uma aprendizagem.
É interessante conhecer algumas das pessoas dos blogs e ver as diferenças. Há pessoas que são tão diferentes, tão mais do que aquilo que mostram. 
Patrícia a 23 de Fevereiro de 2018 às 19:30
Também acho que os livros podem ser uma boa porta de entrada para se conhecer uma pessoa, pode revelar algumas coisas sobre os seus gostos, mas não dá para conhecer a pessoa no seu todo só pelos livros. Mas pode ser um bom ponto de partida para uma boa conversa onde se pode ficar a conhecer melhor alguém.
Em relação à fantasia, tens toda a razão. Nem sabes as vezes que ouço "tás a fazer tese sobre literatura fantástica? Mas há por aí outros autores tão bons!" Como se a fantasia, como dizes, fosse um género menor, sem importância nenhuma e que só fala de mundos imaginários e trivialidades. Mas depois sorrio e penso que essas pessoas não sabem o que perdem ;)
Diana M. a 25 de Fevereiro de 2018 às 12:50
Não sabem mesmo. Lembro-me sempre da frase que ouvi ao Brandon Sanderson, num dos seus vídeos, "fantasia é aquele género que permite que se fale de amor, filosofia, política... e com dragões". :) 
Patrícia a 11 de Março de 2018 às 17:56
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