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Ler por aí

Ler por aí

20
Mar25

O meu nome é Lucy Barton, de Elizabeth Strout

Patrícia

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Esta é um bocadinho da história de Lucy, contada na primeira pessoa. Não é daqueles livros onde se sente a crueza da memória ou a implacabilidade da verdade. Acho que se sente exactamente o que Strout nos quis passar:  a história de uma escritora a procurar-se, com a honestidade possível. Sob uma capa de leveza e beleza, a escritora (a Lucy, não a Strout) mostra-nos uma mulher marcada por uma vida de solidão e abandono e faz-nos ficar de coração apertado ao longo da leitura. E ainda assim, este é um livro que nos deixa de bem com a vida.

Mas talvez me esteja a adiantar. Lucy está confinada ao hospital, após uma operação que não correu bem, a ver a vida dos outros a passar. Quando a mãe, com quem não tem grande ligação há anos, vem passar 5 dias com ela, Lucy é obrigada a pensar no seu passado de pobreza material e, acima de tudo, emocional. 

Nestas páginas fala-se sobretudo de solidão. As relações neste livros (seja entre Lucy e a mãe, Lucy e as filhas ou Lucy e William) são sempre marcadas pela solidão. Lucy não se  tenta mostrar como a mulher perfeita e essa vulnerabilidade é a sua enorme força. Sem escamotear a falta de amor e de cuidado que marcou a sua infância e juventude, esta é a luta de uma mulher para aprender a amar e a relacionar-se com os outros.

Este não é um livro com uma história linear ou sequer com uma história com princípio, meio e fim. É um livro cheio de episódios, mais ou menos pitorescos, que nos vão dando a conhecer a pessoa que está a escrever a história, tanto pelo que diz como pelo que cala. 

Não sei quando (ou sequer se) vou ler os outros livros da série mas é uma boa opção para uma leitura rápida num fim de semana. No geral, gostei bastante deste livros e da Lucy Barton.

 

18
Mar25

Shantaram, de Gregory David Roberts

Patrícia

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Uma das coisas que me enerva solenemente é quando me vendem gato por lebre. E venderem este livro como uma espécie de autobiografia é só publicidade enganosa. Apesar do autor repetir que isto é um romance e que as personagens não são reais (e sim, há factos reais aqui, como a sua fuga da prisão e a sua relação com as drogas) há esta vontade de que os acontecimentos aqui retratados sejam reais e isso é repetido até à exaustão. Eu compreendo a atracção, afinal fazer as coisas erradas pelo motivo certo dá um excelente mote para um livro ou um filme. Infelizmente é ligeiramente diferente na vida real e a romantização do crime nunca me convenceu. O gangster filósofo até teve a sua piada, mas não foi que me convenceu a ler um livro interminável com algumas partes chatas.

Não foi a história de Lin que me atraiu. Honestamente não consegui acreditar em quase nada daquilo e, como tal, interessou-me pouco o desfecho da coisa.

O que me agradou neste livro e a razão pela qual posso dizer que gostei foi a forma como o autor contou a Índia. O amor do escritor pelo país e pelos seus habitantes está espelhado em cada página deste livro e este livro vale por isso. Eu não quero saber se Prabhakar é real ou não, só sei que é maravilhoso. Assim como alguns dos “amigos” de Lin.

Este não será um romance de personagem, mas foram as personagens que me atraíram e convenceram porque a história, francamente, cansou-me.

11
Mar25

um grão de areia de poder

Patrícia

Ando doente com o que se passa nos Estados Unidos em particular e no mundo em geral. Tenho a sensação (na verdade tenho a convicção) que estamos a assistir ao nascimento de uma ditadura (ou autocracia como agora se diz) e, claro, as perseguições a grupos minoritários ou teoricamente mais fracos estão na ordem do dia. E é tempo da Europa se impor e não depender tanto do outro lado do atlântico. Já se percebeu que não podemos confiar. E a Europa somos nós. A responsabilidade é nossa.

Enquanto mulher, espero que tenhamos a união necessária para enfrentar o que por aí vem, que não nos esqueçamos que temos o poder para parar esta gente. E sinto a responsabilidade de fazer a minha parte. Para começar decidi que iria deixar de dar poder a quem defende tudo aquilo que eu abomino. Uma das coisas que já fiz foi apagar o Instagram. E comecei a informar a minha gente que iria sair do Whatsapp e substituí-lo por outra app de mensagens (e há sempre o telefone e as sms). O deadline, imposto por razões familiares, é no próximo fim de semana mas tirei todas notificações, pus o icon da app numa página não imediatamente visível do telefone e só lá vou uma ou duas vezes por dia. Deixei de interagir em quase todos os grupos e no fim de semana, "adiós whatsapp, fomos muito felizes juntos mas passaste para o lado negro da força". Esta minha atitude não foi percebida por todos mas tive algumas boas surpresas - até de quem não esperava. 

Mas não são apenas as redes sociais aquilo que quero mudar. Não tenho Teslas (aliás, não consigo achar piada a esses carros) mas há imensas coisas americanas que consumo e que estou paulatinamente a substituir.

O site https://www.escolho.eu/ veio dar uma ajuda. Nasceu há poucos dias e ainda está em construção, todos podem contribuir com sugestões. 

Uma das coisas que mais tenho ouvido é "mas achas mesmo que isso serve de alguma coisa? que TU saíres vai causar alguma mossa?" e a minha resposta é apenas uma "É um grão de areia de poder a menos, eu sei, mas durmo melhor assim. Não posso ficar muito indignada com o que se está a passar e não fazer nada. Até porque eu não estou indignada. Eu estou mesmo f****a e recuso cruzar os braços".

 

08
Mar25

Literatura feminina

Patrícia

Nunca me senti confortável com a ideia da Literatura Feminina. Sempre foi uma caixinha de que não gostei. Não gosto de caixinhas, para dizer a verdade. E levei muito tempo a perceber que algumas caixinhas são importantes.

Mas voltando à literatura feminina, nunca sei se diz respeito aos livros escritos por mulheres ou aos livros escritos para mulheres. O que sei é que geralmente a expressão é usada como sinónimo de "livros sem qualidade que as mulheres leem", e a verdade é que sempre foi a este desprezo que reagi. Ouvi à Patrícia Reis uma expressão cuja essência me ficou na memória (não sei se as palavras foram bem estas): “se for uma mulher a escrever é sobre o amor, se for um homem a escrever a mesmíssima coisa é sobre a condição humana”. E a verdade é que nós, mulheres, somos a maioria dos leitores, temos a faca e o queijo na mão e deixamo-nos menorizar a cada momento.

Aliás, não apenas nos deixamos menorizar como nos menorizamos. Somos parte activa desta desigualdade. Afinal, a maioria dos leitores são mulheres, mas a maioria dos escritores (nem falo dos premiados) são homens.

Quando falo deste tipo de coisa, a conversa descamba muitas vezes para o ridículo, como se por reconhecer e ter vontade de lutar contra a desigualdade, estivesse a atacar os homens escritores em particular e os homens em geral. Não, não vou deixar de ler livros escritos por homens. Mas vou, conscientemente, ler mais livros escritos por mulheres.

Ah, mas não é justo, devias ligar mais à qualidade do que ao género de quem escreve.”

Verdade... se vivêssemos numa sociedade justa, se não tivéssemos um passado de desigualdades. A meritocracia (na literatura ou em qualquer outra área) parte do princípio que todos partem do mesmo ponto, têm as mesmas oportunidades e que é apenas o mérito pessoal que faz a diferença. Ora, isso não é verdade. Não é verdade na vida, não é verdade na literatura.

E sim, as coisas já estão muito mais justas. Mas isso só acontece porque houve quem lutasse com unhas e dentes para que isso acontecesse. Porque raio haveria eu de deixar de contribuir com o que posso?

Ainda não temos igualdade de deveres, direitos e oportunidades. Aliás, acredito que estamos a regredir e por isso é cada vez mais premente lutar de forma consciente para construir uma sociedade justa.

Outra razão para ler mulheres é que elas escrevem mesmo bem. São uma lufada de ar fresco, sempre foram. E porque gosto de as ler. E porque as quero ler.

04
Mar25

Wind and Truth, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Depois de 4 anos à espera do anunciado final do primeiro arco desta história, abro já as hostilidades para dizer que foi uma desilusão.

As expectativas são sempre lixadas; o tempo (e não só) que investimos nesta série fazem com que a exigência seja maior.

Ora então vamos lá.

Este livro é chato, repetitivo no que não interessa e depois despacha assuntos importantes numa página. Há aqui uma enorme falta de edição. Até eu, que não percebo nada disso, o percebo. Este livro parece um draft: tem um potencial tremendo, mas parece em bruto (não quero imaginar antes da edição, se é que a teve), não está limado. Assim, por alto tem umas 300/400 página a mais. Não sei se foi um erro neste livro ou se o Sanderson está num patamar em que já não aceita conselhos editoriais ou se ninguém tem a coragem para lho dizer. Como fã dele espero que seja um caso único mas temo que não o seja.

“Journey before destination!” Sim, percebemos que a questão sempre foi a jornada, o crescimento de cada uma das personagens. Mas há limites para o credível. Um exemplo bastante simples: Kal e sua mudança de profissão. Sim, claro. Aliás, não vos consigo sequer transmitir o quão me irritava ler a palavra “terapeuta” neste livro. Teve o Wit (que sabe tudo) que lhe dizer que esse era o nome da profissão porque nós, leitores, somos demasiado burros para o perceber se não nos fosse explicado. E toda aquela jornada foi chata, já deitava estufado pelos olhos. Não era possível resolver aquilo em 10 dias, muito menos com aquela facilidade (considerando Szeth, Nale, Ishar e o próprio Kal). E não me façam falar do epílogo e do novo oath pact. Ah, e se até teria alguma piada ver a Jasnah a levar um banho de humildade, a forma como aconteceu deixou muito, mas muito mesmo, a desejar. Raios, até o Teravangian como Odium desiludiu com o que soubemos no epílogo.

Um parêntesis para dizer que a introdução de coisas como computadores no final do Tress (se não foi nesse foi noutro) é apenas ridícula. Eu não quero o meu mundo a deslizar para os livros de fantasia, eu gosto de fantasia precisamente porque me levam deste mundo para outro.

As múltiplas perspectivas deste livro cansaram-me. Nem sei se me lembro de todas mas: Szeth no passado, Szeth e Kal no presente, Shallan, Renarin e Rlain, Adolin, Venli, Dalinar, Jasnah, toda a história de Roshar, Odium, over and over again.

E por muito que eu goste de Cosmere (e acreditem, gosto) não havia espaço para tudo neste livro. O final do arco em Roshar tinha que ter preferência em relação a Cosmere; toda a história dos Ghostbloods se tornou irrelevante e, por conseguinte, a de Shallan também; Sja-Anat continua a ser um mistério e a busca por Ba Ado Mishram acabou por ser “muita parra e pouca uva” (sim, arco 2, blá, blá, blá). Aliás, custou-me ver que este foi mais um livro de preparação para o segundo arco que um final simpático do primeiro. A minha paixão por Cosmere tinha tudo a ver com o facto de ser um livro dentro de um livro mas agora parece que a história deste universo é a única que conta. E se a luta entre duas Shards vai acabar sempre da mesma maneira então para que raio vou continuar a ler isto? Já percebemos em Mistborn (Maravilhosa, Mistborn era 1), não precisamos de ter uma versão má da coisa.

E mesmo sendo enorme e tendo muita palha, houve imensas coisas pouco exploradas ou deixadas assim meio perdidas. A Lift (já sei, arco 2), por exemplo.

E porque raio o Sunlit man saiu antes deste livro? Spoiler alert. Um dos momentos que me deveria ter partido o coração transformou-se num “ok, no news here”.

Reparam que não falei sequer no Dalinar e na Navani?

Acho que a única coisa que me agradou mesmo foi a parte de Adolin. Gostei, pronto. Aliás, é impossível não gostar do Adolin deste o início da série. A relação dele com a Maya é maravilhosa e até do final deles gostei.  

Claro que me diverti ao ler muitas partes deste livro (uma menção para os narradores do audiobook, maravilhosos, que me ajudaram nesta provação. O Shallan, Shallan, Shallan, foi um dos meus momentos preferidos), no geral não fiquei complemente desagradada com o rumo da coisa, estive isto bem editado e poderia ser daqueles livros em que ia reclamar mas amar na mesma.

Bem, terei 6 anos para me esquecer disto e para fazer uma pausa nos livros do Brandon Sanderson. Com imensa tristeza.

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