Cadente, de Mário Rufino
Há livros que não são apenas livros, que nos entram debaixo da pele e magoam. Era fácil saber que este seria um desses e, como tal, deixei-o para depois apesar de ter bastante curiosidade em relação o primeiro livro do Rufino. Adivinharão certamente o porquê, a proximidade do tema faz-me sentir este livro como pessoal. Por outro lado viver há 9 anos com a doença de Alzheimer (não eu, mas alguém tão próximo que me faz sentir e viver a doença como também minha) torna-me numa espécie de especialista na coisa e poderia facilmente transformar-me na maior crítica deste livro. E sabe deus (e a malta da Roda dos Livros) o quão má eu consigo ser quando um livro me perde por questões de verosimilhança.
Mas estou a engonhar, não é? Bem, mais um aviso. Há livros que não consigo comentar de forma não emotiva. Há livros em que a forma e a linguagem pouco me diz porque todos os meus sentidos estão voltados para o conteúdo. Este é um desses livros. E não é para todos. Não é um manual de instruções. Quem achar que fica a conhecer esta doença por ler este livro está errado. Mas gostei bastante de o ler.
O livro começa pelo fim. Bem, na verdade nem spoiler é porque não há, ainda, outro fim para quem tem Alzheimer que não a morte solitária de quem se perdeu de si e dos outros. Depois vamos conhecendo aos poucos esta mulher, as suas inconsistências, o feitio duro de quem viveu uma vida difícil e teve que criar uma carapaça para sobreviver. Interessante o autor ter-lhe dado opções que não nos são simpáticas, que não ajudam à empatia, nem a reconhecermo-nos nela. Tive, no entanto pena de não a ter conhecido melhor, é tão cheia de aparentes incongruências. Mas esta não é a história dela, ela aqui é apenas a doença, tudo o resto desapareceu nesse vórtex que apaga tudo.
Tal como tantas avós que conheci, acolheu o neto sem hesitações, criou-o como seu, amou-o com a ferocidade das mães. E ele, ignorou-o tanto quanto pôde, um filho, um neto, sente a ânsia de voar do ninho, de alcançar a tão almejada liberdade. A liberdade a que tem direito, que sente estar ao seu alcance. E é mesmo nessa altura, nem antes nem depois, que uma conversa fora de tom, um comportamento esquisito começa a fazer perceber que algo está mal e nem sequer é de agora.
E é aqui que o livro ganha vida. Na forma certeira como nos conta, na primeira pessoa, as lutas internas de quem se vê pai da avó, de quem é atirado à bruta para a vida adulta, de quem se revolta contra isso. De quem comete erros atrás de erros, até acertar. De quem descobre o amor de uma forma que não sabia que existia.
No fim, este não é um livro sobre Alzheimer. Aliás, esta puta desta doença não merece livro nenhum. Este é um livro sobre pessoas, sobre o que é crescer de repente, sobre amor, sobre decisões difíceis. Sobre erros. É um livro sobre aquele buraco sem fundo à vista que se abre aos nossos pés quando a vida se decide a mostrar que sabe bem ser cabra.
