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Ler por aí

Ler por aí

30
Abr24

em modo de pausa ou pelo menos em modo urbano-rural*

Patrícia

Foram uns dias de descanso não apenas merecido, que foi, mas necessário. Claro que a nossa noção de descanso por estes dias é bocado arrevesada porque, em vez de dormir toda a manhã, andámos a limpar o quintal, podar árvores, arrancar erva que nasce sem qualquer sentido nem decoro. Mas eu divirto-me com a roçadora, ele com a moto serra e pronto, é isto. Mais boa vontade que sabedoria (espero que o limoeiro sobreviva à tosquia) mas só assim é que se aprende e nós gostamos daquilo. Ou seja, limpámos a cabeça, não pensámos em aviões nem em computadores mas tivemos notícias de músculos que andavam escondidos. Nem vos vou falar da tentativa de arranjar um esquentador que as aranhas teimam em entupir e que resultou num banho morno (pelo menos não estava gelado, chamar-lhe água quente é ter demasiada liberdade com a definição da palavra quente mas, enfim, não apanhámos nenhuma pneumonia nem deixámos de estar lavadinhos), num joelho lascado e numa mão que ainda dói (vá, estou a exagerar um bocadinho mas não muito).

Mas dias de férias sem leitura não são dias de férias e resolvi levar os livros que me ofereceram no meu último aniversário e assim passei bons bocados a ler o primeiro volume de Blackwater, A cheia, de Michael McDowell e Paradaise, de Fernanda Melchior.

Confesso que nunca tinha ouvido falar da série Blackwater, publicada em 1983 e que está a ganhar uma nova vida por estes dias. Não vou falar muito da história (o livro é tão pequeno que se lê quase de uma assentada) mas vou destacar o ambiente meio de horror (suponho que nos próximos livros a coisa piore, ou melhore, depende do ponto de vista)  que se vive nestas páginas. Delicioso. Fiquei cheia de vontade de pegar já no segundo volume. 

Já o Paradaise é um género de horror completamente diferente. Este é um livro que também se lê num instante e que surpreende pela forma (parágrafos que duram folhas e folhas), uma escrita dura e torrencial que incomoda e ataca. A escritora não nos poupa nem na escolha das palavras nem da força das imagens que desenha. Macabro, duro e infelizmente, demasiado real.

Agora irei continuar a ler o  E três maças caíram do Céu, de Narine Abgarian, mas com mais calma que a vida acontece e tem precedência em relação à leitura. Infelizmente.

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*ainda não recuperei da verborreia deste fim de semana

19
Abr24

Defiant, de Brandon Sanderson

Patrícia

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Chega ao fim a aventura que foi ler as aventuras de Spensa, call sign Spin,  nesta saga de livros YA. Diverti-me bastante ao longo do processo. Estou claramente fora do grupo-alvo para esta leitura e o meu esforço é sempre julgá-lo como tal. Sei que a Patrícia de 14-18 anos teria adorado esta saga. A primeira coisa que tenho para dizer é que é uma saga muito divertida e empolgante. As aventuras da Spin e deste grupo são empolgantes. Mas, tal como se quer de um YA, esta saga é bem mais do que isso e aborda uma série de temas, uns de uma série bastante óbvia, outros de forma mais subtil mas sempre de forma directa. São livros para adolescentes e isso nota-se, não deixando por isso de poderem ser lidos por malta de outras idades. Desde o primeiro livro que M-Bot é a minha personagem favorita, dava por mim a rir cada vez que ele dava aparecia. Uma nave IA com um obsessão por cogumelos e um sentido de humor bastante peculiar mas a Kimmalyn (bless your stars) e a Doomslug têm um lugar especial no meu coração.  

A literatura, a leitura tem um papel fundamental na construção de adultos bem formados, de bem com vida e livros que celebrem a diferença são fundamentais. E é precisamente a diferença e a importância da igualdade de direitos que está escarrapachado em cada página deste livro. Amizade, luto, perda, pertença, está tudo presente por aqui. E claro, nada como a fantasia/ficção cientifica para nos fazer reflectir sobre o actual estado do mundo que é, para não ser demasiado exagerada, uma merda.

Gostava imenso de ver estes livros traduzidos por cá, ia fazer questão de os oferecer a todos os adolescentes que conheço.

14
Abr24

Imagine...

Patrícia

Imaginem que, como tantas vezes acontece nos livros e cada vez parece poder acontecer na realidade, há um evento que muda tudo e que toda a informação se perde, todos os registos da história desaparecem e que o habitante nerd do planeta terra no ano 2789 encontra um exemplar de um livro publicado no ano da graça de 2024 e que esse livro é aquele cujo nome recusamos pronunciar e publicitar mas que todos sabemos qual é. Imaginem a bitola do que é o ano de 2024 em Portugal ser aquele livro bafiento, insultuoso, ridículo, triste. 

Mas é bom que tenha sido publicado. Liberdade de expressão acima de tudo.

Mais vale que tenhamos a consciência de que a luta pela igualdade, pelo equidade, pelo direito a ser diferente, pelo respeito, pelo direito de não ser ordinário ainda é necessária. Mais vale que tenhamos a consciência que, apesar das mulheres terem conseguido igualdade consagrada na lei, que o casamento e a adopção por casais homossexuais seja uma realidade legal, que a IVG e os direitos reprodutivos  estejam previstos, nada está seguro. Gileade não existe apenas nas páginas do livro da Margaret Atwood mas também nas mentes desta gente. Sempre existiu. E é importante perceber porque é que neste momento se sentem seguros para saltar para a ribalta, para dizer em público o que deviam ter vergonha de dizer em privado. Além disso é bom que nas próximas eleições (europeias e presidenciais) nos lembremos disto. Está na altura de, finalmente, saltar de cima do muro, escolher de que lado se está. Este é um caso de "se não estás connosco estás contra nós", não é possível de outra forma. Não é possível aceitar apenas parte (e a parte fofinha) do que determinados grupos, pessoas, partidos defendem - se os direitos fundamentais, aquilo que faz de nós pessoas, não for o mais importante, então meus amigos, sim, são machistas, homofóbicos, racistas, xenófobos. 

Ah, lá estás tu a exagerar, é só um livro.

Não tenho a mínima dúvida que vou ouvir isto. É na linha do que sempre ouvi quando me recuso a receber flores ou os "parabéns" no dia da mulher. Lá estás tu a exagerar.

Parece que neste momento deixou de ser um dado adquirido de que somos pela família. Por todas as famílias onde haja amor e respeito. Famílias de todos os géneros, desde que não haja violência e terror. Eu cresci numa família monoparental. Fui educada uma mulher forte que sempre me transmitiu a importância de ser independente. Uma mulher que, quando era miúda, se recusou a aprender costura porque o que queria era ir estudar e sabia que o mais natural era que a obrigassem a seguir o exemplo e a profissão da irmã mais velha. Uma mulher que teve que ser mãe e pai quando o marido adoeceu e morreu. Uma mulher que optou por viver o resto da vida sozinha. Uma mulher que me ensinou que há sempre uma frigideira pesada em casa para nos defendermos do primeiro cabrão que ouse pôr-nos a mão em cima. Uma mulher que me deu livros e me deixou ter pensamento crítico. E garanto-vos que essa mulher será sempre o meu exemplo. 

Continuarei a defender a igualdade de direitos, deveres e oportunidades para todos. Mas todos mesmo. Até para estes energúmenos. Continuarei a ser feminista e a dizê-lo sem medo ou vergonha. E sê-lo hoje é ainda mais importante que ontem.  

10
Abr24

Ouvir um audiobook pode ser considerado ler?

Patrícia

É comum ouvir comentários como "não leste, ouviste!" quando digo que li determinado audiobook ou que foi bom ler determinado livro que ouvi em áudio. Isso não é bem ler, como se eu tivesse feito batota no jogo da leitura. Ora, vamos por partes. Em primeiro lugar ler não é um jogo, estou-me bem a borrifar com a quantidade de livros que leio ou deixo de ler e leio em formato áudio porque gosto. Mas irrita-me um bocado o purismo que é " ai e tal, não é bem ler". É ler, sim!

O que não é bem ler é mastigar e cuspir  palavras e histórias como se fossem pastilha elástica e não lhes entender o significado, as nuances, ou sem parar para pensar e reflectir no seu significado. 

Sim, ler em formato físico é diferente de ler em formato digital e é diferente de ler em formato áudio. Mas ler numa esplanada ou nos 15 minutos que dura uma viagem de um metro apinhado é diferente de ler em silêncio e com calma. Tal como ler dois livros diferentes é diferente. E a diferença é boa. E estimula.

Provavelmente usamos partes diferentes do cérebro dependendo do formato em que estamos a ler. Mas isso não é mau e até tem vantagens consideráveis, como provavelmente saberá que já lidou de alguma forma com pessoas com dislexia. Ou com invisuais. A primeira vez que lidei com formatos áudio foi quando via o meu primo a passar a áudio as gravações das aulas da faculdade para que uma pessoa invisual pudesse estudar. Pensei muitas vezes que o meu sobrinho que é disléxico teria aprendido muito mais se tivesse tido a hipótese de estudar em áudio em vez terem desistido dele na escola. O puto simplesmente não conseguia compreender uma pergunta se fosse ele a lê-la. Mas se eu a lesse debitava a resposta com entusiasmo. A ele a escola falhou e muito. Este fim de semana estávamos a falar e tendo ele demonstrado interesse em determinado livro mas sabendo que seria extremamente improvável conseguir lê-lo resolvi oferecer-lhe um audiobook. Ele tem, desde criança, uma capacidade de concentração invulgar, papa documentários e podcasts e só me questiono porque não insisti com os livros em áudio mais cedo. Acho sinceramente que ele vai gostar.

Eu sei que gosto. Gosto de ler, ouvindo histórias. Há narradores maravilhosos que acrescentam aos livros. Ouvir livros como Born a Crime na voz do próprio Trevor Noah ou I know why the cage birds sings na voz da Maya Angelou é uma experiência e tanto.  Se eu fechar os olhos ainda oiço a voz deles na minha cabeça. As impressões, os sentimentos que estes livros me provocaram ficaram marcados de uma forma bem mais indelével do que se apenas tivesse "lido" com os meus olhos.

Ler é uma experiência maravilhosa e sabe deus que precisamos encontrar formas de ler mais, ler melhor, de crescer com livros, de pôr crianças a ler. E os vários formatos de livros podem e devem ser usados para isso. Não sejamos velhos do Restelo, ler é abrir a mente, deixar a arrogância e o pedantismo de lado e partilhar a maravilha que é mergulhar numa história. Seja lá em que formato for.

 

03
Abr24

Três, de Valérie Perrin

Patrícia

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 Não li (e confesso já que não pretendo ler) o A breve vida das flores. Nada me chamou a atenção nesse livro apesar de (ou especialmente devido a) todas as loas que lhe tecem. Mas este Três estava no meu ereader à espera de vez (que é como quem diz, à espera de uma noite de insónia). E gostei, sim, senhor. 

Vamos ser realistas, a previsibilidade é algo bastante subvalorizado nos livros mas eu cada vez menos procuro a surpresa (especialmente quando é em detrimento da consistência) pelo que não me incomodou nada ter percebido várias coisas ainda o livro estava no início (ou quase). 

Escusado será dizer que a amizade destes três está no centro desta história. E que as amizades não são sempre bonitas e não sobrevivem a tudo. E que, às páginas tantas, temos mesmo que crescer apesar das amizades. Gostei imenso da Nina e do seu trabalho no abrigo dos animais (fez-me lembrar uma muito querida amiga - sim, és tu, para mim a Nina teve sempre a tua cara), da sua relação com eles. Porque este livro é feito de relações. Entre pessoas, entre animais. Basicamente como a vida. 

Há livros assim, que podem não ser perfeitos mas que são o livro certo no momento certo (é uma treta quando é o livro certo no momento errado) e este foi mesmo aquilo que estava a precisar. Uma história que me envolveu, com personagens com que me identifiquei, de quem gostei muito, com quem sofri. Até gostei das histórias de amor e eu nunca gosto das histórias de amor. 

Estou aqui cheia de dificuldade em escrever sobre este livro porque tudo o que poderia dizer seria spoiler. Bastar-me-ia aludir aos temas centrais desta história para vos estragar a surpresa - e acho que ler isto sabendo ao que se vai fará com que o livro fique meio meh. Sim, este livro depende de não saberem nada ou quase sobre ele. Portanto não vos vou dizer mais nada mas há aqui coisas das quais poderíamos falar e temas que me são caros mas que não posso. 

Olhem, talvez seja o meu pior texto sobre um livro e, por isso, vou limitar-me a um "gostei bastante mais do que estava à espera, passei boas horas na companhia desta malta e deixo-o apenas um spoiler pequenino:

"gostaria que aproveitasses para matar o *** de uma vez por todas"

o que estás a dizer é demasiado violento, ****

é a vida que é violenta, eu não tenho nada que ver com isso"

 

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