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Ler por aí

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03
Mai24

E três maçãs caíram do céu, de Nariné Abgarian

Patrícia

três maçãs.PNG

...três maçãs que depois, tal como rezam as lendas de Maran, deixará cair do céu na terra — uma para quem viu, outra para quem contou e a terceira para quem ouviu e acreditou no bem.

Com esta magnifica capa, este é um livro que nos traz uma história cheia de imagens e de cores. Chamemos-lhe conto ou fábula, não sei bem, mas tem laivos de realismo mágico, o que seria estranho não fosse Gabriel Garcia Marques e os seus Cem anos de solidão uma das inspirações de Nariné Abgarian, uma escritora Arménia, que quis, ao contrário do livro de Gabo, contar uma história de esperança porque "o mundo precisa de beleza".

E é beleza que ela nos entrega, criando imagens através das palavras, mostrando-nos Maran, uma aldeia perdida nas montanhas, e os seus habitantes que rapidamente nos fascinam. O início desde E três maçãs cairam do céu é maravilhoso:

Na sexta-feira, logo a seguir ao meio-dia, quando o Sol ultrapassou o zénite e, cheio de dignidade, rolou até à extremidade ocidental do vale, Sevoiants Anatólia deitou-se para morrer.
Antes de passar desta para melhor, regou cuidadosamente a horta e deu às galinhas uma ração maior do que era costume — sabia-se lá quando os vizinhos descobririam o seu corpo inanimado, e a criação não podia rapar fome.

Não se deixem enganar, há muita tristeza aqui, morte, pobreza, violência mas cada elemento de tristeza é equilibrado por um divertido, afinal nem o padre se consegue concentrar num funeral em que a morta vem ataviada com umas botas de homem, claramente fora de contexto mas era a única solução para passar para o além as botas  de que Vanó tanto precisava. Assim são os habitantes de Maran, capazes de rir, de brincar, se serem comunidade.

E se depois de fecharmos o livro constatarmos que a realidade é bem diferente poderemos consolar-nos na certeza que os livros também servem para nos mostrar como poderia ser. Como pode ser, se fizermos a nossa parte. Há livros e histórias assim, que nos fazem sorrir e recordar porque gostamos tanto de ler. 

Os contos que aparecem depois são um brinde para quem, como eu, gostou da forma como a escritora escreve e, apesar de não serem memoráveis como a história propriamente dita, são bastante interessantes e agradáveis de ler.

 

02
Mai24

Um café e um shot de informação

Patrícia

Gostava de ser daquelas pessoas que começam o seu dia a ler os jornais do dia. Em papel, claro, acompanhado por um café e uma torrada. A realidade é diferente. Começo quase sempre o meu dia com um café e uma olhadela rápida pelas "gordas" dos jornais online ou por uma passagem rápida pelo BlueSky, a rede social a que me juntei quando desisti de vez do Twitter. Não me chega saber que estou viva, que os meus estão bem (ou já me teria chegado um telefonema/sms) preciso saber que o mundo continua a existir. Preciso da ilusão de estar informada, apesar de ter a noção que o périplo rápido que faço pelos jornais online não me permite estar, de facto, informada. É curioso como numa era de informação é cada vez mais difícil estar efectivamente informada. Os jornais são compostos, na sua maioria, por artigos de opinião - que são parciais, incompletos e com o objectivo de nos condicionar. O tempo do online não se compadece e não respeita o tempo do jornal diário, que tem que se reinventar todos os dias. Na era da desinformação é cada vez mais difícil confiar no que lemos e até no que vemos e ouvimos. Numa era em que a concentração se torna um problema, nem sempre temos o tempo e a capacidade esforço necessários para fazer a "verificação dos factos" e não nos deixarmos engrupir . Era tão mais fácil começar o dia a ler um jornal que, de facto, me informasse sobre o país e o mundo, sem nuances nem zonas cinzentas; com factos e sem opiniões, que essas, são como as cerejas, puxamos por uma e vem outra atrás.

E por falar em concentração, como anda o v/ tempo longe dos ecrãs? O tema continua na ordem do dia e presumo que vá continuar por muito tempo. Escolas com ou sem telemóveis e o dano que o tempo passado agarrados ao ecrã  provoca nos miúdos (e nos graúdos) continuará a fazer correr tinta nos jornais e palavras nos ecrãs. E bem. Começam a surgir estudos sobre o assunto e a grande maioria parece ser unânime: o que é demais não presta. Eu tenho, como todos, uma opinião (ou muitas sei lá) mas nenhuma certeza. Não tenho por hábito ser velha do Restelo e não acho que "no meu tempo é que era bom". No meu tempo não usávamos cinto de segurança no carro e todos tivemos amigos que morreram em acidentes . A obrigação de uso de cinto de segurança foi das melhores decisões já tomadas nesse campo. Por outro lado não sou nada a favor de proibições , na maioria das vezesnão levam a lado nenhum. Mas voltando ao exemplo do cinto de segurança, tenho que admitir que não é bem assim, às vezes é necessário que algumas decisões menos simpáticas sejam tomadas. Uma coisa eu tenho a certeza: se nós adultos não conseguimos estar longe dos telefones durante algumas horas (e não se iludam, não conseguimos - e não vale agarrar no tablet ou no computador) vai ser extremamente difícil dizer aos miúdos "vocês não podem usar porque é melhor para vocês". Somos os reis da hipocrisia com o "faz o que digo e não faças o que eu faço". Nas últimas semanas tenho tentado poupar bateria do telemóvel que, é como quem diz, pô-lo num canto da casa e não me aproximar. E admito que nem sempre é fácil. E eu cresci sem esta coisa do demo, habituei-me desde sempre a passar horas a ler (às vezes deitada no sofá ao contrário, com as pernas para cima, porque já não tinha posição) e ainda assim a coisa não é fácil, a mão foge-me e dou por mim a espreitar as "novidades". Não sei, acho que precisamos arranjar estratégias, pensar diferente (bem, "pensar" já não é fácil hoje em dia), abordar este assunto sem preconceitos (lembram-se eu ter dito que os telemóveis são "coisas do demo"? não são nada, dão imenso jeito e têm n coisas positivas) e tentar ser mais inteligente. A TV tb nos ia matar a todos e agora uma boa parte das pessoas nem sequer tem uma. 

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