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Ler por aí

Ler por aí

22
Fev22

da leitura por aí

Patrícia

Já muito se falou sobre o resultado de um inquérito às práticas culturais dos Portugueses, feito pelo Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, com financiamento da Fundação Calouste Gulbenkian, mas eu ainda não tinha tido tempo de vir aqui deixar a minha opinião.

Os números entristecem-me mas muitos não surpreendem: lê-se pouco e a maioria lê em contexto escolar (leia-se "obrigatório"). 

Não surpreende. Todos o sabemos. Quantos de nós teve que procurar entre desconhecidos para encontrar gente com hábitos de leitura compatíveis? Diz a estatística que a maioria de nós tem leitores na família - antes de dizerem que não, procurem na memória, pensem em família alargada, em quem foi para vocês um exemplo: a maioria deve encontrar leitores (mesmo que não tão assíduos como vocês) por lá. 

Eu tenho bastantes exemplos. A principal responsável pelo meu amor aos livros foi a minha mãe (e este argumento sempre resultou muito bem quando queria comprar mais um livros) mas tenho também que agradecer a algumas primas mais velhas que me davam acesso às suas estantes. Ainda hoje os livros são um ponto que nos une.

No geral reconheci naquele estudo a nossa realidade. 61% de não-leitores, 10% lêem ebooks, audiobooks sem expressão e apenas 8% lê mais de 6 livros ao ano.

O que me chocou deveras foram outros números.

71% nunca foi com os pais a uma livraria? 75% a uma feira do livro? 77% a uma biblioteca?

Mesmo considerando que o estudo abrangeu apenas pessoas com mais de 15 anos e que a maioria já não será jovem estes números chocam. Não acredito que sejam um reflexo da infância de hoje mas ainda assim não deixo de me perguntar quantos miúdos vão crescer sem saber o que é uma livraria (e vão achar que os únicos livros que existem são aqueles que se pode comprar no supermercado), sem ir a uma feira do livros (cada vez há menos, e o país não é Lisboa) ou aqueles que nunca terão a hipótese de ir a uma biblioteca (uma vez mais, o país não é  Lisboa nem toda gente vive em cidades). 

Pensar que há pessoas a quem nunca contaram uma história faz o meu coração saltar um batimento. Nos mais velhos ainda há a possibilidade de terem tido pais que não sabem ler mas ainda assim 54% é um número demasiado elevado.

Como mudar isto?

A literacia, a cultura, a educação são as bases de qualquer sociedade. A leitura é uma das armas para combater a pobreza. A educação é a única forma de mudar o mundo de forma duradoura. 

Mas os livros não são valorizados. Ler não é sexy. Ler não é másculo. Ler não é uma vantagem competitiva reconhecida (apenas reconhecida, porque quem achar que não é uma vantagem competitiva está absolutamente errado). Ler só é visto como uma qualidade por outros leitores.  Ler muito ainda é ter "pouco que fazer" ou "muito tempo livre". Ler ainda é a primeira coisa da qual se abdica. 

Os livros não estão nas televisões, nas novelas, nos jornais.

A publicidade aos livros é feita por carolice ou amor. A publicidade aos livros nem é bem publicidade, é paga em géneros e feita por gente sem formação ou qualificação na área. E é considerada suficiente. Vá, isso e "comprar montras" nas livrarias. É preciso ganhar um prémio (e não é qualquer prémio) para ter honras de notícia - geralmente uma cinta nos livros é suficiente.

Os livros são, cada vez mais, bens descartáveis - só a novidade é importante.

As livrarias estão a morrer. Podemos dizer que não faz mal, conseguimos comprar qualquer livro online ou ir a uma fnac ou hipermercado e temos lá livros. Mas  Fnac não é bem uma livraria, apesar de ser maravilhosa, e a escolha nos hipermercados é rísivel.A Bertrand ainda é uma livraria e tem das melhores livrarias do país - não fosse a brincadeira das montras compradas e podia ser ainda melhor.

Mas há cada vez menos livrarias de rua. Livrarias criadas por amor aos livros. Menos livrarias, menos alfarrabistas, menos originalidade e personalidade neste negócio que é estranho porque não valoriza os produtores e a matéria prima (sinceramente, pela forma como às vezes são tratados, parece que os escritores são dispensáveis neste processo todo) e, ao mesmo tempo, parece ter-se acomodado aos nicho de mercado - não se vê uma tentativa clara de ganhar novos clientes.

As bibliotecas, por outro lado, são o motor de muitas iniciativas. Quem lá trabalha e quem as frequenta, tantas vezes num esforço voluntário e por amor aos livros, tem feito um trabalho maravilhoso de aproximação das pessoas aos livros. Quantos grupos de leitores não têm sido desenvolvidos através ou com a ajuda de bibliotecas? Quantas iniciativas são dinamizadas pelas bibliotecas? Quantas bibliotecas têm nascido?

Lembro-me das bibliotecas estarem moribundas, esquecidas e abandonadas por esse país fora. E fiquei feliz por vê-las renascer. E isso dá-me esperança.

 

 

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