A Montanha, de José Luis Peixoto

"Os doentes com cancro ainda são quem eram antes de terem cancro"
Em A montanha, um romance composto por fragmentos, José Luís Peixoto conta-nos a história de Alice, Filipe, Jorge, Fátima, Daniel e João, pacientes do IPO do Porto, e do Escritor, um viajante que está a escrever um, este, livro.
Não deve ser fácil decidir escrever sobre o cancro, sobre pessoas que têm cancro, sobre a forma como lidam com a notícia, com os tratamentos, as dores, a perspetiva da dor — sua e dos outros —, da morte, do fim, da esperança e da vida. Mas José Luís Peixoto fá-lo na perfeição. Fá-lo porque dá voz a seis pessoas muito diferentes, com cancros distintos, cujo único ponto em comum é serem pacientes do mesmo hospital. Seis fragmentos. Fá-lo porque mistura realidade e esperança com mestria. Fá-lo porque o faz com um respeito e uma humanidade incríveis, apesar de recorrer a uma abordagem literária. Ou talvez por isso. E porque mistura muito de si nestas páginas.
"Só através da nossa vida somos capazes de conceber a vida dos outros"
Disse-vos que o autor nos conta a história de seis pacientes, mas não é bem verdade. Na realidade, são sete ou oito os protagonistas deste livro, já que o pai e ele próprio são uma presença constante.
Acho que não preciso dizer que gostei muito deste livro. É duro, claro, mas é um livro que transpira vida. Não há ninguém que não conheça uma, ou várias, pessoas com cancro, e eu tive a minha dose de perdas. A que mais me marcou foi a I., uma das minhas grandes amigas. Fui uma das pessoas que a acompanhou no final, no IPO de Lisboa. A I. morreu há precisamente 20 anos e 2 dias. Esteve sempre na minha cabeça enquanto li este livro.
"Daqui a pouco chegarão os amigos, um a um, e levarão os cães pela trela, um a um. Os cães avançarão bem-comportados para a porta da rua, confiando em quem os leva, confiando em quem os deixa ir, sem imaginarem que estarão a deixar para sempre o dono a quem são fiéis. Só depois disso chegará ao fim. Jorge fará uma última festa a cada um deles, dirá uma última vez o nome de cada um, sentirá pela última vez o seu olhar".
