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Ler por aí

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03
Nov16

As viúvas de Dom Rufia, de Carlos Campaniço

Patrícia

As viúvas de dom Rufia.jpgQue livro surpreendente, este.

Carlos Campaniço leva-nos, mais uma vez, numa viagem ao Alentejo, na companhia de personagens inesquecíveis. 

Um homem, Firmino Pote, mais conhecido por Dom Rufia, é encontrado morto. Ora, o nosso Dom Morto foi criado por uns tios (Maria Teresinha e Homero Dente D'Alho) que por muito bem lhe quererem sempre lhe desculparam os disparates (aqueles que lhe deram, por exemplo, a alcunha de Dom Rufia).

Tudo se complica quando, ao velório, chega uma mulher que se diz viúva do morto. E mais, essa mulher, desconhecida na aldeia de Dom Rufia,  diz ter recebido a comunicação da morte através duma carta escrita por Homero Dente D'Alho dias antes do assassinato. 

Ora, está dado o mote para o livro. O tio, passa a velório no xelindró (exigem-lhe, obviamente, algumas explicações, chega a ser suspeito, afinal anunciou a morte antes dela acontecer) enquanto a tia vela o morto na companhia das sucessivas viúvas que vão aparecendo... e de Armindinho Costureirinha.

Afinal, Quem matou Dom Rufia? Porquê? 

Quem foi este homem com "viúvas" (sim, no plural) que não arredam pé do velório mais divertido da história da literatura mesmo depois de se saberam enganadas? 

E não me posso esquecer de Juan de los Fenómenos, um chileno que percorre o alentejo enquanto documenta fenómenos vários, desde um menino cujos olhos mudam de cor quando muda a estação do ano a um homem com o dom da ubiquidade. 

Divertido do princípio ao fim, este é um livro que nos deixa de bem com a vida. E ainda nos leva ao início do sec. XX, mostrando-nos pormenores deliciosos da vida rural alentejana. E, como a rir é possível falar de coisas sérias, Carlos Campaniço explora uma série de temas ao longo destas páginas. Seja a religião, a politica, os costumes das gentes ou simplesmente a capacidade de um homem se reinventar só pela força de vontade e de se perder pela bondade que não consegue evitar, este é, também, um livro de grandes temas.

E para mim, um bónus. Conheço boa parte daquelas terras, daquelas aldeias e vilas onde tudo aconteceu. Garanto-vos que me lembrarei sempre de Dom Rufia quando por lá passar.

Se tiverem oportunidade não deixem passar este livro. Este autor merece ser lido (Os Demónios de Alvaro Cobra é maravilhoso)