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Ler por aí

Ler por aí

19
Jun18

A letra e o espírito dos livros

Patrícia

Nunca tal me tinha acontecido mas a verdade é que, pelo primeira vez, rejeitei completamente uma tradução. Na verdade até me parece que a tradução - no que à letra diz respeito - está bastante boa. O problema para mim foi o espírito.

Tenho que dizer deste já que percebo zero de tradução e que toda a minha percepção é a de "leitor".

Também tenho que dizer que já li muita coisa traduzida pelo tradutor (Jorge Candeias) e que o acho um tradutor fabuloso. O trabalho que fez com, por exemplo, as crónicas de gelo e fogo foi muito, muito bom. 

Na verdade, o trabalho que fez com o Império Final e o Poço da Ascenção foi igualmente bom (ou pelo menos assim o senti enquanto li compulsivamente estes dois livros)

E para ser completamente sincera, se eu não estivesse há meses a ler o BS no original (e a ouvir os livros na fabulosa voz do Michael Kramer), provavelmente este sentimento de desilusão não tinha acontecido.

A primeira vez que li Misborn (A saga Nascido nas Brumas), fi-lo em Português e apaixonei-me. Pelos personagens, pela história, pelo autor. 

Como a língua Inglesa não é uma barreira intransponível, e com a brincadeira da divisão do terceiro volume (o Herói das Eras) em 2 volumes, rapidamente comecei a ler BS no original. Li milhares de páginas escritas pelo BS - The Way of Kings, Words of radiance, Oathbringer, Warbreaker, Edgedancer, Elantris. Alguns destes livros li 2 vezes, sendo que a segunda também "ouvi". Antes de começar a ler Mistborn Era 2 (na verdade já li o primeiro volume desta  segunda saga) resolvi ouvir e reler Misborn Era 1.

Uma releitura é sempre algo perigoso. Uma releitura pode revelar pontos fortes ou pode destruir um livro. No que à fantasia diz respeito uma releitura - necessariamente sem o factor surpresa do world building - deixa que o leitor se aperceba de todas as fragilidades da narrativa.

Os livros do BS têm sobrevivido bastante bem às releituras apesar destas terem revelado alguns pontos menos perfeitos. 

BS não escreve de forma bonita. A verdade é essa. Apesar de ter algumas passagens/frases fabulosas nos seus livros (expoente máximo para os capítulos do Wit com a Shallan no Oathbringer) BS é um escritor eficaz, palavroso (e de que maneira) e que consegue agarrar o leitor pela história, pela magia do que escreve e não pela beleza da sua escrita. 

Ainda assim, Sanderson não escreve histórias para crianças. Mesmo que os seus protagonistas sejam novos em idade, os seus livros não são livros típicos do género YA (talvez posssamos, com algum esforço, encaixar neste género o Warbreaker e o Edgedancer). A parte da fantasia é fabulosa mas os temas principais dos seus livros são a política, a religião, as relações humanas, a crítica social que está ali bem presente. 

Quando peguei na versão portuguesa do Hero of Ages fiquei logo um surpreendida com um resumo, bastante básico e completamente desnecessário, dos livros anteriores. Ora, quem não leu os dois primeiros volumes não se safa com aquele resumo e quem não leu não precisa deles (até porque o BS se encarrega de nos "relembrar" de todas as partes importantes - ou de todas as que ele BS quer que nos recordemos ao longo dos primeiros capítulos do livro). 

Depois de muito revirar os olhos, lá comecei a (re)ler o livro e fiquei com a sensação de que estava a ler um livro completamente diferente do que estava a ouvir. As palavras estavam lá. Mas, de alguma forma, o livro pareceu-me muito mais infantil que na versão original. O que eu, enquanto leitora sentia naquele livro não era o mesmo que sentia no original (mesmo na segunda leitura do original). 

Não sei se isto me acontece pela língua original ser a minha segunda língua e necessariamente ter outro género de capacidade para ler em português ou se estou tão embrenhada na escrita do Sanderson que não a reconheço numa tradução. Mas parecia-me estar a ler um livro completamente diferente. 

 

 

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