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Ler por aí

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06
Nov13

Desumanização, de Valter Hugo Mãe

Patrícia
 
Um caso de amor, de paixão à primeira página foi o que meaconteceu com o “A máquina de fazer espanhóis”.
Um caso de ódio, de repulsa aconteceu-me com o “O remorso deBaltazar Serapião”.
Agora, depois de ler o “desumanização” tenho que concluir,com grande pena minha, que não me apetece ler mais Valter Hugo Mãe. E tenhopena, sinceramente, porque acho que este fulano escreve como poucos, que temuma enorme capacidade de me fazer sentir e não apenas ler. Mas a negritude dosseus livros e dos seus personagens é tal que o que sinto é apenas tristeza,repulsa, desesperança. E sinceramente não gosto de me sentir assim depois deler um livro. Há muitos leitores para este tipo de livro e de autor. Eu não souum deles.
Não sou de livros com finais felizes. Não sou fã de romances“românticos”. Gosto de livros que me façam pensar. Gosto de livros quetranscendam a história. Mas não gosto de livros sem esperança, sem um pingo dehumanidade. Ou melhor, com a pior parte da humanidade.
Este é um autor de amores e ódios. É considerado um dosmelhores da sua geração, tem uma legião de fãs que adoram tudo o que escreve etem quem o considere sobrevalorizado e que deteste, à partida, tudo o queescreve.
Eu não sou um nem outro. Sou leitora de escritores e quandogosto de um dos seus livros tenho que ler todos os outros. Ainda bem quecomecei por ler o “A máquina de fazer espanhóis”. Fez-me conhecer vhm e o seutalento. Mas apesar de ter alguma curiosidade por ler o “O filho de mil homens”,acho que não tenho coragem, não consigo ler, outra vez, algo não angustiantecomo este livro.
Este “Desumanização” conta-nos a história de Halla, umamenina de 11 anos que perde a irmã gémea. Halla sente-se metade do que era aomesmo tempo que se sente com a obrigação de carregar duas almas. A solidão etristeza desta menina é angustiante (aliás todo o livro o é). A morte de umairmã gémea deve ser terrível em qualquer situação, mas quando à ausência departe do nosso ser se junta o abandono familiar numa terra inóspita o resultadoé algo assustadoramente negro.
Os pais de Halla não sabem lidar com a situação. O pairefugia-se nas palavras e é o menos mau dos dois, ainda consegue ter algumcarinho para dar à “menos morta” das filhas. A mãe é extremamente cruel para estafilha que lhe resta, não a conseguindo perdoar por ter sobrevivido à irmã. Ascenas do livro protagonizadas por mãe e filha são de uma crueza e brutalidadeatroz.
Numa aldeia perdida nos confins da Islândia, numa terra desolidão e luta inglória contra os elementos da natureza, Valter Hugo Mãeconta-nos uma história de solidão, de morte, de perda. O único toque de amordado pelo autor é macabro. Sempre que há uma pequena luz na história, esta éconspurcada por alguma coisa.
Há imensas coisas que me perturbaram neste livro mas de quenão vou falar pois iria desvendar demasiado.
Deixo no entanto algumas notas positivas. Gosto muito daescrita do autor e acho que só isso me fez acabar de ler este livro (isso e aesperança que fosse haver uma luzinha lá para o fim). Os jogos de palavras, apoesia em tantas frases. O pai de Halla e a sua forma de ver tudo através depalavras, poemas foram a única coisa que me encantou neste livro. Ah, e o livro físico é extremamente bonito. As imagens são fantásticas.

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