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Ler por aí

Ler por aí

24
Out21

Beloved, de Toni Morrison

Patrícia

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Que livro!

Duro, triste, que nos envergonha. 

A história de Sethe e Denver em 124 bluestone road, uma casa assombrada pelo fantasma da irmã mais velha de Denver é muito menos uma história de fantasmas que o retrato do pior que a humanidade tem.

Quando começamos o livro, Denver tem 18 anos e é uma menina tímida, introvertida, fechada ao ponto de questionarmos as suas capacidades. Sethe, uma mulher forte, ex-escrava, com uma árvore nas costas, que tem a audácia de ser capaz de sobreviver sem precisar dos outros. Depois, por vezes de uma forma lenta, outras de uma forma vertiginosa, vamos conhecer-lhes a história, o passado, o acontecimento inominável que lhes condiciona o presente. 

Cedo conhecemos esse acontecimento que revisitamos ao longo do livro sob várias perspectivas. Não senti este como um livro de redenção mas de assombro. Qual o caminho para a desumanização total a ponto de alguém ter aquele género de atitude? Não foi a presença de Beloved que me assustou ao longo destas páginas, foi a capacidade do ser humano de desumanizar os outros, de os humilhar, violentar, destruir a ponto de tornar (quase) justificável o injustificável.

Denver é, também, uma personagem muito interessante. O ser percurso, as suas motivações que, às páginas tantas, se tornam claras e acabam por nos surpreender. Gostei que Denver se tivesse tornado a luz deste livro. 

É muito interessante analisar porque é que o acto de Sethe se torna imperdoável e perceber que nem sempre é pelas razões que, à partida, pensaríamos ser. Já mesmo no final no livro quando Ella confessa que pior que o que Sethe fez é ela ter tido a audácia de sobreviver sem ajuda. O orgulho como acto imperdoável é bastante interessante, especialmente vindo de quem percebe melhor que ninguém o que é a humilhação e ainda assim a exige dos outros. As motivações de cada um são um ponto secundário mas crucial nesta história.

Ao contrário de vários comentários que fui lendo não achei este um livro difícil de ler. Duro no conteúdo mas não na forma. Apesar de não ler uma histórias linear não tive dificuldade em seguir a história, em perceber o tempo em que estava. Sei que existe um filme baseado neste livro mas, sinceramente, não me parece que haja forma de fazer jus às várias dimensões desta história em filme pelo que não me parece que o vá ver.

Beloved é, de facto, assombroso e maravilhoso. Um livro incontornável. 

 

16
Out21

dos livros para miúdos ou de como me estou bem a borrifar para isso

Patrícia

Quando o Harry Potter foi editado houve, em alguns países pelo menos, edições com uma capa mais "adulta". Havia quem se envergonhasse de ler livros para miúdos em público. As capas protectoras dos livros também têm uma dupla função: não só protegem a capa como escondem de olhares alheios os títulos e as capas dos livros. Nunca percebi bem esta coisa dos guilty pleasures literários porque a parte da "guilty" não me parece fazer sentido algum. 

Sim, há livros direccionados para determinadas faixas etárias. Faz todo o sentido que os haja. Mas se há regra para quebrar no que aos livros e literatura diz respeito é essa. Eu leio o que me apetece, quando me apetece. 

Por acaso não sou muito fã da maioria dos livros juvenis que por aí andam mas gosto de os conhecer. Quando o meu sobrinho andava nessa fase  de ler Cherub, pedi-lhe um para ler, por exemplo. E adorei ler os Harry Potter todos assim como o Ciclo Terramar, da Ursula K Le Guin, os His Dark Materials, do Phillip Pullman ou The Black Magician, da Trudi Canavan. Já os YA da Juliet Marillier pouco ou nada me disseram e acabaram por me afastar definitivamente da escritora e da fantasia YA que se edita em Portugal que é, convenhamos, muito mázinha.

As últimas semanas não têm sido fáceis e, apesar de estar a adorar o Beloved, tenho andado sem cabeça para me concentrar em leituras mas a precisar ler para não me fugir a concentração para outras coisas ou de outras coisas. Isto não faz sentido, pois não? Mas isto acontece-me quando há a conjugação perfeita de muito trabalho, algumas preocupações e uma boa dose de "humor depressivo" (aka, tristeza misturada com vontade de partir tudo à minha volta). Nestas fases escolho o audiobook mais viciante que tenho tenho (o ideial é que seja uma releitura) e oiço-o em tempo record. Se tiver o nome Sanderson na capa eu já sei que se insere nas categorias "viciante", "bom" e "grande", todos perfeitos para estas fases.

Foi assim que peguei na novela Sunreach ("novela" que tem 200 páginas") e voltei a Detroit, pela voz da FM. E de "cynotic slugs". Se a novela é boa? Digamos que é um bocadinho acima de aceitável mas foi a história certa no momento certo. Cheguei a rir-me e só eu sei o quanto preciso de me rir. Por isso assim que acabei de ouvir esta novela voltei ao príncipio e ouvi o Skyward novamente e lembrei-me o quanto o Mbot é divertido. E agora estou a (re)ouvir o Starsight. E tem ajudado.

Pergunto-me, porém, porque raio não traduzem isto para português. FC para jovens, divertida e onde, como em qualquer bom livro de FC, se reflecte sobre algumas das grandes questões da humanidade.

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02
Out21

Anomalia, de Hervé le Tellier

Patrícia

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Em resumo, e para vos preparar para o resto da minha opinião, uma excelente ideia que não conseguiu, para mim, cumprir as expectativas.

Peguei neste livro cheia de curiosidade. Afinal, não é sempre que, um avião, o mesmo avião que aterrou há 3 meses, volta a aparecer nos radares. O mesmo voo, as mesmas pessoas. Como explicar, como lidar com o impossível.

Quais as ramificações na vida de cada uma das pessoas daquele voo quando se encontram consigo mesmos na pessoas do seu eu 3 meses mais novo?

Tudo isto me pareceu bastante interessante e, de facto, li a maioria destas pouco mais de 200 páginas num instante. Gostei de conhecer cada um deles. E gostei de facto deste livro até bem perto do fim. Lê-se que é uma maravilha mas...

O problema é que cheguei ao fim e fiquei com a sensação de que todos os temas foram explorados de forma leve e displicente, grande parte resolveu-se de uma forma demasiado fácil (nem vou falar da parte da explicação para a anomalia) e, nestes casos, fico sempre um bocado irritada.

Talvez seja por ser leitora de FC e fantasia e gostar bastante de wordlbuilding bem feito, talvez não seja importante para este livro em particular e talvez tenha uma perspectiva redutora mas, de facto, acabei por ficar meio desiludida com a ausência de explicações, de tempo para o desenvolvimento das relações entre os personagens ou da exploração efectiva de um dos inúmeros temas abordados aqui.

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