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Ler por aí

Ler por aí

12
Mai22

Uma boa história

Patrícia

Neste momento, preciso mais de uma boa história que de um bom livro.

Não me julguem já, deixem-me explicar-vos o porquê desta afirmação.

Não preciso de vos definir "boa história" (até porque essa definição seria diferente de pessoa para pessoa) mas talvez vos precisar dar a conhecer a minha definição de "bom livro".

Há várias coisas que quero num livro: que esteja bem escrito, que me ensine qualquer coisa, que acrescente qualquer coisa, que tenha uma boa história. Nem sempre se consegue tudo e nem sempre queremos ou temos disponibilidade mental para tudo isto.

E não há nenhum problema com isso.

Às vezes queremos apenas uma boa história. Nestas minhas fases tenho várias hipóteses. A mais fácil, a da "calona" que há em mim, é simples: pego no O Conde de Monte Cristo ou num qualquer Sanderson e já está. Simples. Excelentes livros e um regresso a casa. Releitura de um "livro da vida" e que já sei que me vai dar exactamente o que preciso. Por norma são livros que sei de trás para a frente de tantas vezes que os li mas que, por isso mesmo já nada acrescentam ou ensinam. Depois há o meio termo: pegar num livro de fantasia de um bom autor ou bem recomendado por fãs do género e geralmente a coisa dá-se. A boa história está garantida, o bom livro aparece muitas vezes. Por fim há o risco de ir a uma livraria ou seguir um conselho de alguém que sem sempre tem gostos que coincidem com os nossos. Na livraria, o factor surpresa é uma mais valia, adoro ir comprar livros de que sei pouco, que escolho pela sinopse ou por um outro método qualquer (totalmente cientifico) como um pormenor da capa ou o tamanho (sim, já aconteceu, deslarguem-me). Mas, tal como ler um livro apenas porque alguém nos disse "adorei" não é garantia de que aquele é O livro para o momento. Bem, para dizer a verdade nunca temos esta garantia e esse é uma das magias da leitura.

Isto tudo para dizer que ando a precisar de uma boa história, daquelas que me faça ler compulsivamente e me deixe com a alma cheia. Conhecem livros assim?

05
Mai22

Não, não é!

Patrícia

Na segunda-feira o É ou NÃO É, programa da RTP, foi sobre a leitura. 

O Índice de Leitura dos Portugueses

Episódio 13 de 43

Mais de metade dos portugueses não leu um único livro no último ano. E quem leu, em termos médios, leu pouco.
Não faltam esforços públicos e privados para incentivar a leitura, mas alguma coisa está a correr mal.
Como fazer com que os mais jovens não ignorem os livros? E como podem os livros competir com o ecrã? Seja o do cinema, o da televisão ou o das redes sociais no telemóvel?
Se somos o que lemos, e lemos pouco ou nada, que país seremos afinal hoje e no futuro?

Foi com bastante expectativa que me preparei para ver o programa. 

O painel: Teresa Calçada, comissária do PNL; Francisco José Viegas, ex-secretário de estado da cultura, editor e escritor; Joana Bértholo, escritora; César Carvalho, professor bibliotecário e Joel Neto, escritor.

Tive aqui a primeira desilusão: ausência de jovens, de leitores fora da elite, de não-leitores. Admito que talvez não fosse fácil levar ali alguém que seja, por opção ou convicção, um não-leitor mas não compreendo a ausência de (jovens) leitores pouco assíduos que pudessem explicar o porquê de não lerem mais. Duvido que alguma daquelas pessoas compreenda (em nome próprio) a falta de motivação para pegar num livro, a ausência de curiosidade em relação a uma história, a dificuldade em pôr de lado qualquer coisa para passar umas horas a ler. Aliás, logo na primeira intervenção, Joana Bértholo disse, e muito bem, não ser representativa dos números que tinham sido apresentados no início do programa. E a falta dessa representatividade sentiu-se sempre.

Depois foi "mais do mesmo" com alguns pontos e comentários certeiros. A Teresa Calçada ainda tentou falar da ausência de "Leitores áudio"  mas foi ostensivamente ignorada (é giro pensar que Joel Neto teve uma iniciativa muito gira, a de ler um dos seus livros em podcast, ao longo de um ano. Infelizmente ficou a meio do projecto e quem, como eu, aguardava ansiosamente pela conclusão do projecto, ficou "a ver navios") e "o digital" foi tratado como um inimigo da leitura (e os ebooks como um parente pobre dos livros - aparentemente a experiência dos presentes com os livros electrónicos não é a melhor) - atrevo-me a dizer que enquanto assim acontecer, enquanto os leitores do digital forem tratados como leitores menores, não se avança grande coisa nisto de "fazer leitores". Já mais para o final, a Joana Bértholo ainda falou de clubes de leitura e da sua importância para leitores e escritores mas também este tema não teve continuidade. Falou-se da dificuldade de pôr adolescentes a ler e a única solução que se apresentou fora "as novelas gráficas que são uma boa opção" mas, sendo verdade, juro que aquilo foi bastante insultuoso quer para os adolescentes quer para as novelas gráficas, assim um "isto com bonecos é mais fácil para os meninos". E nem uma palavra para a vergonhosa falta de opções de livros giros e interessantes para esta faixa etária. Parte do programa foi passado a discutir o preço dos livros (quando descobrirem que as "novelas gráficas" - a tal solução tão boa para os adolescentes - são das coisinhas mais caras que existem nas livrarias até ficam abananados), tema gasto e batido que não leva, nunca levará, a lado nenhum. 

Uma nota para a defesa tímida dos professores e da escola na questão da leitura - Os professores são dos que mais fazem pela leitura mas aparentemente a maioria das pessoas acha que fazem pouco. Aliás, os professores são sempre os culpados dos males do  mundo e da falta de educação dos filhos dos outros. E a maioria das pessoas considera normal e aceitável que os professores desenvolvam todo o género de projectos de leitura e se esforcem por fazer leitores no seu tempo livre e apenas por amor aos livros. Mas isto foi um aparte, não houve grande discussão sobre este assunto no programa. Algo de que foi falado e muito bem (salvo erro, Francisco José Viegas) foi de uma (hipotética e desejada) disciplina de leitura. Isso era de valor - mas, por amor do deus dos livros, nada de leituras obrigatórias.

Um dos temas abordados foi o exemplo, ou a falta de exemplos, de leitura. E já no finalzinho A Teresa Calçada chamou a atenção para a responsabilidade dos media (nomeadamente a RTP) na questão da leitura. De facto, não há nada (acho eu) na televisão que contribua para fazer leitores. Os (poucos) programas que existem são para leitores feitos, (e de um determinado tipo) porque não se gasta tempo de antena com cenas "rasca" e populares (assim numa versão literária de Caco Antibes e do seu "odeio pobre"). Quando foi a última vez que houve uma personagem de novela /série leitora? A última de que me lembro foi a Rory e ainda hoje há quem leia os livros da série como um desafio. 

Uma nota positiva: houve um debate sobre a leitura. São precisos mais debates, mais vozes, mais livros nas nossas televisões. Um clube de leitura na TV, com convidados, livros, miúdos, livros diferentes.

Os parentes pobres da literatura são os géneros que fazem leitores: romances românticos, policiais, fantasia, FC. Mas os livros destes géneros só são levados a sério quando quem os escreve é um escritor dos géneros "bem" (um Tordo nos policiais ou um Gonçalo M. Tavares no fantástico, apenas para dar dois exemplos). 

A separação entre o digital vs não-digital na questão da leitura é tão errada quanto é a Letras Vs Ciências na leitura. O digital abriu novas portas para a leitura, novas ferramentas, novas possibilidades. E se querem um argumento velho, pensem nos preços dos livros físicos vs livros electrónicos. Em vez de lutar contra os ecrãs é preciso pôr nesses ecrãs letras, histórias. É preciso regressar à magia das histórias, regressar à oralidade com os audiobooks. Sim, passamos muito tempo no trânsito - e podemos passá-lo a ouvir um livro - mas em PT a escolha é tão, tão pequena, que é difícil até sugerir isso (eu já não sei estar sozinha num carro sem que me estejam a contar "histórias"). Os novos formatos podem fazer leitores mas é preciso que os "fazedores de leitores" não lutem contra estes formatos que sobrevivem apesar dos esforços contra. Sim, o livro-objecto é uma coisa maravilhosa - mas quantas edições bonitas, daquelas que nos fazem querer correr para a livraria, existem? De quantos livros e de que livros se fala nas TV e nos jornais? As rádios, ainda assim, são a plataforma mais inclusiva. As redes sociais vieram colmatar essa ausência mas são, infelizmente e por natureza, fechadas em si mesmas e acabam por ser um trabalho de leitores para leitores - ainda assim têm um papel extremamente importante nesta luta de fazer leitores. E por isso é que deixei o melhor para o fim.

O programa apresentou-nos a Sarah Luz e o seu Poesia de Cor. Deixo-vos a sua participação:

 

 

 

 

 

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