Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Ler por aí

Ler por aí

06
Mar24

da abstenção

Patrícia

Hoje não vos venho falar de livros - ainda ando a ler, em doses homeopáticas (porque a vida teima em acontecer) o Anna Karénina - mas de eleições. Numa das eleições onde, parece-me, se vai discutir um governo voto a voto e se fala cada vez mais de voto útil, do método de Hondt e de círculos de compensação (sou absolutamente a favor, já agora) é necessário falar também de um tipo muito específico de abstenção.

Deixem-me recuar quase 40 anos e voltar à primeira vez em que entrei numa cabine de voto. Teria os meus 7/8 anos quando acompanhei o meu pai, doente de parkinson, no seu voto. Sabia eu e sabia toda a gente qual era o partido em que queria votar, era o partido em que votava deste o 25 de Abril, aquele que, não sendo militante, apoiava. Na altura eram distribuídos na campanha uns papéis que simulavam o boletim de voto, lembro-me de usarmos esses para que ele treinasse o voto, identificasse o símbolo do partido e votasse. A minha mãe, fervorosa apoiante da democracia, não quis, de forma nenhuma interferir e mandou-me com ele, para o apoiar fisicamente e dar uma ajuda. Ainda hoje me lembro onde a cruz foi feita e não foi, de todo, no partido que o meu pai apoiava. Ele ficou a achar que sim, que tinha sido, não me lembro se disse a alguém ou não, mas lembro-me perfeitamente de pensar que não era aquilo que ele queria. Felizmente o voto foi absolutamente desperdiçado (agradeçamos ao método Hondt por isso) portanto ficou tudo como devia ter ficado. Ao longo da vida vi gente a ir votar acompanhada, com o respectivo atestado médico que garantia a necessidade de ajuda mas na minha família sempre optámos por não o fazer. E falo no plural porque se antes a decisão foi da minha mãe, hoje é minha. Estas vão ser as primeiras eleições em que a minha mãe não vai votar. Estas são as primeiras em que eu sei que a sua capacidade de votar em consciência já não existe - e eu não faço a mais pequena ideia qual seria a sua escolha, já que nunca foi militante de nenhum partido, nem me considero com direito de por ela escolher.

Vai, por isso, contar para a abstenção. Mas isso não é justo, revolta-me o estômago e revoltar-lhe-ia o dela se disso tivesse consciência. Vai contar para abstenção exactamente como alguém que não se interessa pelos seus deveres cívicos, como alguém que não compreende, nem se interessa, pela luta que foi para ela votar e votar em liberdade.

Lá em casa sempre houve liberdade de voto. Posso dizer-vos que nem sempre soube em quem ela votou. Na verdade queria tanto não me influenciar que, quando mo dizia, só o fazia depois e não antes, do dia das eleições. Nunca me criticou por nenhuma das minhas escolhas e sempre me disse que o voto era secreto, uma decisão minha e que devia ser tomada em consciência porque seria eu quem sofreria as consequências dessa decisão. Incutiu-me uma fervorosa crença na democracia e mostrou-me que votar não era apenas um direito mas um dever. 

E este domingo vai contar para a abstenção. Não é justo.

16 comentários

Comentar post

Pesquisar

email

ler.por.ai@sapo.pt

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

    1. 2024
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2023
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2018
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2017
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2016
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2015
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2014
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2013
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2012
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2011
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2010
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2009
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2008
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2007
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2006
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D

Mais sobre mim

Em destaque no SAPO Blogs
pub