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Ler por aí

Ler por aí

19
Ago17

A Avó e Neve Russa, de João Reis

Patrícia

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Acabei de ler este livro de coração partido.

O autor propõe-nos entrar na mente de um miúdo de 10 anos e ver o mundo pelos seus olhos. Desconstruir o mundo, simplificar o complicado e sonhar com o impossível. Está nestas páginas a inocência, a coragem e a frieza que só é possível a quem não tem preconceitos e para quem o mundo tem ao mesmo tempo o tamanho do que podemos ver pelos nossos próprios olhos e o tamanho do universo. Analisar cada um dos temas abordados dessa perspectiva é o desafio. 

O escritor conquistou-me nas primeiras páginas com as brincadeiras lexicais, as confusões fruto da inocência/ignorância de um gaiato que, apesar de ser super inteligente, tem 10 anos. Como ponto positivo, destaco que o João Reis soube dosear este tom ligeiro e apesar de conseguir manter durante todo o livro um tom absolutamente credível para uma criança, também foi capaz de nos mostrar a sua evolução e abordar inúmeros assuntos, alguns que nem sequer fazem grande sentido para o miúdo (aqui temos que fazer uma pausa e pensar em como aqueles pequenos seres absorvem o que vêem, ouvem e lhes transmitimos) mas fazem para nós, leitores adultos.

Apesar de ser um livro relativamente pequeno, somos convidados a fazer uma viagem na história e reflectir sobre temas tão distintos como religião, economia ou política.

Foram as relações entre as personagens que me fizeram mergulhar de alma e coração nesta história. O amor incondicional deste miúdo pela avó (que foi atingida pelos ares atómicos de Chernobyl) ou a amizade com Matt, um sem-abrigo, fizeram com rapidamente criasse uma ligação aos personagens. A importância da memória; a forma como o presente, o que somos, é também parte da memória dos outros ou a tristeza que é quando a memória nos atraiçoa; a coragem de acreditar; a importância de questionar, reflectir, desconstruir para entender... tudo isto está nestas páginas.

Este é um livro que vou levar comigo durante muito tempo. É um livro triste a que o escritor conseguiu imprimir uma leveza surpreendente. 

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