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Ler por aí

Ler por aí

19
Mar24

Amor Estragado, de Ana Bárbara Pedrosa

Patrícia

amor estragado.jpg

Ler este livro em duas madrugadas marcadas pela insónia habitual talvez não tenha sido a melhor das ideias mas a verdade é que foi o que aconteceu. Já sabia mais ou menos ao que ia mas o primeiro parágrafo marcou o tom: "Matei a minha mulher. Não fiz de propósito, mas é daquelas coisas que, depois de feitas, já não deixam volta a dar". Quem nos fala assim é Manel, o agressor, assassino de Ema. A primeira voz que ouvimos é a do agressor, não a admitir um crime mas a constatar um facto. Aconteceu, pronto. E nem sequer foi culpa dele. A segunda voz é a de Zé, irmão de Manel, que nos conta, de fora do casamento mas de dentro da família, como é que ninguém conseguiu impedir que tal acontecesse. A voz de Ema não se ouve mas enche as páginas deste livro. 

Ao longo desta breve e dura leitura pensei muitas vezes que talvez, talvez, isto fosse um pouco de exagero mas imediatamente me lembrava de todas as mulheres que todos os anos morrem às mãos de homens violentos (no ano de 2023 foram, salvo erro, 17 cá em Portugal) e voltava às páginas à procura de uma explicação para além da maldade pura e dura. Ana Bárbara Pedrosa não tem qualquer complacência e obriga-nos a olhar para esta mulher - morta às mãos de um amor estragado  (o dela, que dele não se pode falar de amor) - que sofre humilhação atrás de humilhação, que é destruída a cada página, a cada chapada, cada insulto e obriga-nos a reflectir e a admitir que falhamos enquanto sociedade. 

Tenho sempre dificuldade em dizer que um livro destes é bom ou que gostei. Esta história é feia e magoa, deprime e revolta-nos. Como ler isto? Como não ler isto?

Há muitas histórias sobre violência doméstica. Tenho a impressão que a grande maioria é contada na perspectiva da mulher, da vítima. Esta é contada da perspectiva do agressor e de um espectador homem. E dessa forma a escritora consegue passar-nos toda a força desta história.

15
Mar24

ainda sobre o tamanho...

Patrícia

Depois de mais de um mês embrenhada na leitura do Anna Karénina, de Lev Tolstoi, despachei o A estranha Sally Diamond, de Liz Nugent em três dias.

Atrevo-me a dizer que o A estranha Sally Diamond não se vai tornar um clássico nem sobreviver ao teste do tempo (e está tudo bem) enquanto o Anna Karénina vai continuar a ser lido, estudado e esmiuçado durante muito tempo. Mas se ambos tivessem sido escritos hoje, talvez fosse tudo diferente. Teria um livro como o Anna K. hipótese de ser publicado? Um livro de mais de 700 páginas, lento, lento e com metade da páginas a ser um tratado sobre… agricultura? Atrevo-me a dizer que não ou que não sem um corte gigante. O tempo de hoje é rápido, corre mais rápido que o tempo de antes e as leituras querem-se rápidas, imediatas. Lembro-me de ouvir o Zink (acho que foi ele, se não foi as minhas desculpas) a dizer que não havia qualquer razão para se publicar um livro com mais de 200 páginas e lembro-me de ter ficado meio revoltada. Adoro calhamaços. Mas compreendo agora. E claro que há excepções – veja-se o Uma pequena vida ou tantos livros de fantasia e FC – mas são de nicho ou de sorte. A grande maioria das apostas editoriais de hoje são de livros pequenos, do que eu chamo falsos calhamaços – livros com muitas páginas (papel de gramagem alta, letras aceitáveis e margens maravilhosas) mas de leitura rápida. Os poucos novos calhamaços que andam por aí são livros de autores consagrados que sabem que o podem fazer e que, não importa o tamanho, a malta compra mesmo que não leia.

06
Mar24

da abstenção

Patrícia

Hoje não vos venho falar de livros - ainda ando a ler, em doses homeopáticas (porque a vida teima em acontecer) o Anna Karénina - mas de eleições. Numa das eleições onde, parece-me, se vai discutir um governo voto a voto e se fala cada vez mais de voto útil, do método de Hondt e de círculos de compensação (sou absolutamente a favor, já agora) é necessário falar também de um tipo muito específico de abstenção.

Deixem-me recuar quase 40 anos e voltar à primeira vez em que entrei numa cabine de voto. Teria os meus 7/8 anos quando acompanhei o meu pai, doente de parkinson, no seu voto. Sabia eu e sabia toda a gente qual era o partido em que queria votar, era o partido em que votava deste o 25 de Abril, aquele que, não sendo militante, apoiava. Na altura eram distribuídos na campanha uns papéis que simulavam o boletim de voto, lembro-me de usarmos esses para que ele treinasse o voto, identificasse o símbolo do partido e votasse. A minha mãe, fervorosa apoiante da democracia, não quis, de forma nenhuma interferir e mandou-me com ele, para o apoiar fisicamente e dar uma ajuda. Ainda hoje me lembro onde a cruz foi feita e não foi, de todo, no partido que o meu pai apoiava. Ele ficou a achar que sim, que tinha sido, não me lembro se disse a alguém ou não, mas lembro-me perfeitamente de pensar que não era aquilo que ele queria. Felizmente o voto foi absolutamente desperdiçado (agradeçamos ao método Hondt por isso) portanto ficou tudo como devia ter ficado. Ao longo da vida vi gente a ir votar acompanhada, com o respectivo atestado médico que garantia a necessidade de ajuda mas na minha família sempre optámos por não o fazer. E falo no plural porque se antes a decisão foi da minha mãe, hoje é minha. Estas vão ser as primeiras eleições em que a minha mãe não vai votar. Estas são as primeiras em que eu sei que a sua capacidade de votar em consciência já não existe - e eu não faço a mais pequena ideia qual seria a sua escolha, já que nunca foi militante de nenhum partido, nem me considero com direito de por ela escolher.

Vai, por isso, contar para a abstenção. Mas isso não é justo, revolta-me o estômago e revoltar-lhe-ia o dela se disso tivesse consciência. Vai contar para abstenção exactamente como alguém que não se interessa pelos seus deveres cívicos, como alguém que não compreende, nem se interessa, pela luta que foi para ela votar e votar em liberdade.

Lá em casa sempre houve liberdade de voto. Posso dizer-vos que nem sempre soube em quem ela votou. Na verdade queria tanto não me influenciar que, quando mo dizia, só o fazia depois e não antes, do dia das eleições. Nunca me criticou por nenhuma das minhas escolhas e sempre me disse que o voto era secreto, uma decisão minha e que devia ser tomada em consciência porque seria eu quem sofreria as consequências dessa decisão. Incutiu-me uma fervorosa crença na democracia e mostrou-me que votar não era apenas um direito mas um dever. 

E este domingo vai contar para a abstenção. Não é justo.

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