A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge

Que livro!
Como é que nunca tinha lido este livro, se até o tinha em casa, na estante à minha espera? Eu, que até gosto bastante dos livros da Lídia Jorge, nunca tinha lido a sua obra-prima (ou o seu primeiro sucesso). Que falha. Mas uma das coisas maravilhosas da leitura é que nunca é tarde para ler um livro. O livro que li é uma 2.ª edição, de 1988, que foi oferecida à minha mãe por uma amiga que, por acaso, foi uma das minhas professoras da escola primária. Mas as coincidências engraçadas não se ficaram pela dedicatória, mas também por um papel que ficou esquecido (?) dentro do livro: a lista de coisas que o colégio onde fui interna pedia para aquele ano letivo. Tantas memórias.
A primeira parte, intitulada "Os gafanhotos", conta-nos uma história interessante q.b., que acaba por ser completamente desconstruída por Eva que, 20 anos depois, repõe a verdade dos factos. Afinal, ela é também Evita, uma das personagens principais. E é através dos olhos desta mulher que mergulhamos no período da guerra colonial, com ela refletimos sobre o tempo da história, a verdade da história, o papel da mulher numa guerra e num tempo de homens, a crueldade, o papel do colonizador e do colonizado.
A forma como toda a história é contada, através de fragmentos, triângulos amorosos, pequenos acontecimentos do dia a dia no Stella Maris, o hotel onde ficavam as mulheres dos combatentes enquanto estes iam para o mato, é rica em imagens e poderosa nas palavras.
Fala-se pouco da guerra colonial, do que fez às nossas pessoas, aos homens que lá chegaram meninos e que de lá saíram homens cruéis ou homens quebrados. Pouco se fala das mulheres que os acompanharam. Pouco se fala de quem fomos, do que fomos nessa altura, e Lídia fá-lo de uma forma magistral. A literatura serve para isto: preservar memórias, obrigar à reflexão.
