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Ler por aí

Ler por aí

12
Mai20

À espera no centeio, de J.D. Salinger

Patrícia

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Ou "o apanhador no campo de centeio" ou, ainda, "Uma agulha no palheiro".

Se fosse eu, escolhia "o apanhador no campo de centeio". Posso aliás, começar por aqui, pela referência a este título, que diz respeito a apenas uma pequena passagem deste livro mas que tem em si, ainda assim ou talvez por isso, uma imagem tão forte. Aliás, todo o livro é algo cinematográfico (ainda que o protagonista não goste de cinema) e as imagens que nos surgem, as diferentes velocidades de acção, contam a sua própria história.

Ao longo destas páginas acompanhamos Holden que resolve contar-nos o que se passou nos dias seguintes à sua expulsão de Pencey, colégio para o qual não deverá voltar após as férias do Natal.

Cedo percebemos que o tom deste livro é extremamente triste. Aquele miúdo deu-me pena quase de início e perguntei-me muitas vezes porque é que nenhum dos adultos que o rodeia o consegue "ver" e ajudar. Mais do que retratar os dramas da adolescência (muito parecidos, mais no conteúdo que na forma, aos sentidos pelos adolescentes actuais) e a passagem para a idade adulta, este livro fala-nos sobre depressão, solidão, não-integração (real ou apenas sentida) e consegue, num tom muito particular dar voz a quem, na altura em que o livro foi escrito, pouca voz teria.

Tendo-o lido com "olhos de adulta" não consegui sentir a empatia que queria ter sentido com o Holden. Mas compreendo perfeitamente o impacto que este livro deve ter quando lido na idade certa, ali pelos 15/16 anos. Será, certamente, um livro a ofercer a alguns adolescentes.

E é um livro que recomendo sem reservas. 

 

 

 

 

30
Abr20

leituras e outras coisas em tempo de quarentena

Patrícia

Acho que, quando nós leitores, ouvimos falar de quarentena e de isolamento social começámos a fazer listas mentais de que livros íamos ler naquele tempo livre todo que subitamente nos ia cair no colo.

Umas semanas depois comecei a ouvir as queixas: "não tenho lido nada", "não consigo ler" . E os que conseguiam ler comentavam que só conseguiam ler thrillers ou fazer releituras. 

Eu não posso dizer que li menos nesta altura que noutra qualquer - a minha velocidade de leitura tem abrandado e o tempo disponível para as leituras também - mas isso já não é de agora.

Quando me preparei para este isolamento social pensei nos livros. E fui comprar um. Queria comprar o Testamentos, da Margaret Atwood (falhei a data de publicação por dois ou três dias) e acabei por comprar o O pintor de Almas, do Idelfonso Falcones. Por acaso foi um tiro ao lado mas a intenção foi boa. Comprei um livro dentro da minha zona de conforto, sem grande exigência e de leitura rápida. Ah, e grande. Ser um calhamaço sempre foi a forma ideal de me interessar. 

Haverá várias razões pelas quais tantos não se conseguem concentrar na leitura. Os tempos excepcionais que vivemos obrigaram-nos a mudar de hábitos. O isolamento social obrigou muitos de nós a viver mais digitalmente. Toda a gente em casa ao mesmo tempo roubou-nos o silêncio e obrigou-nos a olhar para o outro. Houve até gente a descobrir que não gosta lá muito das pessoas com quem vive. Há quem queira rifar filhos, marido/mulher e animais. 

A maioria de nós, eu incluída, não trabalha menos em teletrabalho - muito pelo contrário. No meu caso, já trabalhava de casa muitas vezes (a empresa onde trabalhava permitia-me fazê-lo até 5 dias por mês) por isso a única adaptação que tive que fazer foi habituar-me a ter um companheiro de teletrabalho (para além do ZéGato, claro, que é sempre a minha sombra fiel) uma vez que o meu marido também ficou a trabalhar aqui.

O tempo que ganhei das viagens que agora não faço, gasto a tratar da casa (que se suja muito mais), a fazer comida ou a conversar com amigos. E isso foi, talvez, a melhor coisa deste tempo. Tenho conhecido imensa gente. Amigos que normalmente não me convidam para cenas presenciais (sabem que não ia poder aceitar) desataram a incluir-me nos encontros virtuais e tem sido super interessante. Os clubes de leitura desataram a promover reuniões. As reuniões mensais passaram as quinzenais ou semanais e as trimestrais a mensais. Tem sido espectacular. Mas o tempo para as leituras vai-se.

Por outro lado, passei muito tempo nas redes sociais. A necessidade de informação fez-nos viver com o telemóvel na mão demasiado tempo. Houve uma altura em que senti necessidade de desligar tudo. Comecei a desligar net e TV depois do jantar e fui recuperando o equilíbrio e abrandando, o que me permitiu ler sem paragens e a apreciar bastante mais o que estava a ler.

A verdade é que cada dia me apetece mais ler. Talvez por estar tão rodeada por pessoas que vivem os livros de forma intensa. Talvez por já me ter adaptado a esta estranha forma de vida. Mas uma vez mais constato que ler faz parte e é fundamental para o meu equilíbrio. 

 

 

27
Abr20

E as vossas leituras, como vão?

Patrícia

Eu ando a ler mais, retomei o As benevolentes e agora só páro quando o acabar. Não gosto de ter livros por terminar e este já anda nesse estado há demasiado tempo. Por alguém motivo estranho achei que um livro, do tamanho de um tijolo, sobre a segunda guerra mundial era o ideal para levar numa viagem para o outro lado do mundo. Claro que li pouquíssimas páginas na viagem e aproveitei para dormir. Provavelmente não teria lido qualquer outro livro que tivesse levado (estava na altura com um défice de sono que já estava a fazer estragos) mas este foi, definitivamente, o errado.

Apesar de não o ter começado na altura certa, este é um grande livro apesar de ser extremamente violento e triste. E importante. Mas tem sido uma leitura difícil a vários níveis até porque está cheio de descrições que não interessam nem ao menino jesus e de títulos do exército alemão que são absolutamente imperceptíveis. Eu tenho em ebook e tem uma manifesta falta de notas de rodapé. E estar sempre a saltar para o glossário não é, sequer uma opção viável.

Tenho também em andamento o "Madre Paula" que leio quando não me apetece, de todo, pegar no As benevolentes. Este é um livro que se lê bem e é interessante. Mas não consigo gostar da Paula e passo o tempo todo com vontade de lhe dar estalos. 

Li o "à espera no centeio", hei-de escrever um post sobre ele um dia destes. Amanhã vou participar numa discussão sobre este livro no clube de leitura a que pertenço e tenho a certeza que vou aprender bastante, que a minha opinião vai ser (também) formada por essa conversa e que ficará bastante mais interessante depois disso.

Houve uma altura em que achava que devia escrever as opiniões antes de discutir o livro com quem quer que seja, como se isso fosse de alguma forma garante de uma certa autenticidade e sinceridade. Actualmente não penso assim. Por um lado escrevo mais para mim que para vocês e isso significa sempre escrever o que e quando quero e por outro uma discussão enriquece a minha visão sobre o livro, chama-me a atenção para pormenores que não tinha reparado e ajuda-me a aprofundar e a limar a minha própria opinião. Discutir um livro obriga-me a reflectir um bocadinho mais sobre ele e a minha opinião só ficará definitiva após essa reflexão.

Acabo sugerindo-vos ler um texto que me provocou uma panóplia de reacções. Revirei muito os olhos e rangi os dentes. Acho que até disse alguns palavrões. Mas ainda assim, acho que merece ser lido. E acho isso porque sei que aquela é a opinião de muitos jovens. Caramba, acho que pensei assim quando era miúda. E é por isso que eu sei o quão a Helena Magalhães está errada em algumas das afirmações que profere mas merece ser ouvida. Está errada quando diz "Não se pode pedir que um jovem de 25 anos hoje se interesse por Saramago ou António Lobo Antunes ou Agustina Bessa-Luís ou Lídia Jorge ou Eça de Queiroz", está errada quando diz que se está a "perpetuar uma literatura portuguesa que arrasta as cinzas de um Eça ou de um Pessoa" mas merece ser ouvida porque essa é a percepção de muitos jovens e isso não deve, de forma alguma, ser ignorado ou desmerecido. Não me apetece esmiuçar o texto, até porque a minha intenção é apenas realçá-lo para que possa ser discutido e utilizado para fomentar uma discussão necessária e urgente mas vou comentar apenas uma das frases em destaque "A literatura tem de se adaptar aos leitores de hoje" dizendo que não, a literatura não tem que se adaptar aos leitores de hoje. E os leitores de hoje não são os miúdos  que estão a começar a aprender a ler. Os leitores de hoje somos todos, miúdos e graúdos, leitores novos, velhos, de meia idade. Talvez se possa dizer que as editoras têm que se adaptar aos leitores de hoje, a todos, isto se querem vender e sobreviver (apesar de eu achar que esse é um dos problemas, as editoras adaptam-se mas os leitores de hoje, como a Helena diz, querem ler mas não comprar, pelo menos não o tipo de compra que paga direitos de autor).  

 

10
Abr20

O pintor de almas, de Ildefonso Falcones

Patrícia

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Do escritor de A Catedral do Mar (podem ler duas opiniões deste livro, a minha e a da Catarina) achei que seria o livro ideial para ler neste isolamento social que vivemos por estes dias. 

Um livro contado a duas vozes, a de Dalmau e a de Emma. Infelizmente nenhum dos dois me convenceu. Aliás, o livro não me convenceu. Lê-se razoavelmente bem mas às tantas torna-se um bocado chato, nada de novo acontece, os personagens parecem não crescer, não aprendem com o erros e conseguem ser muito burrinhos o que, num livro de muitas páginas, aborrece. Mas lê-se bem, o autor escreve bem, aprende-se imenso sobre Barcelona do início do séc XX e para quem não se importa de ter uma história cheia de clichés e de tragédias, tem aqui um bom livro. Para quem espera mais que isso... bem, talvez não valha a pena.

Não me vou alongar muito na opinião e pode haver alguns spoiler mas deixem-me desabafar um bocadinho.

Qualquer livro que retrate uma época que não a nossa tem que ser lido à luz da cultura e dos costumes dessa época. Eu eu não sou, de todo, perita na sociedade de Barcelona do início do sec XX mas porque raio Emma, tão liberal nalgumas coisas e defensora dos pobres e oprimidos consegue ser tão obtusa noutras coisas? A luta contra a igreja e todas as suas restrições morais e ao mesmo tempo a total submissão ao patriarcado no partido - aliás a todos os homens que com ela se cruzam, e todos os homens que com ela se cruzam são umas bestas totais com excepção de dois. Mas todos ficam loucos com ela, com as formas do corpo dela, com a beleza, etc, etc... uma bela oportunidade desperdiçada. Apenas Josefa (a querida, doce e sofredora Josefa, tinha algum género de respeito por si própria).

E porque raio Marvilhas não foi melhor aproveitada? A personagem mais interessante... completamente ignorada e que apenas serviu para cumprir o propósito de fazer o casal maravilha ainda mais miserável. Um desperdício. 

Tenho mesmo muita pena de não me ter conseguido apaixonar por esta história mas, às tantas, só queria acabá-lo para passar para outro.

01
Abr20

#2 - A necessidade aguça o engenho - Os clubes de leitura

Patrícia

Quem vai regularmente a um clube de leitura sabe o quão estes encontros são importantes para a saúde mental de quem neles participa. Sim, nós gostamos de ler e de falar de livros. Nesta época de isolamento social era impossível encontrarmo-nos pessoalmente na Biblioteca dos Olivais e, como quem não tem cão caça com gato, passámos para o modo online. 

E devo dizer-vos que correu muito bem. Foi uma tarde de Roda dos Livros com muita conversa e muitas partilhas. E que se irá repetir várias vezes durante esta quarentena.

Aqui ficam as sugestões da RODA DOS LIVROS para a época da quarentena.

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31
Mar20

#1 - A necessidade aguça o engenho - Fiquem em casa

Patrícia
24
Mar20

Viagem ao passado 1 : O cavalo preto, de Anne Sewell

Patrícia

Não sei bem porquê mas esta noite lembrei-me deste livro. Lembro-me de o ter requisitado (vezes sem conta) da biblioteca da escola. Lembro-me de sofrer com o Black Beauty, de achar que o que lhe faziam era a maior injustiça do mundo e de ficar feliz quando as coisas lhe corriam bem.

Pensando bem este livro talvez tenha sido a minha versão de romances melosos, para chorar baba e ranho. Mas sempre tive uma imensa paixão por cavalos e este livro foi perfeito para a reforçar e para me fazer sentir um bocadinho mais perto destes animais sensíveis, inteligentes e majestosos.

De qualquer das formas este foi um livro que marcou profundamente a minha infância.

 

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O Cavalo Preto é um belo potro, elegante, dócil, inteligente e sensível, que qualquer pessoa gostaria de ter por companheiro. Descendente de um grande vencedor de corridas, teve uma educação esmerada em virtude da qual aprendeu a respeitar e a estimar os outros animais e os homens. Todavia há quem, levado pela ganância ou pelo egoísmo, não compartilhe tais sentimentos e chegue ao ponto de exercer sobre ele sevícias e brutalidades a todos os títulos condenáveis. Uma obra recheada de ternura e poesia que patenteia igualmente uma severa crítica ao egoísmo e brutalidade com que eram, e em muitos casos ainda hoje são tratados, os cavalos, tanto a nível doméstico como a nível de competição.

 

23
Mar20

ler fantasia

Patrícia

O género ficção especulativa* continua a ser um dos mais desvalorizados da literatura. Até quem luta por "não há maus livros" (e vocês já sabem o que eu acho disso) torce um bocadinho o nariz à fantasia, à FC ou a qualquer outro subgénero da ficção especulativa. É assim uma espécie de género menor da literatura. Pelo menos por cá. Neste cantinho à beira mar plantado (onde as pessoas vão passear à beira mar mesmo em época de quarentena) ler fantasia (ou FC) é coisa de nerds, de miúdos e de gente estranha. E antes que digam que não é bem assim: eu sou leitora de fantasia e sei bem os comentários vindos até de quem se diz leitor não preconceituoso. 

Mas a verdade é que a maioria de vós gosta de ler livros deste género. Podem até não gostar de alguns sub-géneros como High fantasy mas garanto-vos que gostam de livros que se podem, sem nenhum género de esforço, incluir neste género.

Ou vocês acham que livros como Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carrol ou o A metamorfose, de Franz Kafka não são livros que facilmente se incluem aqui?

Ah, mas.... dizem vocês! 

Mas nada. O Diário de Dorian Gray, do Oscar Wild é o quê? 

mas...

E o Fahrenheit 45 de Ray Bradbury , o A guerra dos mundos, do H.G Wells, o 1984, do Orwell ou o Admirável Mundo Novo do Huxley, são o quê?

E as fábulas? as Lendas? são o quê? Registos históricos do tempo em que havia fadas e os animais falavam?

É que nem sendo fãs do A guerra dos tronos conseguem admitir que este género, que a fantasia tem coisas boas - afinal a série é mais política que fantástica

Meus senhores e minhas senhoras, vamos lá a ver. Toda a boa fantasia/FC/distopia é dedicada à análise dos tempos em que vivemos, ok? Toda. E isso implica análise à política, à religião, às crenças, à sociedade da actualidade.

 

* texto editado após as belíssimas conversas nos comentários :)

 

 

19
Mar20

Ficções, de Jorge Luis Borges

Patrícia

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Era uma vergonha ainda não ter lido Borges. Logo eu, que tanto gosto de fantasia. A verdade é que este autor é daqueles que sempre figuraram na lista de "autores que preciso de ler" mas que "tenho algum receio de não perceber/gostar" e que, por isso, vão ficando para mais tarde. Mas desta vez (e porque foi o livro escolhido no grupo de leitura da biblioteca de Alvalade) li e gostei.

Não vos vou dizer que foi fácil. Eu não sou, já aqui o disse diversas vezes, leitora de contos. Gosto de passar tempo com as personagens, gosto de mergulhar num bom romance e ali "viver" durante algum tempo.

Nos contos é, geralmente, muito difícil estabelecer empatia com as personagens, principalmente porque ficamos sem elas muito depressa.  Mas este não é um livro como os outros. Não tem nada de banal ou fácil ou rápido. A escrita de Borges não é (e para usar uma expressão tão na moda e que eu detesto) nada fluída. Cada conto precisa de tempo, de calma. Porque cada conto tem um mundo dentro e dava, com facilidade, um romance (de muitas páginas).

O primeiro conto "Tlön, Uqbar, Orbis Tertius" onde um grupo de pessoas se une para imaginar um mundo onde a realidade nasce da ideia e onde "não existe o conceito de plágio: estabeleceu-se que todas as obras são obras de um só autor, que é intemporal e é anónimo". Depois, em Pierre Menard, autor do Quixote, temos um escritor que, séculos depois, escreve o Dom Quixote, palavra por palavra. E este Quixote, o de Menard é, obviamente, infinitamente melhor que o outro Quixote, o de Cervantes. No As ruínas circulares, conhecemos um homem que quer sonhar um homem e em A lotaria na babilónia reflectimos sobre a arbitrariedade. O conto que dá nome à primeira parte deste livro, O jardim dos caminhos que se bifurcam é um genial labirinto. Funes, o memorioso, é um monumento à linguagem e à palavra. Mas um dos meus favoritos é, como não podia deixar de ser, o A biblioteca de Babel, com todos os livros que já se escreveram e todos os livros que um dia se irão escrever e todos os livros que podiam ser escritos. Que ideia maravilhosa e ao mesmo tempo, assustadora.

Irei certamente continuar a ler Borges e irei certamente regressar a este contos que pedem para ser relidos.