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Ler por aí

Ler por aí

07
Jul18

Limões na Madrugada, de Carla M. Soares

Patrícia

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Limões na madrugada, o último livro da Carla M. Soares estava na minha estante (e para vos dizer a verdade, no meu Kobo, que tenho tanto a cópia física como a electrónica) à espera de ser lido desde o dia do seu lançamento. 

A primeira coisa que tenho a dizer-vos é que este não é o livro de que estava à espera. 

Da Carla li o Alma Rebelde e já ouvi falar muito sobre os outros livros publicados. O Ano da Dançarina é um dos que está na minha lista, hei-de lê-lo um dia destes. Depois de livros com uma enorme componente histórica e de livros com uma enorme componente fantástica (não é, Carla?) não estava de todo à espera desta história. 

E a minha grande crítica a este livro é mesmo a capa. Que não tem nada a ver com a história. 

Eu até compreendo que a capa está na linha dos outros livros da escritora mas este não é "mais do mesmo". Pode ser melhor ou pior, conforme os gostos e opiniões dos leitores mas é, acima de tudo, diferente. E a capa é completamente enganadora. Não gosto e depois de ter lido o livro senti-me enganada (caí até na asneira de o dar a ler a quem não devia - mas aqui, mea culpa, que não devia oferecer livros que não li).

Por outro lado, ainda bem... Porque eu gostei bastante deste livro. Surpreendi-me mas rapidamente fiquei interessada na história e nos personagens.

Há várias histórias a ser contadas nestas páginas e a Carla fez um bom trabalho, é fácil não perder o fio à meada e continuamos interessados em acompanhar tudo. 

Num livro que não é muito grande e que se lê, aparentemente, de forma muito rápida e simples, a escritora apresenta-nos a Adriana, uma jovem mulher que, como todos nós, é, não só o somatório do que já viveu mas alguém complexo, influenciado e moldado pelo que os outros viveram. 

Como leitora, como alguém que gosta de passar tempo com os personagens que conhece, gostava de ter lido mais sobre a Cloe e o Javier e interessa-me a história da tia da Adriana mas a verdade é que o livro não necessita disso. Assim como está mostra-nos as várias facetas do amor. Desde a luxúria do sexo à serenidade da amizade ou à obrigatoriedade do amor familiar. Em cada página a Carla obriga-nos a parar para pensar e reflectir. Às vezes apetece-nos esbofetear a protagonista, outras sofremos com ela. 

Acho que já perceberam que não vou falar da história em si. Se quiserem conhecê-la leiam o livro. Não vos quero estragar a surpresa nem a leitura.

22
Jun18

A Completar Frases, Vocês Conhecem Mais Sobre Mim...

Patrícia

Vilã desafiou-me e cá vai... 

 

Sou muito... Mau feitio. Sim, sou, até com os livros. Quando fico zangada com um livro tenho que ver livre dele, oferecendo-o a alguém que o queira, a uma biblioteca ou qualquer coisa do género. Não o quero perto de mim.

Não suporto... Frases bonitas só porque sim. Zero pachorra para tal. "Ah e tal, estas frases são tão inspiradoras". Não, não são. São só chatas.

Eu nunca... escreverei um livro. Sou leitora, não escritora!

Eu já... Dobrei cantinhos de folhas para saber onde ia, já sublinhei a caneta ou marcador. Já escrevi as páginas de livros. Sou um monstro, eu sei.

Quando era criança... Lia um livro de Os cinco em duas horas. Ou assim me diz a minha mãe. Ela cronometrava. Eu não, que estava mais interessada em esticar a leitura para ela não me chatear e me vir dizer que "não se lê rápido porque é preciso mastigar o livro". 2 horas era uma eternidade para um livro tão pequeno.

Neste exacto momento... Estou a fazer algo de que gosto muito: reler um livro. Reler é reencontrar amigos. Reler é fazer uma pausa e não me deixar consumir pelo futuro. Reler é fixe e eu gosto. Sempre gostei. 

Eu morro de medo... ter um problema qualquer e não ser capaz de ler. Deixar física ou mentalmente de conseguir ler e compreender um livro. É a minha linha vermelha para a vida.

Eu sempre gostei de... fantasia. Mergulhar num outro mundo. Não é esse o principal propósito da literatura? Falar de coisas sérias através da ficção? Não percebo porque consideram fantasia um género menor. Para mim é um género maior.

Se eu pudesse... tinha uma biblioteca com escadinhas nas estantes. Sonho de consumo.

Fico feliz quando... Chego ao final do dia de Natal com uma pilha de livros novos e que não fui eu a escolher para ler. Não acontece... aí deste os meu 12 anos.

Se pudesse voltar no tempo... Ouvia as sugestões literárias da minha mãe e tinha começado a ler literatura portuguesa muito mais cedo.

Adoro... O momento em que acabo de ler um livro. Aquele imediatamente antes do outro em que percebo que o livro "acabou" (o drama, o horror, a tragédia).

Quero muito... Mais livros na estante?

Eu preciso... dos livros do Sanderson em capa de pele (custam 100 dólares cada um, não vamos falar sobre esse assunto)

Não gosto... de não conseguir ler um livro. Sinto-me um bocado burra.

21
Jun18

Morreste-me, de José Luís Peixoto

Patrícia

 

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"Pousei-te as mãos nos ombros fracos. Toda a força te esmorecera nos braços, na pele ainda pele viva. E menti-te. Disse aquilo em que não acreditava. Ao  olhar amarelo, ofegante, disse que tudo serias e seríamos de novo. E menti-te. Disse vamos voltar para casa, pai; vamos que eu guio a carrinha, pai; só enquanto não puder, pai; vá agora está fraco mas depois, pai, depois, pai. Menti-te. E tu, sincero, a dizeres apenas um olhar suplicante, um olhar para eu nunca mais esquecer. Pai. À hora, mandaram-nos sair. Quando saímos, agarrados como náufragos, a luz abundante bebia-nos."

19
Jun18

A letra e o espírito dos livros

Patrícia

Nunca tal me tinha acontecido mas a verdade é que, pelo primeira vez, rejeitei completamente uma tradução. Na verdade até me parece que a tradução - no que à letra diz respeito - está bastante boa. O problema para mim foi o espírito.

Tenho que dizer deste já que percebo zero de tradução e que toda a minha percepção é a de "leitor".

Também tenho que dizer que já li muita coisa traduzida pelo tradutor (Jorge Candeias) e que o acho um tradutor fabuloso. O trabalho que fez com, por exemplo, as crónicas de gelo e fogo foi muito, muito bom. 

Na verdade, o trabalho que fez com o Império Final e o Poço da Ascenção foi igualmente bom (ou pelo menos assim o senti enquanto li compulsivamente estes dois livros)

E para ser completamente sincera, se eu não estivesse há meses a ler o BS no original (e a ouvir os livros na fabulosa voz do Michael Kramer), provavelmente este sentimento de desilusão não tinha acontecido.

A primeira vez que li Misborn (A saga Nascido nas Brumas), fi-lo em Português e apaixonei-me. Pelos personagens, pela história, pelo autor. 

Como a língua Inglesa não é uma barreira intransponível, e com a brincadeira da divisão do terceiro volume (o Herói das Eras) em 2 volumes, rapidamente comecei a ler BS no original. Li milhares de páginas escritas pelo BS - The Way of Kings, Words of radiance, Oathbringer, Warbreaker, Edgedancer, Elantris. Alguns destes livros li 2 vezes, sendo que a segunda também "ouvi". Antes de começar a ler Mistborn Era 2 (na verdade já li o primeiro volume desta  segunda saga) resolvi ouvir e reler Misborn Era 1.

Uma releitura é sempre algo perigoso. Uma releitura pode revelar pontos fortes ou pode destruir um livro. No que à fantasia diz respeito uma releitura - necessariamente sem o factor surpresa do world building - deixa que o leitor se aperceba de todas as fragilidades da narrativa.

Os livros do BS têm sobrevivido bastante bem às releituras apesar destas terem revelado alguns pontos menos perfeitos. 

BS não escreve de forma bonita. A verdade é essa. Apesar de ter algumas passagens/frases fabulosas nos seus livros (expoente máximo para os capítulos do Wit com a Shallan no Oathbringer) BS é um escritor eficaz, palavroso (e de que maneira) e que consegue agarrar o leitor pela história, pela magia do que escreve e não pela beleza da sua escrita. 

Ainda assim, Sanderson não escreve histórias para crianças. Mesmo que os seus protagonistas sejam novos em idade, os seus livros não são livros típicos do género YA (talvez posssamos, com algum esforço, encaixar neste género o Warbreaker e o Edgedancer). A parte da fantasia é fabulosa mas os temas principais dos seus livros são a política, a religião, as relações humanas, a crítica social que está ali bem presente. 

Quando peguei na versão portuguesa do Hero of Ages fiquei logo um surpreendida com um resumo, bastante básico e completamente desnecessário, dos livros anteriores. Ora, quem não leu os dois primeiros volumes não se safa com aquele resumo e quem não leu não precisa deles (até porque o BS se encarrega de nos "relembrar" de todas as partes importantes - ou de todas as que ele BS quer que nos recordemos ao longo dos primeiros capítulos do livro). 

Depois de muito revirar os olhos, lá comecei a (re)ler o livro e fiquei com a sensação de que estava a ler um livro completamente diferente do que estava a ouvir. As palavras estavam lá. Mas, de alguma forma, o livro pareceu-me muito mais infantil que na versão original. O que eu, enquanto leitora sentia naquele livro não era o mesmo que sentia no original (mesmo na segunda leitura do original). 

Não sei se isto me acontece pela língua original ser a minha segunda língua e necessariamente ter outro género de capacidade para ler em português ou se estou tão embrenhada na escrita do Sanderson que não a reconheço numa tradução. Mas parecia-me estar a ler um livro completamente diferente. 

 

 

14
Jun18

Da feira ficam as memórias

Patrícia

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Os livros da feira são especiais. Principalmente quando são os livros dos amigos, com os quais nos cruzamos em cada banca.

 A feira tem cheiro a livros. A livros novos, a livros antigos. Tem cheiro a dias felizes (não sei quanto a vocês mas algodão-doce cheira-me a dias felizes).

A feira tem risos. Tem risos de leitores e dos autores que os unem. 

A feira tem escritores, tem eventos, tem amigos em cada esquina. 

Este ano teve chuva, muita chuva. Este ano a feira teve cafés à chuva, teve abraços, batata-doce frita (a única coisa boa da gurmetização da feira) e como sempre, teve livros e livros. Livros para todos os gostos

 

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A feira acabou e da feira trouxe 4 livros. 

Dos alfarrabistas veio o Este é o meu corpo, da Filipa Melo

Dos descontinuados da Relógio D'Água veio o Norte e Sul da Elizabeth Gaskell.

Da Saída de Emergência (com hora H) vieram as duas metades de O Herói da Eras, do Brandon Sanderson.

 

Uma escritora portuguesa que nunca li, um clássico que tinha debaixo de olho há algum tempo e o final de uma trilogia que queria ter na estante.  

Um balanço positivo para uma feira que não correu, de todo, como eu esperava.

E a vossa feira, como correu?

06
Jun18

O Blog, as Leituras e a Feira

Patrícia

O blog O Sapo andava a avisar-me há semanas (talvez meses) que o template do blog no telemóvel não funcionava lá muito bem e eu andei, obviamente, a ignorá-lo (se nunca ninguém tinha reclamado não havia de ser assim tão mau). Mas confesso, andava farta de ver o aviso de cada vez que cá vinha. Juntando a isso o facto de já estar farta do template antigo (a verdade é que templates muito escuros não me agradam por aí além) resolvi mudar um bocadinho. E a verdade é que gostei do resultado - pelo menos na versão fora do telemóvel porque nessa só se vê as patinhas do ZéGato e não o livro da maravilhosa Virginia Woolf. Vai ficar assim uns tempos, depois ver-se-á.

 

As leituras Ando a reler o The Well of Ascencion (em versão ebook e audiobook) e estou a gostar tanto ou mais que da primeira leitura. Estou absolutamente fã de audiobooks, principalmente para releituras e quando tenho o ebook ou o livro para complementar. Basicamente quando estou no carro limito-me a ouvir, quando tenho oportunidade leio e oiço ao mesmo tempo. Para além de gostar de ouvir o que estou a ler (funciona porque é em inglês) dá para perceber como se escrevem os nomes e as palavras inventadas. 

Reler um livro sempre foi, para mim, um regresso a casa. Para quem anda, como eu, a mergulhar em Cosmere, o mundo inventado de Brandon Sanderson, regressar a Scadrial, já com algum conhecimento, é quase como ler a história pela primeira vez, é ter a oportunidade de reparar em pormenores que antes me tinham passado ao lado, é não ter a distracção da acção e conseguir analisar personalidades, acontecimentos, é ter a oportunidade de reflectir. 

A leitura do "A ronda da noite" continua parada. Não vale a pena, ler dois livros ao mesmo tempo não é para mim. Não funciona e o livro é demasiado bom para o "estragar" lendo-o sem lhe dar a devida atenção. Está ali parado à espera de melhores dias. 

A feira Bem, a feira não tem estado a correr exactamente como eu planeava. Só lá fui uma vez e só fiz a ronda dos alfarrabistas (e trouxe para casa o livro "este é o meu corpo" da Filipa Melo).Falhei, com grande pena minha, um encontro de pessoal dos livros que tinha curiosidade em conhecer e alguns eventos a que gostava de ter assistido. Espero conseguir ir a pelo menos uma Hora H e talvez a uma sessão de autógrafos. 

 

E vocês? O que andam a ler, ouvir? O que recomendam?

 

01
Jun18

Isto de ler devia ser divertido...

Patrícia

A frase do título não é minha, é da Paula ali num comentário do post abaixo.

Ela tem toda a razão. Ler devia ser divertido.

 

Sou leitora desde sempre. Na verdade já lia antes de saber ler, a minha mãe é uma excelente leitora ( afinal eu já na altura gostava de audiobooks e não sabia) e eu usava e abusava dessa sua qualidade. Cresci sem internet e a achar que ler era uma coisa pessoal e quase intransmissível. Ler era uma actividade solitária. Só há poucos anos isto da internet democratizou a (minha) leitura e comecei a perceber que a vertente "partilha" das leituras era, não só possível mas bastante interessante.

Com o blog (o velhinho "Histórias..." que está morto e enterrado) apareceram as primeiras partilhas, os grupos de leituras, as tertúlias, as amizades "dos livros". Com a "Roda dos livros" veio o desafio e a consciencialização da importância de ler mais escritores portugueses, mais clássicos e mais livros diferentes.

Não sou, nunca fui, de estabelecer metas de leitura, de querer ler muito, ler tudo. Fujo um bocado aos livros do momento, aos best-sellers e às novidades. Ainda assim tenho os meus momentos de pânico a pensar em todos os livros que quero, que preciso ler, e que não vou tempo para ler. No fundo é sempre o tempo a lixar-nos a vida, os planos as leituras. 

Não sou de me culpabilizar quando não leio assim tanto mas já passei os meus momentos de "em vez de estar a ver 10 episódios seguidos desta má série (já vos disse que sou completamente fã de más séries de TV? é cá coisa minha) bem podia ter acabado de ler aquele livro".

Não sou de achar que já devia ter lido tudo mas já passei os meus momentos de "como assim, só li 30 dos 1000 livros mais importantes" de uma qualquer lista de livros que alguém se lembrou de fazer no outro lado do oceano.

Devia lembrar-me mais vezes que "ler devia ser divertido".

Na verdade, a minha leitura actual reflecte precisamente isto. Ando a reler o "The Well of Ascencion" do Brandon Sanderson e ando a divertir-me horrores com a Vin e companhia.

 

 

25
Mai18

A feira, que é de todos mas também minha

Patrícia

Já estão preparados?

Lá em casa já ninguém me pode ouvir falar da feira do livro, há olhos revirados mas com aquele amor que caracteriza os que gostam de nós.

A verdade é que não tenho grandes planos para a feira. Até tinha mas a vida troca-nos as voltas e já não tenho. Mas ainda espero ir várias vezes ao parque, aquele que hoje se torna o paraíso de todos os viciados em livros. 

Até posso não ter listas preparadas, nem ter grande interesse nas sessões de autógrafos. Os livros do dia até podem não me interessar muito e sabe o deus (para o efeito julgo que será Baco, o escolhido) que me devia manter afastada das farturas (por outro lado subir e descer o parque conta como exercício físico). Mas feira é feira e há livros. Muitos livros. Livros para todos os gostos. Livros que me fazem brilhar os olhos e que vão encher a minha casa já cheia de livros.

E há escritores em cada canto, com quem podemos trocar duas palavras. E há eventos. Debates, tertúlias. Há música também. Há alfarrabistas e promoções. E há a hora H.

Há gente dos livros, que é como quem diz, bloguers, youtubers, gente que ama os livros de igual modo.

E se há quem espere ansiosamente por um concerto, há quem espere ansiosamente pela feira (eu, eu, eu).

Já estão preparados para feira? Eu estou, encontramo-nos por lá :)

 

19
Mai18

Da responsabilidade do leitor...

Patrícia

Diz a Márcia, enquanto fala de descontos e outras tentações, na inominável do mês de Abril (ide à ler a revista toda)

Sabem aquela livraria da minha infância? Já fechou. Era um espaço pitoresco com enormes estantes de madeira que cheiravam a óleo de cedro. A livreira estava sempre atrás de uns óculos (muito) graduados e parecia que toda a gente aparecia lá para lhe cortar a leitura (quem consegue não rir com esta situação?). Podíamos passear as mãos pelas prateleiras recheadas, fazer uma pilha e ler um pouco de cada livro até decidir, tudo ao som de música clássica, sentados numa poltrona.

Hoje é um bar. Fico triste quando passo por lá.

A Márcia podia ter-lhe chamado "a responsabilidade do leitor". Não posso concordar mais com este texto. Eu, que tenho um "mau feitio" bem mais acentuado que ela, vou ainda mais longe e imagino um futuro não só sem livrarias como também sem livros de autores portugueses ou sequer livros em português. E eu não quero esse futuro. Eu quero um futuro com livrarias cheias até acima de livros para todos os gostos. Quero um futuro com muita e boa literatura. Quero um futuro em que ler seja normal e habitual. Quero um futuro com escritores, livreiros, livros, editoras e leitores. 

15
Mai18

Elantris, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Tal como vos disse aqui, este é o primeiro livro do Brandon Sanderson. E que bom é.

 

Elantris é um livro de fantasia (esperem, não fujam já). Elantris não é só um livro de fantasia. É um livro de intriga política e religiosa. É um livro que tem uma história brutal, um mundo bem conseguido e personagens interessantes. É um livro que nos faz reflectir, questionar o mundo em que vivemos.

O mundo criado por Brandon Sanderson (Sel) está muito bem construido. O sistema de magia, baseado na linguagem é coerente, interessante e com um potencial enorme (talvez pouco aproveitado mas como há algumas novelas passadas em Sel e a promessa de outras histórias em Elantris, tenho para mim que ainda vou aprender bastante sobre Aons). A ligação a Cosmere não é óbvia mas este é o primeiro livro do universo. A presença do Hoid é rápida mas não acrescenta nada. Foi talvez o que mais me desiludiu no livro.

A intriga política tem uma forte presença neste livro. Sarene, que foi uma das responsáveis pela diplomacia do seu reino, não esconde deste o início que gosta do jogo político. Os seus motivos são puros (isso nunca está em causa) mas é óbvio que a política lhe está no sangue, que é uma líder nata e é através dos seus olhos que mergulhamos no sistema político e ditatorial de Kae, onde o capitalismo é rei e senhor, onde a posição social é apenas ditada pela riqueza. Pelos olhos de Raoden vemos como se constrói, organiza e põe a funcionar uma sociedade onde o valor de todos é igual e cada qual dá o melhor de si. E vemos como ambas colidem, como são antagónicas e como, por vezes, se complementam. 

Também em relação à religião temos várias vertentes, para todos os gostos. Tal como no nosso mundo, religião, fé e política misturam-se. E, tal como no nosso mundo, quando isso acontece... bem todos nós sabemos o que acontece, não é?

A literatura permite-nos reflectir sobre deus e crises de fé de uma maneira fantástica e o autor é exímio a levantar questões.

O desenvolvimento das personagens são um dos pontos fortes do Sanderson. Elantris, sendo um primeiro livro, não é excepção. Apesar de alguns elementos da "jornada do herói" serem óbvios neste livro (e na verdade não há como, na fantasia, fugir muito a esta estrutura básica)  - e aqui inserem-se os "maus da fita", vilão e anti-herói) é nos heróis que o livro ganha a batalha. Há quem considere exactamente o contrário e considere o Raoden e a Sarene como personagens planas, uma vez que não há um crescimento notável ao longo do livro. Verdade, Raoden e Sarene são coerentes e consistentes ao longo de todo o livro... porque me parece que para o autor era mais importante o que aqueles personagens conseguiam fazer, a mudança que conseguiam trazer ao mundo do que a sua própria transformação. E isso é o mais espectacular de tudo. Isso e o romance não ser, de todo, uma parte fundamental do livro. 

Se vale a pena ler? Claro.

Ainda voltarei a Elantris...