A violência deste livro é algo que não esquecerei facilmente.
A capa não nos prepara para o que nos acontece logo nas primeiras páginas deste livro. O título remete-nos para algo animal (tamed significa domesticado), visceral mas, ainda assim, tem um certo ar romântico (também o título em Português, Em estado selvagem, apresenta esta dualidade). Mesmo que julguemos o contrário, só compreenderemos verdadeiramente este título perto do fim. Mas a esperança, essa, perdemo-la logo no início.
A crueza com que Roxane Gay nos conta uma e outra e ainda outra vez o que acontece a Miri ao longo do seu cativeiro não nos permite ser indiferente a este livro. Por um lado, e sendo uma história contada na primeira pessoa, sabemos que sobreviveu. Como e com que consequências não o sabemos.
No Haiti, os sequestros tornaram-se habituais e quase rotina. Após o pagamento do resgate as vítimas regressam a casa (quase) incólumes e nada se passa - ou pelo menos é isso que muitos acham.
Mireille, filha do Haiti mas educada nos Estados Unidos, está de férias com o marido e o filho, com quem forma uma tríade de cumplicidade, quando é raptada. Um milhão de dólares é o resgate pedido. Valor não negociável. Mas o pai de Miri também não aceita negociar com raptores - se ceder, será toda a família a sofrer e tem que pensar em Mona, a outra filha, na mulher e restantes membros da família. Demonstrar fraqueza não é, simplesmente, uma opção. Miri tem que descobrir como sobreviver até que o impasse se resolva. A força, a resiliência, sempre foi a qualidade mais importante e esta mulher sabe quem é e quem precisa ser para sobreviver.
E sim, este é um livro sobre sobrevivência. Mas não é um livro sobre justiça. Nem é um livro sobre esperança. Não é propriamente um livro sobre o Haiti apesar de se passar no Haiti. Poderia igualmente passar-se em Moçambique ou, por exemplo, na Nigéria. Gostava de acreditar que não se poderia passar em Portugal e talvez não pudesse... na forma. Porque no conteúdo, sim. Poder-se-ia passar em qualquer sítio onde houvesse homens e mulheres. Onde houvesse homens cruéis e homens gentis.
A violência sobre uma mulher é levada ao extremo. Tê-la assassinado teria sido incrivelmente mais piedoso. Mas uma das coisas que mais me impressionou neste livro é a forma como alguns homens - e até os mais gentis - ainda precisam que seja ela a ajudá-los a ultrapassar tudo o que se passou. Seria rísivel se não fosse tão normal.
Lorraine. Tenho que vos falar desta mulher. Foi ela quem me levou à beira das lágrimas (e toda a gente sabe o quão "pedra" eu sou a ler um livro). Foi a presença silenciosa daquela mulher que me devolveu a fé na humanidade, bem, pelo menos um bocadinho.
Que livro, este. Não sei ainda porque é que a Dora resolveu oferecer-me este livro. Mas muito obrigada, Dora. Vou agora tentar recuperar da sova que levei ao lê-lo.