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Ler por aí

Ler por aí

22
Abr18

Oathbringer, de Brandon Sanderson (Parte 3)

Patrícia

O par mais improvável deste livro é a Lift e a Nightblood, quer dizer a Lift e o Szeth. Bem, acordemos num trio improvável.

A gaiata continua a ser das minhas personagens favoritas. E continua a protagonizar alguns dos momentos mais divertidos do livro. E mais ternurentos.

A Lift é, até agora, a personagem mais pura deste livro. Apesar de ser uma ladra e de ter, provavelmente, um passado “complicado”. E à sua boa e retorcida maneira até a NightBlood reconhece isso. Acho que há ali futuro (um futuro assustador mas ainda assim um futuro).

Deste o início que, como leitora, compreendia as razões do Szeth, e por isso fiquei feliz quando ele se juntou aos SkyBreakers. De facto, não havia outra ordem de Knight Radiants para ele.

O processo pelo qual este personagem passou (chamemos-lhe crise de fé), tendo sido forçado a perceber que a oath stone era e sempre tinha sido apenas uma pedra é algo com o qual todos nós nos podemos rever. Quando somos forçados, nem que seja por nós mesmos, a questionar uma crença, a perder uma ilusão sentimo-nos, por mais ou menos tempo, vazios. Mesmo que seja um alívio e a conquista da liberdade. Por tudo isso ver o Szeth transferir a sua lealdade para com o Dalinar e dedicar-se, com a mesma dedicação com que o tentou matar, a protegê-lo não foi sequer uma grande surpresa. Todos nós sabíamos que, mais tarde ou mais cedo, o Szeth ia aterrar ao lado certo. Vê-lo com a Nightblood e a Lift, isso sim, foi uma surpresa.

Estes três personagens foram, no entanto, pouco explorados neste livro. E sim, eu li o Edgedancer e sei que a história de Lift e do seu pet voidbringer é contada aí. E também li o Warbraker onde conheci a Nightblood e a Azure Vivenna. Mas todos contamos com um livro a contar toda a história de Szeth Son-Son-Vallano, o assassino. Diz que será o quinto (a ver vamos).

 

Claro que um dos meus diálogos preferidos é aquele entre a Lift e Dalinar, quando ele enfrenta um exército com, apenas, um livro na mão (e que, esmiuçado, dá pano para mangas):

 

“Were you . . . thinkin’ you’d fight them all on your own?” Lift said. “With a book?”

“There is someone else for me to fight here.”

“. . . With a book?”

“Yes.”

She shook her head. “Sure, all right. Why not? What do you want me to do?”

The girl didn’t match the conventional ideal of a Knight Radiant. Not even five feet tall, thin and wiry, she looked more urchin than soldier.

She was also all he had.

“Do you have a weapon?” he asked.

“Nope. Can’t read.”

19
Abr18

Conversas (sur)reais #5: Tenho sempre um (!) livro comigo

Patrícia

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Estava eu alapadíssima no sofá, com o gato ferrado a dormir ao meu colo, enquanto ele via futebol:

Eu: faz-me um favor, vai lá à minha mochila e traz-me o livro da Agustina

Ele: ...

Eu: Só não vou eu porque o gato está a dormir ao meu colo!

Ele: Não é isso. Diz-me que só tens esse livro dentro da mochila

Eu: errrr porquê? E se tiver outro? Qual é o problema?

Ele: Andas a carregar DOIS livros o dia inteiro?

Eu: A tua mochila pesa mais!

Ele: A minha mochila tem o computador do trabalho

Eu: E então? Eu estou a ouvir o outro em audiobook e posso precisar ir ver qualquer coisa ao livro, sabes que os nomes são esquisitos e às vezes preciso de os ver escritos.

Ele:...

Eu: tenho que ser eu a ir buscar o livro, não é?

Ele: Deixa estar que eu vou...

(e foi, que é um querido)

 

Nenhum de nós comentou o facto de, dentro da mochila, para além dos dois livros ainda estar o ereader. É que nem sempre tenho bateria no telemóvel...

 

18
Abr18

Elantris quote #1

Patrícia

So, using his pride like a shield against despair, dejection, an - most important - self-pity, Roaden raised his head to stare damnation in the eyes.

 

***tradução livre/lição a memorizar: A força necessária para enfrentar as situações mais complicadas da vida tem que vir de dentro. Usar o orgulho como escudo perante o desespero e a vontade de auto-vitimização. 

12
Abr18

Oathbringer, de Brandon Sanderson (Parte 2)

Patrícia

(haverá, neste post, spoiler aos livros Way of King, Words of Radiance e Oathbringer)

(continuaçao)

E falar no triângulo amoroso do momento implica falar do terceiro vértice, o Kaladin. 

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Uma das primeiras e mais marcantes cenas do Oathbringer é o regresso do Kal à casa dos pais. Apesar de ser um windrunner e do céu ser o seu lugar, o Kal não tem Stormlight suficiente para lá chegar antes da Everstorm. O encontro com os pais é super emocionante e finalmente ele pode partilhar com os pais o fardo da morte de Tien. Mas, em Hearthstone, o momento alto é o encontro com  com Roshone e o seu "That's was for my friend Moash". Pronto, este é o momento alto para os fãs do Kal. Mas o maravilhoso é a capacidade de superação, a força de carácter demonstrada, a seriedade e o compromisso para com os votos que fez.

 I will protect those who can't protect themselves

 

Na verdade todos sabemos que o Kaladin já praticava o segundo ideal muito antes de o dizer. O terceiro, o proteger mesmo aqueles que odeia é que foi desafiante. E ao longo deste livro isso fica muito, muito claro.

Uma das coisas mais fascinantes é que o autor, ao longo de todos estes livros, pega em algo que conhecemos ou julgamos conhecer, sobre o quais temos uma ideia formada e à custa de sofrimento e angustia, desconstrói tudo e obriga-nos a reavaliar as nossas posições.

A noção de Honra é-nos enraizada desde sempre. EmRoshar a Honra morreu. Restam apenas pequenos pedaços dispersos pelo mundo pelo que talvez a verdadeira imagem da Honra não seja ainda conhecida. Talvez não seja, nem de perto nem de longe, aquilo que esperamos. Mas uma coisa sabemos: a quebra de um juramento, de uma promessa - seja ela qual for - é suficiente para a matar (o que me leva a perguntar: que promessa foi necessária ser quebrada peloOdium e pelosListenners para matar o Almighty?).

O Nahel bond com uma Honorspren, tal como o que o Kal tem com a Syl, não suporta sequer a indecisão, a dúvida. Na verdade também não interessa o que é certo. Apenas importa o cumprimento da promessa feita. O espírito da promessa é muito menos importante que a letra da promessa.
Chega a ser angustiante ver a permanente dúvida sobre o que é certo. E como diz o Kal, aparentemente o certo é o que a Syl acha certo. Tenho a sensação que, algures no tempo, o Kal e a Syl vão ter ideias bem diferentes sobre o que é certo e errado e aí veremos quem cede e a que custo.

O momento, durante o cerco a Kolinar, em que o Kal se apercebe de que todos ali são inocentes, todos são seus amigos e que estão todos a morrer às mãos uns dos outros, é brutal. Acho que morri um bocadinho naquele momento. E, confesso, não morri de pena do Elhokar mas #FuckMoash pelo que aquele momento fez ao Kaladin.

A luta de Kaladin para dizer o quarto ideal e a coragem do autor de não o transformar no salvador da pátria em todos os livros foi um dos pontos positivos deste livro. Não acho que o Kal vá ser o primeiro a dizê-lo (aliás, acho que já há quem o tenha dito) nem acho que seja absolutamente necessário que o faça.

A bridge 4 continua a dar-nos alguns dos melhores momentos do livro e a deixar arcos com enorme potencial. Foi muito emotivo seguir a história do Teft  e o terceiro ideal dito por ele é de partir o coração(I will protect those I hate. Even if the one I hate most is myself), quero muito saber como raio o Rock conseguiu disparar aquele arco, acompanhar as meninas da equipa e continuar a rir-me com o The Lopen.

 

Life before death, strength before weakness, journey before pancakes

 

(e por falar em panquecas... temos que falar da Lift)

(Continua...)

10
Abr18

Oathbringer, de Brandon Sanderson

Patrícia

 

(haverá, neste post, spoiler aos livros Way of King, Words of Radiance e Oathbringer - esses spoiles estão previamente identificados)

oathbringer.jpg

 

The most important step a man can take. It's not the first one, is it?

it's the next one. Always the next step

 

Cada vez é mais dificil escrever sobre os livros desta série.

Na verdade tenho inveja de todos aqueles que ainda não leram este e os outros. Tenho inveja simplesmente porque ainda os podem ler pela primeira vez. E isso eu já não posso fazer.

Claro que ainda vou reler (provavelmente mais do que uma vez) este livro. E em cada releitura vou descobrir mais algumas peças do mundo que o Brandon Sanderson está a criar. Mas não vou tornar a ler sem saber o final, sem conhecer a proxima página.

Tenho inveja porque não vou voltar a sentir o choque de perceber que existe um épico escondido dentro de boa parte dos livros do Sanderson. Claro que ainda tenho muito, muito mesmo, para aprender sobre Cosmere. Mas a magia de perceber o que É Cosmere, já não vai acontecer.

Mas o meu conselho é: Gostam de fantasia? Então têm que ler Brandon Sanderson, têm que ler livros no universo de Cosmere. 

 

jouney before destination

 

Este não foi um livro de leitura compulsiva. Ainda bem. O caminho é tão importante como o destino. Queria, desde que comecei a ler este livro, saber o final. Tive que me controlar para não ir ler (muitos) spoilers. Ainda assim, esforcei-me para não devorar páginas, para aproveitar ao máximo cada hora passada a ouvir esta história. Li algumas partes, ouvi outras e, tantas vezes, li o ebook ao mesmo tempo que ouvi o audiobook. O ritmo de leitura foi lento e assim aproveitei para pensar, para processar as informações, para reflectir sobre tudo o o autor, de forma mais ou menos bruta, nos atirava à cara.

(SPOILERS)

A Shallan tornou-se uma das minhas personagens favoritas, como já vos tinha dito antes. Depois veio a conversa com o Wit (adoro, adoro o Wit) e a história (uma e outra vez) The Girl who Stood up e fiquei virada do avesso. Versão Brandon Sanderson de "You Know Nothing, Jon Snow" (coisa que foi, aliás, uma constante em todo o livro) num capítulo que é um tratado sobre aceitação, redenção, consequência, superação, dor, perda. Não me canso de ler e reler este capitulo. É absolutamente perfeito. Eu, confesso, sofri com a Shallan todo o tempo todo. Não faço a mínima ideia do que o autor vai fazer com este personagem nos próximos dois livros. Para já fiquei feliz com a resolução do triângulo amoroso (odeio triângulos amorosos - não há paciência!), ela escolheu, sem sombra de dúvida, o homem certo.

O que me leva a falar do Adolin. Depois do choque de ver o Adolin a assassinar o Sadeas, estava à espera que este livro fosse a queda em desgraça deste personagem. As minhas previsões eram que o Adolin, depois de ceder à vingança, cedesse à inveja (quem não escolheria o Kaladin Stormblessed, certo?) e se tornasse o instrumento perfeito - o campeão - do Odium. Errr, pois, afinal não foi exactamente isso que aconteceu. Não vou dizer-vos que adoro o Adolin (demasiado bonzinho para o meu gosto - ninguém é tão pouco ciumento assim, ok?) mas estou muito, muito interessada na sua relação com a Maya.

 

(Continua...)

 

28
Mar18

Sugestões à Quarta: As minhas sugestões do YouTube

Patrícia

O mundo dos livros não se faz só de palavras escritas. Conversar sobre livros é maravilhoso, que o digam todos aqueles que têm a sorte de pertencer a um grupo de leitores ou que têm amigos que lêem os mesmos livros que nós. Ouvir falar de livros também é bom. E por isso os canais de youtube são um óptimo veículo para falar de livros.

Deixo-vos aqui a minha selecção de canais, por ordem alfabética. Estes são aqueles a que volto sempre, que acompanho mais de perto.

A Cabeça do Ned – Para os fãs de Game of Thrones aqui fica a versão vídeo de um podcast que acompanhou todos os episódios das série. Eu oiço em podcast e está neste momento em stand-by à espera da próxima temporada.

A Miúda Geek – Para quem gosta de romances históricos clássicos ou literatura portuguesa. Ide ouvir a Elisa, vá.

Abstração Colectiva – Um dos meus canais brasileiros preferidos, de onde tiro imensas sugestões de leitura. Gosto especialmente da análise aos livros da Úrsula K. Le Guin.

Aprendiz de Leitor – O Hugo, sem o saber, foi o responsável por uma das minhas últimas compras. Gosto especialmente das opiniões longas e bom fundamentadas.

Books & Movies – A Dora é impagável. Sem dúvida a melhor comunicadora do Book Tube Português. Apesar de não lermos, na maior parte das vezes, o mesmo tipo de livro acabo sempre por voltar e divirto-me horrores com os vídeos dela.

Jardim de Mil Histórias – A Isaura é a miúda mais doce do Book Tube Português e também lê muito. Os vídeos de opinião são sempre bons mas quando fala de livros infantis torna-se especial.

Legendarium Podcast – Cosmere, Brandon  Sanderson, Stormlight Archives. Preciso dizer mais? Para quem gosta de fantasia e dos livros do Brandon Sanderson, este é O canal. Eu oiço em podcast há bastante tempo mas fiquei feliz quando começaram a gravar em vídeo. Basicamente é o canal com o qual me identifico mais e é o que, tivesse eu tempo e companhia, gostava de fazer (em versão podcast, claro).

The holy reader – A Carolina lê muito e é muito expressiva. Um dos canais onde encontro sempre boas recomendações.

VevsValadares – A culpada por eu ter descoberto o maravilho Jonathan Strange & Mr. Norrel. E por algumas das melhores análises literárias que já ouvi. Devia ser de visualização obrigatória para quem faz vídeos de opinião. Ou para quem gosta de ler e se quer divertir.

Words of a reader – No outro lado do mundo lê-se e tem-se Conversations over coffee. Gosto imenso desta rubrica desta miúda.

E sim, eu sei que há muitos mais canais interessantes. Esta é apenas a minha selecção de hoje.

23
Mar18

Um livro por escritor ou um escritor e muitos livros?

Patrícia

Sou, desde sempre, uma leitora de "escritores". Quando gosto de um escritor procuro sempre (quase) todos os seus livros. Há quem diga que prefere ler muitos livros de escritores diferentes que muitos livros de um só escritor. Respeito mas não compreendo. 

Eu sou uma leitora fiel. E gosto de ter "por ler" livros de que sei que vou gostar. Mais do que "gostar" a verdade é que preciso disso. Há alturas em que é preciso "voltar a casa", à zona de conforto. Eu gosto de conhecer novos escritores mas gosto muito mais de ler livros novos de escritores que amo (felizmente não tenho que escolher uma ou outra coisa).

Há sempre o perigo de enjoar. De nos desiludirmos. De um dia dizermos: "chega, não leio mais nada deste escritor". Aconteceu-me com vários, para dizer a verdade. Há escritores por quem tenho muito carinho, foram importantes algures no tempo, gostei muito de alguns dos seus livros mas que dificilmente voltarei a ler (incluo aqui, por exemplo, a Juliet Marillier, a Anne Bishop ou o Christian Jacq). Quando sinto que estou sempre a ler o mesmo livro, mas com roupagens diferentes também está tudo estragado: por mais que goste, desisto (é o caso de Afonso Cruz - acho que só voltarei a pegar nos seus livros daqui a muito tempo). 

Mas depois há uma lista imensa de escritores de que quero ler tudo ou quero, pelo menos, ter todos os seus livros para ir lendo.

Não gosto da sensação de não ter mais nenhum livro novo de um escritor de quem gosto para ler. Aconteceu-me com a Marion Zimmer Bradley, por quem me apaixonei com a Brumas de Avalon e de quem não tenho mais nada para ler (não sou fã das Darvover novels). E é por não gostar desta sensação que leio com muita parcimónia os livros da Rosa Lobato de Faria. Estão ali na estante e são livros para "as ocasiões", são livros conforto. 

Entre os escritores dos quais quero tudo estão, claro, a Maria Manuel Viana, o Gonçalo M. Tavares, o Brandon Sanderson, a Ursula K. Le Guin, o Carlos Campaniço, o José Saramago, a Jane Austin, o Rui Zink, o Richard Zimler, o Murakami e os escritores de que sou, mais que leitora, uma (espécie) de amiga como o Nuno, a Márcia, a Carla, a Ana... 

Terei vida para ler tudo isto? Não faço ideia, até porque a lista é bem maior do que esta e tem tendência a crescer exponencialmente. Mas se é verdade que posso não ter vida para ler tudo, também é verdade que vai ser uma vida muito bem aproveitada.

 

 

 

20
Mar18

Precisamos falar sobre a Shallan

Patrícia

O seguinte texto contém spoilers para os livros Way of Kings, Words of Radiance e Oathbringer mas tenho mesmo que falar um bocadinho sobre isto.

 

 

 

No WoK os capítulos da Shallan eram os que menos me interessavam.  O livro Words of Radiance é, teoricamente, o livro da Shallan, onde conhecemos o seu passado, onde a sua relação com o Pattern é desenvolvida. Mas nem aí a Shallan me convenceu a 100%. Adoro o Pattern desde o primeiro minuto mas Shallan nem por isso. Claro que a Shallan lullaby ainda me dá arrepios (a minha versão favorita é o vídeo aí em cima) e naquela altura o meu interesse pela miúda subiu vertiginosamente (não sei o que isso diz de mim). A Shallan é responsável por alguns dos momentos mais divertidos destes livros (a conversa dela com o Adolin no restaurante ainda me dá vontade de rir) e é precisamente assim que o Oathbringer começa.

“No mating” será sempre uma expressão que me vai fazer dar uma gargalhada (já vos disse que adoro o Pattern?).

Confesso que não estava preparada para ficar ansiosa pelos capítulos da Shallan e para ela se tornar (destacada) a minha personagem favorita dos Stormlight Archives.

A profundidade que o autor deu a esta personagem é impressionante. Eu sofro com a Shallan. O meu coração fica apertado pelo sofrimento dela. A miúda vive com um pé (ou os dois) na loucura.

Não sei o suficiente sobre o transtorno dissociativo de personalidade para saber se está bem representado na personagem mas estou a aprender imenso.

A Veil e Radiant estão ambas conscientes da Shallan e esta de ambas mas estarão elas conscientes uma da outra?

Será a Shallan a personalidade dominante? Se sim, porque é que ela não se lembrava da infância? Para já (início da parte 2 do Oathbringer) inclino-me para a teoria de que a scholar Shallan que conhecemos do WoK ser a personalidade que a Shallan criança criou para sobreviver aos eventos que conhecemos no WoR. Ora isso leva-me a questionar quem é realmente a Shallan.

 

12
Mar18

Jane Eyre, de Charlotte Brontë

Patrícia

jane eyre.png

 

A história que este livros nos conta é por demais conhecida, não vou por isso falar dela. Acredito que todos conhecemos, de uma forma ou de outra, nem que seja por ouvir falar, o amor entre Jane e Mr Rochester. Eu li uma versão juvenil deste livro quando era miúda e durante muito tempo acreditei ter lido a versão original (aconteceu-me o mesmo com o Mulherzinhas).

Se por um lado, conheci cedo e cedo me apaixonei por muitos clássicos da literatura, a verdade é que não gosto das versões juvenis. No meu caso sei que teria tido capacidade e tempo para ler o livro original. Crescendo antes do tempo da internet e da facilidade de comunicação e partilha de informação de hoje, sem acesso a bibliotecas (ainda sou do tempo da biblioteca itinerante passar lá na aldeia mas até isso acabou cedo) , fui-me abastecendo nas estantes da família (e que sorte tive neste aspecto), nas raras passagens pela Bertrand da rua de Sto Antónia em Faro (a minha versão infantil de paraíso) de onde nunca saí sem um ou dois livros e graças aos presentes de família e amigos. Li sem supervisão e com toda a liberdade dentro do meu próprio universo. E esse universo tinha quase todos os clássicos juvenis verbo.

Esta (re)leitura encantou-me. Gosto de reler e a impressão, bastante positiva que tinha, que "a paixão de jane eyre" me tinha deixado em criança foi claramente suplantada. 

Todo o ambiente "gótico" do livro me encantou. O frio, o silêncio, o nevoeiro que se sente nas páginas deste livro contrasta com a força e cor da personagem principal. Rochester é para muitos um dos favoritos (eu serei sempre da equipa "Darcy") mas foi Jane que me encantou. E Charlotte Brontë também.

Obviamente a critica social e religiosa está presente, muito presente neste livro. A forma como a relação com Deus tem um papel central neste romance é muito interessante (não é possível esquecermo-nos que o livro foi publicado pela primeira vez em 1847) e que criticar  e expor de forma tão aberta a hipocrisia da igreja era muito mais difícil na altura que hoje.

Ainda assim, foi a vertente feminista que me interessou mais. Na verdade foi a vertente pessoal que me interessou mais. Jane Eyre tornou-se uma das minhas personagens preferidas.

Dizia eu que este é um romance feminista, onde Jane e Edward são apresentados lado a lado, onde a força moral dela é claramente o centro da história. Jane nunca se trai. Acima de tudo, Jane nunca se trai a si mesma. Podemos não concordar com as suas escolhas, podemos (à luz da sociedade moderna) achar uma tolice as escolhas dela mas como não admirar a força de carácter de alguém que escolhe sempre não se trair? De alguém que decide por si mesma, assumindo erros da mesma forma que assume vitórias. 

Numa época em que somos, todos os dias, manipulados e em que o nosso comportamento é condicionado e padronizado, é bom ler um clássico, um livro escrito há tantos anos e cuja mensagem principal é "decidam por vocês, mantenham-se fiéis a vós mesmos.