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Ler por aí

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10
Jan23

Carrinhos de linhas

Patrícia

Vinha a ouvir a Patrícia Reis, no podcast Verdes Anos, e quando ela falou da quantidade de (caixas de) botões existentes (ide ouvir o podcast) fui assolada por uma quantidade imensa de memórias, não de botões, mas de carrinhos de linhas. O fascínio que eu, em miúda, tinha pelas gavetas dos carrinhos de linhas, todos arrumados por cores, uma caixa de todos os tons de amarelo, outra de azuis, verde, vermelho, roxo. A imensidão de tonalidades, a beleza daquelas gavetas pequeninas, mesmo do tamanho certo. Naquela estante de linhas tudo encaixava como devia, a beleza da transição de cores sempre me fascinou. Escrevo isto e revejo a mini estante ali no início do balcão da direita da mercearia do meu pai. No balcão da esquerda, também no início, estava outra maravilha da infância: uma pilha de 5 frascos de vidro cheios de rebuçados de várias cores e sabores. Rebuçados que se davam como troco, quando o cliente pedia ou qdo faltavam uns tostões para a conta certa. Lá atrás, ao fundo, o paraíso dos gatos na forma de uma estante vertical de cordas. Rolos de corda de todas as espessuras, desde os cordéis às cordas de grossura inacreditável. E logo ao lado, os tecidos, que me fascinavam, especialmente pela forma como se cortavam: puxar um fio para que o tecido sentisse uma falha no sítio certo, um mini corte de tesoura e um puxão forte e certeiro que rasgava o tecido em dois de forma perfeita. E aquela prateleira dos cadernos (amarelos, pretos ou sebentas, de duas linhas ou de música, linhas, quadrículas ou a magia de uma página em branco), das canetas bic, das borrachas com desenhos de cartas de jogar ou de apagar lápis e caneta, das folhas de 25 linhas e de outros materiais escolares que não me ficaram na memória. As caixas de pregos e parafusos que se enrolavam em papel pardo, de uma forma que não consigo explicar mas que ainda consigo reproduzir (mas sem a magia da rapidez). Os gatos aos pés dele, debaixo do balcão. A porta que se abria a qualquer hora do dia ou da noite, sem horários, porque alguém, da aldeia ou arredores, precisava de alguma coisa. Ontem foi o aniversário do nascimento do meu pai. O homem que conheci através da imaginação porque a vida não é justa.

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