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Ler por aí

Ler por aí

10
Abr20

O pintor de almas, de Ildefonso Falcones

Patrícia

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Do escritor de A Catedral do Mar (podem ler duas opiniões deste livro, a minha e a da Catarina) achei que seria o livro ideial para ler neste isolamento social que vivemos por estes dias. 

Um livro contado a duas vozes, a de Dalmau e a de Emma. Infelizmente nenhum dos dois me convenceu. Aliás, o livro não me convenceu. Lê-se razoavelmente bem mas às tantas torna-se um bocado chato, nada de novo acontece, os personagens parecem não crescer, não aprendem com o erros e conseguem ser muito burrinhos o que, num livro de muitas páginas, aborrece. Mas lê-se bem, o autor escreve bem, aprende-se imenso sobre Barcelona do início do séc XX e para quem não se importa de ter uma história cheia de clichés e de tragédias, tem aqui um bom livro. Para quem espera mais que isso... bem, talvez não valha a pena.

Não me vou alongar muito na opinião e pode haver alguns spoiler mas deixem-me desabafar um bocadinho.

Qualquer livro que retrate uma época que não a nossa tem que ser lido à luz da cultura e dos costumes dessa época. Eu eu não sou, de todo, perita na sociedade de Barcelona do início do sec XX mas porque raio Emma, tão liberal nalgumas coisas e defensora dos pobres e oprimidos consegue ser tão obtusa noutras coisas? A luta contra a igreja e todas as suas restrições morais e ao mesmo tempo a total submissão ao patriarcado no partido - aliás a todos os homens que com ela se cruzam, e todos os homens que com ela se cruzam são umas bestas totais com excepção de dois. Mas todos ficam loucos com ela, com as formas do corpo dela, com a beleza, etc, etc... uma bela oportunidade desperdiçada. Apenas Josefa (a querida, doce e sofredora Josefa, tinha algum género de respeito por si própria).

E porque raio Marvilhas não foi melhor aproveitada? A personagem mais interessante... completamente ignorada e que apenas serviu para cumprir o propósito de fazer o casal maravilha ainda mais miserável. Um desperdício. 

Tenho mesmo muita pena de não me ter conseguido apaixonar por esta história mas, às tantas, só queria acabá-lo para passar para outro.

19
Mar20

Ficções, de Jorge Luis Borges

Patrícia

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Era uma vergonha ainda não ter lido Borges. Logo eu, que tanto gosto de fantasia. A verdade é que este autor é daqueles que sempre figuraram na lista de "autores que preciso de ler" mas que "tenho algum receio de não perceber/gostar" e que, por isso, vão ficando para mais tarde. Mas desta vez (e porque foi o livro escolhido no grupo de leitura da biblioteca de Alvalade) li e gostei.

Não vos vou dizer que foi fácil. Eu não sou, já aqui o disse diversas vezes, leitora de contos. Gosto de passar tempo com as personagens, gosto de mergulhar num bom romance e ali "viver" durante algum tempo.

Nos contos é, geralmente, muito difícil estabelecer empatia com as personagens, principalmente porque ficamos sem elas muito depressa.  Mas este não é um livro como os outros. Não tem nada de banal ou fácil ou rápido. A escrita de Borges não é (e para usar uma expressão tão na moda e que eu detesto) nada fluída. Cada conto precisa de tempo, de calma. Porque cada conto tem um mundo dentro e dava, com facilidade, um romance (de muitas páginas).

O primeiro conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius" onde um grupo de pessoas se une para imaginar um mundo onde a realidade nasce da ideia e onde "não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obras de um só autor, que é intemporal e é anónimo". Depois, em Pierre Menard, autor do Quixote, temos um escritor que, séculos depois, escreve o Dom Quixote, palavra por palavra. E este Quixote, o de Menard é, obviamente, infinitamente melhor que o outro Quixote, o de Cervantes. No As ruínas circulares, conhecemos um homem que quer sonhar um homem e em A lotaria na babilónia reflectimos sobre a arbitrariedade. O conto que dá nome à primeira parte deste livro, O jardim dos caminhos que se bifurcam é um genial labirinto. Funes, o memorioso, é um monumento à linguagem e à palavra. Mas um dos meus favoritos é, como não podia deixar de ser, o A biblioteca de Babel, com todos os livros que já se escreveram e todos os livros que um dia se irão escrever e todos os livros que podiam ser escritos. Que ideia maravilhosa e ao mesmo tempo, assustadora.

Irei certamente continuar a ler Borges e irei certamente regressar a este contos que pedem para ser relidos.

 

14
Mar20

Uma rapariga endiabrada, de Nick Hornby

Patrícia

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Às vezes apetece ler um livro levezinho, passar umas horas apenas com o prazer de ler uma história bonita. 
Talvez este livro não fosse uma das minhas escolhas mas foi-me oferecido e peguei-lhe num dia em que precisava precisamente de não pensar em nada, descontrair um bocadinho e passar umas horas a ler. E foi exactamente isso que encontrei nestas páginas: algumas horas de leitura descontraída.
 
Sophie ambiciona ser mais, sair da sua pequena cidade e arriscar o mundo. Ela quer uma carreira na comédia televisiva. E quando se cruza com Tony, Bill, Dennis e Clive sente-se em casa e nasce a série Bárbara (e Jim). Acompanhamos este grupo, as suas vitórias e derrotas ao longo de 3 temporadas da série. Há alguns temas interessantes que são levemente, muito levemente, abordados neste livro. A homossexualidade e a homofobia, racismo, as dinâmicas familiares ou sociais. Infelizmente o desenvolvimento destes temas é quase nulo. Há aquela altura em que pensamos ter percebido o caminho que o escritor escolheu... para imediatamente percebermos que, afinal, não era bem isso.
 
Portanto, se o que procuram é algo leve e divertido, este é o livro certo.
19
Fev20

A Morte do Papa, de Nuno Nepomuceno

Patrícia

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Um capítulo, no início, conquistou-me logo e pôs a fasquia bem alta para este livro. É o da discussão de Mateus I, em jovem, no seminário. Não muito habitual nos livros policiais, dá um mote interessante e levanta várias questões, nas quais vale a pena reflectir, principalmente numa altura em que a igreja católica passa por uma crise da qual será muito difícil recuperar.

O Nuno Nepomuceno dá-nos, através da história de Mateus I, a sua explicação para a surpreendente morte de João Paulo I, no 33º (ou não) dia do seu papado. Ao mesmo tempo conduz-nos numa labiríntica busca pela verdade acerca do misterioso desaparecimento de uma menina, a Gabriella, através da investigação de um jornalista da rádio do Vaticano. Ao mesmo tempo, Diana, envolve Afonso em actividades ilícitas...

Gostei bastante deste novo livro do Nuno que li num instante e que, apesar de ter sido lido há já algumas semanas, continua bem presente. 

Uma das coisas que tenho que ressalvar é que, apesar desta história ser a quarta da série "Afonso Catalão", o Nuno não faz dele o seu protagonista (já não o fez no livro anterior), nem cai no (para mim) erro de o transformar num super herói sempre pronto para "salvar o dia" ou para mais uma mulher. Sim, o Afonso continua a ser uma personagem importante, com um passado que lhe permite os conhecimentos necessários para se safar de algumas situações, mas ele não é, de todo, o protagonista deste livro. Além disso, Afonso parece ser aqui, um elemento de continuidade e de aproximação aos outros livros do escritor.  Eu, que me irrito solenemente com os protagonistas "sabichões" e "com passado em branco", gosto desta característica do Afonso Catalão, que muito contribui para dar às personagens destes livros  profundidade e vários tons. Não posso deixar de referir também a tristeza e a dor que senti nas descrições das visitas do Afonso ao Imã Yusef. (Obrigada Nuno, por teres incluído estes bocadinhos).

Depois podem descobrir alguns pormenores que o Nuno optou por deixar de fora do seu livro nos vários contos. Dois deles (O Assassino na noite e O beijo do escorpião) foram disponibilizados pelo na página web dedicada ao livro e os restantes (Dor, Ira e Raiva) foram oferecidos a que comprou o livro em pré-venda. Actualmente, os 5 contos, fazem parte da colecção "Histórias do bem e do mal" que pode ser adquirido.

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13
Jan20

Se o disseres na montanha, de James Baldwin

Patrícia

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No dia dos seus 14 anos, John, um miúdo cheio de dúvidas em relação à sua sexualidade, à noção de pecado, ao bem e ao mal, acorda para um dia de escolhas e encruzilhadas.

A mãe Elizabeth, que não tem mãos a medir para tratar da família, nem sempre se lembra do seu aniversário. O padrasto, um narcisista hipócrita pastor/pregador da igreja Pentecostal, só tem olhos para Roy, o filho legítimo, que acredita ser o filho que deus lhe prometeu. 

Ao longo do livro vamos acompanhando John, os seus sentimentos, pensamentos e medos, e vamos conhecendo motivações, passados, histórias através das vozes de Elizabeth, Gabriel e Florence.

Um livro belíssimo e de uma tristeza só, que nos fala de raça, da cor da pele, de religião, de sexualidade, de pecado e de salvação, através das histórias que culminam naquele dia, que se resumem à pessoa que é John.

Se tivesse que escolher apenas um tema, um destaque para este livro, diria que é um livro sobre como nos temos que descobrir, que nos temos que encontrar entre as camadas do que somos, do que os outros tentam que sejamos, do que os outros querem que sejamos, do que temos medo de ser, do que ambicionamos ser.

Grande, grande leitura, esta.

 

04
Jan20

Starsight, de Brandon Sanderson

Patrícia

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No primeiro dia do ano consegui ter umas horas para acabar de ouvir Starsight, o audiobook do momento.

Depois de ter ficado agradavelmente surpreendida com o primeiro volume da saga Skyward, uma saga juvenil de ficção cientifica, não resisti a ouvir este novo volume e, uma vez mais, gostei imenso.

Adoro o M-Bot. As conversas desta nave espacial com a Spin são absolutamente maravilhosas e ainda ganham pela interpretação feita pela narradora do audiobook. 

No primeiro volume reflectimos (entre outros temas) sobre a coragem e cobardia, o medo da morte e os problemas éticos da Inteligência artificial. O tema central deste segundo volume é a vida, a liberdade e a diferença.

O que significa exactamente estar vivo? É o livre arbítrio algo fundamental para se "estar vivo"? 

A diferença sempre foi um problema para a humanidade. Guerras, genocídios, "O" holocausto, sempre foram as consequências de não olharmos para os outros como iguais apesar de diferentes.  Temos muitos nomes para isso: racismo, machismo, xenofobia mas tudo se resume ao preconceito e à incapacidade de olharmos para a diferença como normal e para os outros, aqueles que são fundamentalmente diferentes de nós, como alguém com os mesmos direitos e deveres (e que merecem oportunidades similares). Neste livro, Spensa, consegue infiltrar-se na comunidade do inimigo e acaba por ter uma enorme surpresa...

Por coincidência, no dia em que comecei a escrever este texto li uma reportagem no expresso e este excerto (podem seguir o link para o texto completo) que diz exactamente aquilo que passo a vida dizer a quem não percebe porque é que eu gosto tanto de fantasia e ficção científica.

É comum dizer-se que a melhor ficção científica não se ocupa verdadeiramente do futuro mas de questões humanas e sociais do presente. Isso é seguramente verdade no caso de autores como Ursula K. Le Guin ou, entre a nova geração, China Miéville. É também verdade no caso de Fundação, que tem um lugar cimeiro indiscutível no cânone deste género literário e que aqui deixo como sugestão de leitura para 2020.