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Ler por aí

Ler por aí

24
Abr19

Filho da Mãe, de Hugo Gonçalves

Patrícia

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"Essa foi a minha identidade clandestina durante muitos anos. Se fazia novos amigos, evitava contar-lhes que ela morrera. Se as suas mães preparavam lanches ou os abraçavam, eu jamais revelava desencanto ou inveja, porque a ideia de ser solitário era o meu selo de singularidade"

 

 

Foi em Setembro de 91 que entrei para uma nova escola e que me esforcei muito para não ser "a miúda sem pai". Lembro-me do choque nos olhos de um dos meus melhores amigos quando, anos mais tarde, lhe disse - de forma bruta e aparentemente displicente - que o meu pai tinha morrido há anos.

Talvez não seja justo começar uma opinião sobre um livro a falar de mim, a escrever na primeira pessoa do singular, mas a verdade é que há livros com os quais nos identificamos de tal forma que temos, ao longo da leitura, de nos esforçar por reconhecer que o livro não foi escrito por nós, nem para nós, nem por ninguém que nos conhece. E quando isto acontece é muito difícil julgar o livro por algo mais que a nossa reacção a ele, que as nossas emoções quando o lemos. 

Por outro lado tenho sempre algum pejo em falar da vida dos outros e ler este livro - que foi tornado público por escolha do autor - fez-me sentir, repetidas vezes, que estava a imiscuir-me em algo que não devia... e eu tenho total noção que isso acontece porque a parte da minha vida onde estão os sentimentos, o medo, a tristeza, a raiva e as lágrimas é algo que protejo com unhas e dentes.

Acho que um escritor só o é, ou só o é na totalidade, quando tem alguma coisa para dizer, quando tem uma história para contar. Não acho que todos os escritores precisem fazer o que fez o Hugo Gonçalves mas acredito que, em cada livro que escrevem, põem um pouco (e tantas vezes mais do que apenas um pouco) de si. Imagino que não tenha sido fácil escrever e, acima de tudo, partilhar este livro. 

Há imensos livros, a maioria de psicólogos e psiquiatras, sobre o luto e mais especificamente, sobre o luto na infância. Esses livros serão óptimos para pais, professores e adultos. Têm zero importância para quem passa por isso. Imagino que haverá livros infantis que o expliquem, que tentem ajudar nessas situações. 

Mas ouvir na voz de outra pessoa aquilo que não podemos admitir a ninguém - "não me lembro da voz da minha mãe"  ou  "Eu sabia que ela ia morrer" talvez ajude mais que propriamente a infinidade de conselhos triviais e banalidade vazias com que, cheios de boa vontade, pena e superioridade, os adultos tentam ajudar as crianças. 

Não em interpretem mal, isto não é, nem pretende ser, um manual para ninguém. É apenas a história que o autor quis contar. Só que essa história cruza-se com a minha, com tantas outras histórias que nunca serão contadas.

 

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Persistência da memória, de Salvador Dali

 

 

 

 

 

22
Abr19

Dia Mundial do Livro

Patrícia

No post mais polémico deste blog, falei-vos da minha relação com os livros e da responsabilidade que sinto sempre que escrevo sobre um livro de um escritor português. Em inúmeros outros post tenho escrito sobre a minha preocupação com o futuro da edição em Portugal que se traduz na minha recusa em comprar livros em grupos de facebook e afins (com excepção aos alfarrabistas oficiais, que são - na minha opinião - responsáveis pelo não desaparecimento de tantas pérolas da literatura, de edições que já não se encontram à venda e que nos permitem comprar livros a um preço mais simpático). 

Este fim, de semana, no Expresso, um artigo bem interessante do José Mário Silva, chamado O futuro incerto dos livros, ilustra uma realidade que já todos intuímos, que conhecemos e, muitos de nós, receamos.

A queda das vendas, ilustrada no gráfico abaixo não augura nada de bom... e somos nós, leitores,  quem mais irá perder. 

Alguns de vocês dir-me-ão que temos sempre a hipótese de ler em inglês, em francês ou espanhol, que os livros nessas línguas são bastante mais baratos e que estão disponíveis a toda a gente. E eu respondo-vos que isso me entristece de uma forma que não vos consigo explicar. Eu quero continuar a ter livros em português, de autores portugueses, para ler. Eu quero ler mais escritoras portuguesas e quero que os escritores de fantasia e de ficção-cientifica portugueses consigam publicar.

Eu quero ter na minha estante os livros que os meus amigos escritores sonham publicar.

Eu não quero que, como diz a editora Maria do Rosário Pedreira (no artigo de que falo acima), a  literatura seja "uma forma de cultura para um público reduzido"! 

Amanhã é o Dia Mundial do Livro. Amanhã vou comprar um livro.

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20
Abr19

Armários vazios, de Maria Judite de Carvalho

Patrícia

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Na minha estreia e sem surpresa, fiquei conquistada pela forma como esta escritora escreve as mulheres e a solidão. Digo "sem surpresa" porque a tantas pessoas ouvi o elogio que já estava, de certa forma, à espera do que encontrei. Maria Judite de Carvalho foi, sem dúvida, uma escritora maravilhosa e com uma imensa capacidade de fazer o leitor sentir. 

Neste Os armários vazios, Maria Judite de Carvalho apresenta-nos, primeiro, a Dora Rosário, viúva antes de mulher, que procura sobreviver à sua condição e criar a filha Lisa que, tantas vezes, se parece mais com Ana, a sogra, que consigo. Depois, pela mão de Dora, pela sua história, vamos conhecendo as outras mulheres. Ana, Lisa, Júlia e, claro, Manuela. E os homens. Sempre os homens, que são secundários nesta história mas que serão sempre personagens principais nas vidas daquelas mulheres.

Sendo um romance (ou uma novela? nunca sei bem) tão curto lê-se quase de uma assentada e deixa-nos, ou pelo menos a mim deixou, com uma sensação de vazio e de tristeza. Não gostei, no final, de nenhuma das mulheres a que a escritora me apresentou. Faltou-me um toque de esperança de mudança (e não, a Júlia não foi o suficiente para isso). Mesmo reconhecendo (ou talvez por isso mesmo) tantas mulheres que se encaixam em cada um dos estereótipos ali representados, acredito que até nessas há mais alguma centelha de vida, ou que não se deixam derrotar com tanta facilidade. Não é a derrota que me incomoda... é a falta de haver gritos e berros e esperneio pelo meio.

 

 

09
Abr19

eu sou estranha, eu sei

Patrícia

Esta aventura dos blogs e dos clubes de leitores (sim, no plural) permitiu-me partilhar as minhas leituras, as dos outros, conhecer novos livros, aumentar exponencialmente as listas com os livros que quero ler, estar (mais ou menos) a par dos que se vai lendo e escrevendo por aí. 

E se é verdade que, através deste blog, fui conhecendo muitos dos meus "iguais", a verdade é que também este grupo, o dos leitores, se faz de heterogeneidade e diferença. Diferença nos gostos (uma das maravilhas dos grupos de leitores é que raramente a opinião sobre um livro é unânime), diferenças nos ritmos ou hábitos de leitura. E não há formas certas de ler, nem hábitos melhores ou piores... porque os leitores têm direitos.

Mas se há coisa que, por mais que me esforce (e confesso, não me esforço muito que os vossos hábitos são coisa que não me incomoda nada), não consigo compreender é como é que vocês conseguem saltitar de livro em livro com essa rapidez. Como conseguem ler mais do que um livro ao mesmo tempo. Ou como conseguem acabar um livro e já estar com a cabeça noutro. 

Juro-vos que sinto uma espécie de necessidade de lealdade para os as personagens, tornam-se amigos e esquecê-las rápido chega a ser uma espécie de traição. Gosto de viver com as personagens dos livros que leio. Talvez por isso goste tanto de livros grandes e de fantasia, são livros que nos permitem acompanhar determinadas personagens, envolvermo-nos, sofrer com elas. E quando se sofre com alguém não se consegue trocar esse alguém tão rapidamente como isso. Gosto de passar dias, semanas a fio mergulhada num outro mundo. 

 

07
Abr19

Royal Assassin, de Robin Hobb

Patrícia

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Depois de um início pouco auspicioso, porém com fé em quem me dizia que isto ia melhorar, aventurei-me no segundo volume da história de Fitz. E, confesso, este segundo volume conquistou-me. 

No início deste livro, Fitz está a recuperar da tentativa de assassinato e do sacrifício de Nosy. Está quebrado e é cedo que percebo que poucos escrevem a solidão e o medo de ter perdido tudo como a Robin Hobb. Não é propriamente a lealdade a Shrewd que o leva de volta a Buckkeep mas sim Molly e uma visão. Rapidamente se vê enredado nas intrigas da corte, continuando o seu trabalho como kingsman ao mesmo tempo que tem que ser o sempre foi para Patience, Burrich e Molly. 

Robin Hobb não nos deixa esquecer (e isso é de salientar) que, mesmo sendo tudo isto, Fitz é um miúdo. 

Acho que foi essa capacidade de escrever o que é ser humano que me conquistou. As personagens deste livro estão longe de ser perfeitas. Longe de ser boas ou más. Com excepção do Regal que, de facto, não se mostrou ainda minimamente humano (os maus desta fita ainda não me convenceram, apesar de já terem atingido o estatuto de vilões a sério), todos os outros são muito bem construídos. É difícil não sentir empatia com quem, apesar de ter tão boas intenções, comete tantos erros como aquele grupo.

Neste segundo volume deliciei-me com a magia Wit. Estabelecer um laço com um lobo? Adoro o Nighteyes e acima de tudo gosto deste meio termo a que a autora chegou: ela não deu ao lobo características humanas nem uma consciência humana - e isso é muito difícil de fazer tendo em consideração que o transformou numa personagem importante. Mas disto falaremos melhor quando escrever a opinião do terceiro livro.

O que não me convenceu (ainda) neste volume - e sei que é mais culpa deste meu feitio que da autora - é o romance entre a Molly e o Fitz. Chamem-me "coração de pedra"  mas não senti grande tristeza quando ela resolveu ir embora (e sim, eu percebi quem é esse ser que ela ama mais que tudo - não haverá quem não o perceba). A verdade é que a Molly merece muito mais que o Fitz. Merece mais que ser uma terceira escolha. Merece mais que passar uma vida inteira à espera que ele se digne a escolhê-la.  E merecia, acima de tudo, ser alvo da confiança dele. A moça subiu imenso na minha consideração quando se fartou e tomou as decisões que ele não tomou.

O Fool continua a ser a minha personagem preferida. E era sempre que ele aparecia que eu me emocionava. A dor, a dedicação, o sacrifício e sofrimento de quem vive para outro, para mitigar o sofrimento dos outros. Tanto nesta personagem pode servir para reflectirmos sobre a vida e morte. E, como "de sábios e de loucos, todos temos um pouco", é impossível não ter a convicção que ele é o mais sábio de todos.

Kettricken e Verity cresceram e tornaram-se nas personagens que espera. Ela é das mais interessantes personagens do livro, ele ainda não atingiu nem perto do seu potencial. Mas este é um romance que me agradou.

Como já disse antes, Regal tornou-se o vilão incontestado mas, para ser um grande vilão, precisava de não ter uma outra dimensão. Claro que isso é especialmente difícil porque estamos a ver sempre através dos olhos de Fitz. O problema dos livros na primeira pessoa é precisamente esse. Ainda assim, as cenas de tortura que ele protagonizou deixaram-me estarrecida. A forma como a escritora as escreveu, privilegiando as emoções às dores físicas, conseguindo transmitir toda a dor, abandono, desespero e desesperança que o Fitz sentiu foi magistral e elevou bastante as minhas expectativas para a terceira parte desta história (que não é trilogia nenhuma, é uma história dividida em três - ou mais, dependendo das edições - exactamente como o Senhor dos Anéis).

 

24
Mar19

Ragnarök, O Fim dos Deuses, de A.S. Byatt

Patrícia

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A importância de preservar as histórias, as lendas, as fábulas e os mitos de uma cultura faz com que, volta e meia, se conte a mesma história de uma forma ligeiramente diferente. Se é verdade que nos custa (a mim, pelo menos, custa) ouvir "aquela" história com inflexões completamente diferentes (sabem lá vocês o que sofro quando ouço as várias versões da guerra de Tróia) a verdade é que essa é uma forma usada desde sempre, seja na tradição oral, seja na escrita ou na sétima arte. Mudam-se os tempos e os mitos, de acordo com a sua essência, adaptam-se com toda a facilidade.

É assim que neste livro, que faz parte da colecção The Myths, nos é recontado o mito nórdico do Ragnarök, uma sequência de eventos que levam ao fim do mundo, à batalha final onde a maioria dos deuses morre. 

Ora, o meu problema com este livro começa precisamente aqui. Isto é, para mim, uma história completamente nova. Sim, já tinha ouvido falar de Thor e do seu martelo, de Odin, Tyr, Loki e até de Fenris mas Yggdrasil, , Rándrasill, Baldur, Frigg, Jörmungander e outros tantos foram completamente novos para mim. Um livro que era suposto transportar-me para um mundo mágico já conhecido acabou por me transportar para um sítio onde só lá para o final sabia quem era quem.

Este foi um claro caso de "não és tu, sou eu", tenho plena consciência que é um livro muito bom mas que me custou imenso a ler e que não consegui apreciar.

É verdade que aprendi muito sobre a mitologia nórdica e agora que o terminei estava capaz de começar a ler sobre os deuses nórdicos e efectivamente perceber, desde o início, o que estava a ser contado.

Ainda assim, no meio da luta para prosseguir na leitura, consegui apreciar a escrita e gostar imenso das partes da "criança magra". Deixem-me explicar-vos.

O Ragnarök é-nos contado pela criança magra que, estando protegida na Inglaterra rural na altura da segunda guerra mundial, comparava os mitos contados no livro Asgard e os Deuses com as histórias sobre Jesus que lhe eram contadas na catequese e com a sua própria vida. Foram estas partes do livro que me marcaram e agarraram. Dei por mim a destacar passagens, a ler algumas frases várias vezes. 

Não tenho dúvidas que ainda vou reler este livro e gostar muito mais mas esta primeira leitura foi algo penosa. Mas continuo a achar que o livro tem uma capa maravilhosa.

20
Mar19

Uma lista muito interessante

Patrícia

Uma lista, composta pela Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias, com "uma dúzia de títulos de ficção escrita por mulheres que porão certamente os homens a pensar (mas que todos devemos ler, independentemente do sexo)"

  1. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy
  2. Rebecca, Daphne du Maurier
  3. A Balada do Café Triste, Carson McCullers
  4. Cisnes Selvagens, Jung Chang
  5. Persépolis, de Marjane Satrapi
  6. Jane Eyre, de Charlotte Brontë
  7. Lila, de Marilynne Robinson
  8. Manual para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin
  9. A História de Uma Serva, de Margaret Atwood
  10. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
  11. Diários, Anaïs Nin
  12. Orlando, Virginia Woolf
  13. Bonjour Tristesse, Françoise Sagan
  14. A Campânula de Vidro, de Silvia Plath
  15. Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery O’Connor

Eu, desta lista, li o O deus das pequenas coisas (muito antes de ter blog), Jane Eyre, A história de uma serva e  Orlando. É pouco. Eu não sou de fazer nem de me ter em projectos mas aqui fica a sugestão, para quem a quiser apanhar, de um excelente projecto. Seria fabuloso. 

20
Mar19

Hardy, irmãos em acção, versão 2019

Patrícia

Ontem descobri, por puro acaso, que os Hardy tinham ressuscitado pela mão da editora Bertrand. A minha primeira reacção foi de um enorme sorriso. Voltei à minha infância, às histórias de mistério em que acompanhava Frank e Joe enquanto estes resolviam mistérios e crimes. 

A minha segunda reacção foi: mas que raio, os Hardy? Isto vai ter sucesso?

Eu não duvido que vá vender. A minha geração e as gerações antes da minha garanti-lo-ão. Os Hardy, como a Patrícia ou a Nancy Drew fazem parte da nossa infância e quando chegar a altura de oferecer um livro, a parte afectiva vai ajudar-nos a tomar uma decisão - afinal queremos que os putos tenham as mesmas experiências literárias que nós.

Conheço mais ou menos a história da série - e as polémicas que a envolveram, obrigando a várias revisões após queixas de racismo e xenofobia - e não falo do "politicamente correcto" de hoje em dia uma vez que a primeira revisão foi de 1959. Mas com esta revisão os Hardy, que eram pobres  e um bocadinho anárquicos, passaram a ser ricos e respeitadores da lei. As personagens não brancas quase desapareceram da série (para apenas voltarem nos anos 70), os enredos foram alterados para eliminar cenas e pormenores de maior violência. 

A série conseguiu sempre reinventar-se e sobreviver, e foram muitos os livros editados em cada uma das séries - há uns 190 volumes no The Hardy Boys Mystery Stories (cá foram editados como Os Hardy em Acção, pela Verbo), 42 nas série Nancy Drew and the Hardy Boys (Be a Detective Mystery Stories e  SuperMystery Series), 127 na The Hardy Boys Casefiles Series, 17 na The Clues Brothers, uns 40 no The Hardy Boys: Undercover Brothers, que teve mais de 20 graphic novels e já há pelo menos 20 títulos no The Hardy Boys Adventures que começaram a ser editados em 2013.

Como volta e meia gosto de ir procurando pelos livros da minha infância/adolescência e porque gosto de saber o que se vai editando para os 9-12 anos (ainda nada conseguiu bater as viagens no tempo, da Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada) fui logo cuscar esta ressurreição dos Hardy. 

E eu, que esperava a edição de alguns dos livros não editados em Portugal fiquei um bocado desiludida quando percebi que não, que são reedições de livros que já se venderam por cá (eram editados pela Verbo) - e enervo-me sempre quando isso não é referido quando se fala deste tipo de livro - "A Bertrand Editora publica pela primeira vez os dois volumes que iniciam esta saga de clássicos juvenis" ... é verdade, a Bertrand edita pela primeira vez... mas a Verbo já editou antes e apesar de ter também presença no Brasil, esta editora tinha uma enorme presença cá.

Agora estou cheia de curiosidade para analisar o texto e perceber se houve uma nova tradução (a antiga tradução de O tesouro da torre era da Maria Helena Lopes Ribeiro, foi editado pela Verbo em 1989), se mexeram no texto (o original é de 1927) e se o "actualizaram" ou se é apenas uma nova revisão e uma capa. Infelizmente, pelos detalhes do produto no site da editora não consigo perceber (devia ser obrigatório indicar o tradutor)

o segredo da torre.JPG

A minha versão era esta:

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Quando puser as mãos nesta nova versão hei-de reler ambos e depois venho cá contar-vos tudo.

 

 

15
Mar19

Fantasia?

Patrícia

O post do Craig Hanks no blog do Legendarium Podcast "The Rising Cost of Entry to the Nerd Tribe" vale a pena ser lido na integra mas deixo-vos aqui alguns excertos e algumas considerações (mas ide lá ler tudo, sff).

O género Fantástico sempre foi um dos meus preferidos mas, a verdade, é que não tive muitas oportunidades de o explorar quando era miúda e tinha tempo para ler e reler os livros (e que é como a fantasia precisa ser lida). Sou uma apaixonada mas não conheço assim tanta coisa. Agora, mais adulta do que às vezes gosto de admitir (e não tem nada a ver com a idade que vivo bastante bem com os 40 anos que tenho), falta-me o tempo para lhe dedicar -  e a verdade é que gosto demasiado de outros géneros de literatura para apenas me dedicar a um. 

Ainda assim, tenho imensa pena de não ser uma total geek da fantasia que acho um género de eleição porque, na verdade, permite tudo. Mas tudo mesmo. O Craig fala neste texto um bocadinho disso.

Há uns anos teria dúvidas se ainda era possível que alguém se tornasse um "geek" deste género literário - com a quantidade de livros que existem por aí - mas depois de conhecer Cosmere deixei de questionar.

Ser fã, mas fã a sério, de fantasia é sempre motivo para um sorriso e para se ser absolutamente posto de lado... mas isso apenas revela burrice porque, a verdade, é que ser fã de fantasia dá mais trabalho e exige mais dedicação do que vocês possam pensar. 

E consome "espaço no disco". Um verdadeiro fã sabe pormenores. Leu e releu as obras.. várias vezes. Conhece as personagens de dentro para fora. E não esquece. Não são livros que possamos pôr na estante e esquecer o enredo, deixando espaço para os próximos. Nós vamos acumulando... não só porque sabemos que aquilo nos vai fazer falta mas porque não conseguimos esquecer. Aqueles personagens agarram-se a nós, fazem parte da nossa vida. E ajudam-nos a conhecer bem melhor a realidade do que aquilo que vocês possam pensar.

The year 2001 was a major turning point for nerd culture. The holiday season that year saw the release of two major, era-defining movies, the debuts of two franchises: Harry Potter in November and The Lord of the Rings in December. (...)

There had always been a pretty vivid line separating nerds from the rest of the mainstream culture. Even with something as widely loved as Star Wars, there were fans, and there were fans. (...)

With the release of LotR and HP, that vivid line in the sand had just been washed over by the tide and nobody was sure where to redraw it. And if you think nerds didn’t badly want it redrawn, you’re mistaken. It’s tempting to think that we want everyone else to love the things we love. But that’s not always (usually?) the case. We want some people to love the things we love. Our people.

Like any art form, a good fantasy novel teaches us something about human nature, about ourselves and our purpose, about how to relate to the people around us. And that deserves to be shared.

14
Mar19

The Assassin's Apprentice, de Robin Hobb

Patrícia

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Fitz fitz fice fitz. Fatz sfitz

FitzChivalry Farseer, bastardo de Chivalry, o príncipe herdeiro dos Six Duchies é entregue à família do pai aos 5 anos. Sem lugar na corte, acaba por crescer, sem nunca conhecer o pai (que acaba por abdicar do trono), aos cuidados de Burrich, o responsável pelos animais em Buckkeep. Um bastardo tem que encontrar o seu lugar. Mas não deixa de ser uma falha no plano, uma carta fora do baralho, que cria todo um leque de novas possibilidades.

"Do you think I keep you alive because I am so entranced with you? No. It is because you create so many possibilities. While you live you give us more choices. The more choices, the more chances to steer for calmer water. So it is not for your benefit, but for the Six Duchies that I preserve your life. And your duty is the same. To live so that you may continue to present possibilities.”

Este primeiro livro da série, conta-nos o crescimento de Fitz, o bastardo, como King's Man, como aprendiz de assassino, como ajudante de tratador de animais, como adolescente.

Não posso dizer que tenha sido o melhor livro de fantasia que li na vida. Não me foi difícil entrar na história mas foi complicado convencer-me a continuar - confesso que, de início, não me interessei muito pelo que andava Fitz a fazer mas sabendo a paixão que a Célia e a Carla tem por esta saga tinha mesmo que chegar ao fim. E senti muito a falta de um verdadeiro anti-herói, de um verdadeiro antagonista.

Tendo ouvido o audiobook, narrado por Paul Boehmer, fiquei bastante surpreendida quando, numa busca para perceber como raio se escreviam o nome dos personagens (tenho sempre este problema), percebi que este livro é de 1995. Nem imaginam como gostaria de ter lido este livro nessa altura - não só teria gostado muito mais como o teria lido inúmeras vezes (que é como os livros de fantasia devem ser livros) e nenhum dos seus segredos me teria passado ao lado.

Mas, não tendo sido o melhor dos livros de fantasia que já li, é um bom livro e tem um enorme potencial. 

(a partir de agora poderá haver alguns spoilers... nada que estrague a leitura mas sigam por vossa conta e risco)

 

Fitz, o nosso protagonista, conta-nos a sua história na primeira pessoa, o que significa que ao longo de todo o livro vemos os acontecimentos pelos olhos de miúdo. Às vezes vemos um bocadinho mais que ele (aquela mania de ser um King's man... vá, convenhamos que todos a percebemos quando o Verity contou ao Fitz o que Chiv tinha feito ao Galen quando eram miúdos) outras deixamo-nos enganar, sorrimos e sofremos com ele. Mas ainda não me "apaixonei" por esta personagem. Falta qualquer coisa nem vos sei explicar bem o quê. A personalidade dele ainda não está bem formada, as escolhas ainda não são bem dele e só no fim, mesmo no final deste livro, comecei a interessar-me pelas suas escolhas.

Mas gostei imenso de algumas das personagens deste Assassin's Apprentice.

Burrich ainda nos irá surpreender. É, desde o início, óbvio que também possui o talento para a ligação provocada pelo Wit e tem sido um bocadinho irritante por causa disso mas é daqueles que ainda vai aprender. E é, de facto, o pai do Fitz. Não o progenitor mas o pai.

Adoro a Lady Patience. Adoro. Deposito algumas fichas nela e no papel que ainda vai desempenhar.

E gosto muito do Verity. Ele e a Kettricken ainda vão provocar bons momentos de leitura. Da Molly e do Shrewd será inevitável falarmos nos próximos livros mas para já nem um nem outro me deixaram grande impressão.

O Galen desiludiu-me como vilão. Demasiado a preto e branco. A história do Chivalry com ele lá lhe deu alguma cor mas foi só de passagem. O Regal é, para já, apenas irritante e ainda terá que crescer muito para se tornar realmente o antagonista desta história (mas é ele a minha primeira aposta para o lugar) a não ser que apareça alguém verdadeiramente marcante nos Red-Ship (esta parte bem que podia ter sido um bocadinho mais desenvolvida mas lá chegaremos, não é?)

Já perceberam para quem vai o meu amor e entusiasmo nesta história, não é?

Pois, isto valeu pelo Fool e pelo Chade. Quem ou que género de criatura é o Fool? E o que vou sofrer quando o Chade morrer? Gosto tanto dele mas o mentor morre sempre... (ca nervos). 

Outro ponto forte do livro é o(s) sistema(s) de magia. Wit e Skill. Quero muito saber mais sobre ambas e se tivesse que escolher uma para mim, nem hesitava. Wit, obviamente. Ainda não recuperei do destino que Nosy e Smithy tiveram. Não se faz.