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Ler por aí

Ler por aí

23
Jul23

Mrs. Marsh, de Virginia Feito

Patrícia

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“— Então, porque sinto que ela existe e eu não?”

Excerto de: Virginia Feito. “Mrs. March”.

Desagradável. Talvez tenha sido a palavra que mais li e ouvi acerca de Mrs. Marsh. Não é a que eu utilizaria para a descrever. 

Não detestei esta mulher em nenhuma página deste livro, senti pena dela o tempo todo e desde o início esta foi a história de uma tragédia à espera de acontecer. Triste e previsível. 

*** pode haver alguns spoilers daqui para a frente****

Não fiquei fascinada, embora ache que há pontos positivos neste livro. A espiral de loucura em que Mrs Marsh entra quando Patricia lhe sugere que Johanna “Uma prostituta com quem ninguém quer dormir”, a protagonista do livro publicado pelo seu marido, teria sido baseada em si é bastante interessante. 

Mas qual é o objectivo deste livro? Nas primeiras páginas percebemos que aquela mulher tem, claramente uma doença mental e que o narrador, ao contar-nos a história apenas da sua perspectiva não pode ser confiável. Por ser tão fácil perceber o que é real ou imaginado não é possível embarcarmos nas dúvidas da Mrs. Marsh nem acreditarmos na possibilidade das suas "fantasias" não as serem de todo, pelo que o final é apenas e só previsível. E triste. Já vos disse que achei este livro triste de uma ponta à outra?

Sobra-nos a crítica social. Aquela mulher tem tantos problemas e ninguém, ninguém, a ajuda, ninguém lhe estende a mão, ninguém parece sequer perceber a loucura que ali vai. Excepto Martha, claro, que é a única que lhe diz “Acho que tem de procurar ajuda”. 

“— Quando tiveste consultas com um psicólogo, querida? — perguntou George.
— Oh, há muito tempo. Em criança. Não foi nada, só uma ou duas sessões. Pelos vistos, mordi uma vez a empregada. Foi por isso. — Revirou os olhos e sorriu.
— Não foi só por teres mordido a empregada — disse a irmã. — Estás ciente disso, não estás?”

O livro promete respostas às perguntas que levanta, promete que podemos interessar-nos por Mrs. Marsh, mas não cumpre. Está centrado na loucura dela sem se importar ou sequer lhe dar importância a ela, à personagem detestável, louca, solitária que vive, ao longo das páginas deste livro, um verdadeiro filme de terror -  filme de terror que apenas nos cansa. 

14
Jul23

Livros de Verão

Patrícia

Há livros de verão? As estações do ano condicionam as vossas leituras? Os livros que lêem nas férias de "inverno" (se as tiverem) são os mesmo que lêem nas férias de verão?

Acho que há duas correntes ou melhor três. Os primeiros e acredito que mais comuns são os que para as férias procuram livros mais leves, romances, policiais, enfim, livros de leitura rápida. Os segundos são os que aproveitam as férias para ler livros mais complexos, calhamaços, enfim, livros pesados (e não apenas no que ao peso diz respeito) por terem mais "disponibilidade mental". E depois temos os terceiros que não são muito influenciados pelas circunstâncias externas ao "agora apetece-me ler isto", categoria em que me incluo.

Na verdade percebo quem diz que nas férias quer é livros envolventes e de leitura rápida, para ler à beira-mar ou de uma piscina e para "limpar a cabeça". Quem nunca precisou deste género de leitura que atire a primeira pedra. Já eu acho que ler um "guilty plesure" num dia de praia que vai terminar num jantar bem regado e com muito riso é sinónimo de um dia perfeito. Por outro lado também percebo quem pega num livro exigente apenas nas alturas em que tem tempo para reflectir sobre a leitura, para dedicar algumas horas a ler sem interrupções.

Repito-vos a pergunta que fiz no início "Há livros de Verão?" por pura curiosidade e sem qualquer género de crítica ou julgamento. Os livros de verão são sempre aqueles que cada um de nós escolher ler no verão, claro.

Com o advento dos livros electrónicos eu tenho sempre disponível uma escolha imensa. Terminou o tormento de ter que escolher os livros para levar na mala. Sei lá eu o que me vai apetecer ler depois do livro que estou a ler. Mas, just in case, já comprei um calhamaço para levar na mala... é que nunca se sabe se não acaba a bateria do e-reader numa noite sem luz.

09
Jul23

São tempos interessantes

Patrícia

Na última semana deu-se mais uma revolução nas redes sociais. Não sei se a morte do Twitter é "manifestamente exagerada" ou se é desta que o pássaro azul vai mesmo à vida. Eu apaguei a minha conta. Há uma semana decidi que chegava. A "minha" rede era, desde há muito, o Twitter, gostava daquela interacção através de palavras, aprendi bastante, acabei por me apoiar naquelas contas para estar informada. Com a venda da rede ao Elon Musk e as alterações que foram acontecendo tornou-se cada vez menos possível acreditar no que por ali se diz (pelo menos sem fazer uma verificação séria), tornou-se também bastante difícil ter uma opinião sem ter uma enxurrada de energúmenos a chatear, insultar. Até falar de livros se tornou difícil. E por isso chegou ao fim mais este ciclo. A violência que me fazia estar cada vez mais calada acabou por fazer a diferença e mostrar-me que eu já não tinha lugar ali. Numa tentativa de manter o contacto com algumas pessoas que fui conhecendo nos últimos anos abri conta no Mastodon e no Bluesky, no primeiro há uma comunidade de leitores jeitosa, o segundo parece o Twitter há uns anos mas ainda bastante calmo. A nova rede do Meta não é nem será para mim - e se o Instagram tiver que ir à vida por causa disso, irá. 

Não sei 

04
Jul23

Babel, or the Necessity of Violence (An Arcane History), de R.F Kuang

Patrícia

                                       babel.webp1540-2.jpeg

 

A escritora deste livro tem 27 anos. Caramba. Enfim, avancemos.

Ficará desiludido quem lê este livro à espera de um worldbuilding fantástico, de um sistema de magia à lá Sanderson ou coisa que o valha, de um universo absolutamente novo. As diferenças para o "nosso" mundo são subtis. A magia neste livro não é mais que "lost in translation", o poder daquilo que se perde na tradução de duas palavras inscritas numa barra de prata. Para um leitor que, por definição, gosta tanto de ler e do poder da palavra este é um conceito fantástico. Apesar de haver muitas páginas dedicadas à linguagem, ao seu poder e à tradução, este não é um livro de linguística - mesmo que todas as notas de rodapé nos remetam para tal. Na verdade esta torrente de notas de rodapé faz-me lembrar o livro Jonathan Strange e Mr. Norrel,  uma vez que ambos pegam na História, na realidade histórica e a distorcem, brincam com ela, criam uma jogo de imagens e acabam por ser uma espécie de jogo de diferenças. Mas eu gostei bem mais do Jonathan Strange e Mr. Norrel.

Robin Swift é um órfão oriundo de Cantão, que veio para Inglaterra com um propósito muito específico: aprender o máximo de línguas possível de forma a ingressar em Babel, o instituto de tradução de Oxfort, na idade certa. A desenraizamento deste miúdo começa aqui. Num livro que fala do poder das palavras não é possível ignorar que a este menino é pedido que escolha um novo nome mais inglês. Quer o percebamos nessa altura ou mais à frente começa aqui a "questão de identidade" que perseguirá Robin ao longo de toda a vida. Já em Babel, seguimos o grupo de amigos de Robin: Ramy, nascido em Calcutá e educado em Inglaterra; Victoire, nascida no Haiti mas que cresceu em França; Letty, nada e criada em Inglaterra, uma verdadeira rosa inglesa. São, em Babel, o grupo dos outsiders. Curiosamente são, ao mesmo, tempo o maior trunfo de Babel. Aliás, Babel reflecte o mundo que R.F Kuang nos quer efectivamente mostrar. Destes meninos, trazidos sem escolha das colónias inglesas, espera-se subserviência, agradecimento e nada mais que uma atitude de gratidão por lhes ter sido dada a oportunidade de viver como ingleses. Bem, quase, porque se espera que passem a sua vida a devolver a Inglaterra o favor. Para sempre serão devedores dessa benevolência. 

Já perceberam certamente que as questões de identidade e do colonialismo são centrais neste livro. Bem, isso e a questão que o subtítulo levanta "há, ou não, uma real necessidade de violência?"

Já acabei de ler este livro há algum tempo e ainda não consigo ter uma opinião completamente formada. Não me apaixonei, confesso, apesar de achar que é um livro que tem bastantes virtudes, nomeadamente o não ser minimamente meigo para com o leitor e abordar temas interessantes sob perspectivas interessantes. Acho que o que falhou para mim foi a construção dos personagens. Num calhamaço pareceu-me demasiado pouco que a única personagem realmente desenvolvida seja Robin. Apesar dos interlúdios nunca conhecemos realmente Rami, Letti ou Victoire, apenas os conhecemos na sua relação com Robin. Os interlúdios que nos levam ao passado são apenas uma forma fácil de explicar algumas atitudes como se o presente ou passado recente não tivessem qualquer poder ou influencia.

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