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Ler por aí

Ler por aí

31
Mai19

Aquela época do ano

Patrícia

Acho que os leitores gostam mais da feira do livro que do Natal. É verdade que no Natal recebemos livros mas a (triste) verdade é que a maioria das pessoa tem algum receio de oferecer livros a leitores (talão de troca, gente, talão de troca) e que os leitores não só não controlam a quantidade das ofertas como não controlam a sua qualidade (mais uma vez... talão de troca, ok?). Na feira tudo depende da vontade...e do dinheiro, claro. Mas já estamos todos à espera que a feira nos leve à beira da falência, não é?

Adoro ver o entusiasmo com que os leitores esperam e vivem este evento. Listas e mais listas. A felicidade de carregar livros, os projectos de leitura que nascem naqueles momentos. 

Eu gosto muito de ir à feira no primeiro dia. Há muito menos gente, os alfarrabistas ainda têm muita coisa e é uma excelente forma de "tomar o pulso à coisa". 

FEIRA 1.jpg

Fui à feira e apesar do calor horroroso (levem águas, sumos, chapéus) foi muito bom. A paragem obrigatória na banca das promoções da promoção da Relógio d'Água teve como resultado este Mrs. Dalloway, da Virginia Woolf que queria há muito. O "essa puta tão distinta" foi um achado nos alfarrabistas - acho que o livro nunca foi lido, tem marcador e está impecável - e era também um dos livros que eu queria ler.

Não sou de me perder em promoções nem de vir carregada com livros que não sei se algum dia vou ler - mas garanto-vos que às vezes é difícil resistir. Não me importo muito de investir em clássicos - são livros que hei-de ler um dia - mas por norma opto por livros que quero ler no imediato. 

Claro que a feira é, hoje em dia, bem mais do que apenas livros. Adoro os eventos, os encontros com escritores e outros leitores mas torço o nariz à panóplia de outros eventos que já se tornaram normais por lá. Por muito que eu goste de música (e gosto)  irrita-me imenso a poluição sonora que emerge na confusão de músicas tocadas todas ao mesmo tempo. Eu percebo a ideia, percebo que os grupos editoriais querem criar uma ilha no meio da feira mas, na minha opinião, só conseguem criar confusão e estou sempre com vontade de sair daqui para um local mais calmo onde possa abrir os livros que comprei e começar a ler.

 

 

 

22
Mai19

Estudos, estatísticas, números.. precisam-se. Com urgência.

Patrícia

É mais ou menos consensual que cada vez se lê menos. Há menos leitores.

É verdade que, tal como disseram o Guilherme e o Hugo, numa conversa bastante interessante no podcast Sem Barbas na Língua, muitas das competências que adquirimos ao ler um livro podem ser adquiridas noutro género de leituras ou ou até noutro género de actividade - quem diz que, por exemplo, a criatividade não pode ser estimulada com um jogo de computador?

A este respeito também gostei bastante da conversa, moderada pela Fernanda Almeida, entre a Patrícia Reis, a Inês Pedrosa e a Rita Ferro no A Páginas Tantas de 15 de Maio.

Num país tão pequeno como o nosso, o que fará isto ao meio literário, aos livros? 

Sem leitores, ou com menos leitores, o mercado terá que se adaptar e redimensionar necessariamente e todos sofreremos com isso. Escritores, editores, livreiros e leitores.

Eu gostava de ter dados mais específicos:

Perceber qual a real dimensão da queda de leitores. Há uma diferença entre leitores e pessoas que compram livros. Será a queda em ambos os grupos proporcional?

A relação entre leitura e compra de livros alterou-se? O mercado paralelo de venda de livros está a deturpar estes dados? Qual é a dimensão do mercado paralelo? Se incluirmos o mercado paralelo (e aqui falo de olx, custo justo e afins; grupos de facebook; feira da ladra e restantes "dealers") qual a dimensão do universo de leitores?

E qual a dimensão de leitores que compram em sites estrangeiros? Bookdepository, amazon e tantos sites de livros em segunda-mão... quão residual é este grupo? É que a mim não me parece, de todo, que seja residual.

Estudos, estatísticas, números.. precisam-se. Com urgência.

É preciso perceber qual o peso do preço dos livros na compra de livros. E qual o peso do preço dos livros na leitura. E não, não me estou a repetir. Compra e leitura de livros são efectivamente variáveis diferentes. Qual o peso do preço dos livros na compra de livros em sites estrangeiros. 

É preciso perceber quais as razões para que os miúdos e graúdos optem por outras actividades em detrimento da leitura (é fácil culpar os dispositivos electrónicos mas também é uma treta). 

É preciso falar e pensar leituras obrigatórias, o papel da escola na leitura, o papel da família, a localização e o número de bibliotecas. Os livros existentes das bibliotecas. O papel das comunidades.

É preciso perceber efectivamente o que se passa, os porquês para pensar em formas de acção.

 

 

19
Mai19

Um, dó, li, tá , de M. J. Arlidge

Patrícia

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Um, dó, li, tá...

A premissa deste livro é assustadora: Duas pessoas raptadas e presas... pelo menos até que um deles morra. Queres viver? Mata o teu companheiro de infortúnio. Simples e eficaz.

Helen Grace, a inspectora-chefe que lidera o caso tem, como normalmente acontece neste tipo de livros, muitos fantasmas e é uma pessoa bastante interessante. Gostei bastante dela.

Não vos vou contar nada sobre o enredo deste livro por razões óbvias: é um policial e não vos quero estragar a diversão.

No meu ponto de vista, não sendo o melhor policial que já li na vida, lê-se bem e tem um final suficientemente agridoce para agradar. As cenas negras são suficiente macabras para me dar a volta ao estômago. 

Só fiquei com pena de não ter tido a hipótese de descobrir quem era o assassino... 

 

15
Mai19

Berta Isla, de Javier Marías

Patrícia

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Berta Isla foi o primeiro livro de Javier Marías que li. Este autor estava naquela lista dos "incontornáveis e adorados por todos que não li porque tenho um medo do caraças de não gostar e ser a ovelha ronhosa cá do sítio". Em vez de começar pelos livros mais famosos ou por aqueles de quem todos os meus amigos falam (com o Os enamoramentos à cabeça desta outra lista) comecei por um que comprei por impulso no dia em fiz 40 anos.

Berta Isla conta a história de um casamento... não, de um "casamento" talvez não seja a palavra certa. Berta Isla conta a história de como duas pessoas, por pura teimosia (e no fundo talvez seja isso a que chamamos amor) se mantêm numa relação quando toda a lógica diz que aquela não faz nenhum sentido. É a história de duas pessoas que não deixam que a vida se intrometa na sua relação.

Berta e Tómas (ou Tom) conhecem-se no liceu. Ela, madrilena, ele, filho de um inglês e de uma espanhola, cedo percebem que é um com o outro que querem ficar. A separação do tempo da faculdade (ela estuda em Madrid, ele em Oxford) marca o início e, afinal, o ritmo de toda uma vida. As separações frequentes, a vida a dois e as vidas, que não se misturam, quando estão separados. É durante a estada em Oxford que Tom é recrutado, após um incidente que tem o poder de mudar o curso de uma vida e por ter um talento especial para as línguas, para os serviços secretos ingleses. Mas não é certamente a necessidade de secretismo que advém deste tipo de ocupação que se irá intrometer na vida de Berta e Tómas.

Berta não sabe, na verdade, a que se dedica o seu marido. E quando descobre continua a não saber. E como tal, como qualquer pessoa que, na verdade, não sabe mas tem parte da informação... especula, adivinha, remói, inventa, sonha, julga. E vou confessar-vos - esta parte chateou-me um pouco. Metade do espaço dedicado às especulações da Berta tinha sido mais que suficiente. É certo que a escrita de Javier Marías é excepcional. É certo que nos consegui transmitir o solidão, o isolamento, o abandono que Berta sente. É certo que as suas dúvidas são também as nossas (apesar de sabermos mais que ela, cortesia do narrador omnisciente da primeira parte do livro) e os seus medos e julgamentos são também os nossos. Ainda assim... demasiado longa, esta segunda parte. Resistir-lhe foi um exercício de persistência (bastante facilitado pela magnífica escrita do autor). 

Por outro lado gostei muito mesmo das primeira e terceira parte. Ouvir as histórias de Berta e Tom por um narrador omnisciente com um ritmo me me fazia virar página atrás de página foi mesmo muito interessante. O que me leva a querer ler a trilogia "o teu rosto amanhã" porque acho que vou gostar muito.

Apesar de ter achado desnecessariamente longa a parte em que são levantadas todas as questões morais e existências deste livro achei-as bastante pertinentes. Reflectir sobre o conceito e o pré-conceito do amor e das convenções sociais; sobre o casamento; a lealdade que devemos aos outros e a nós mesmos ou sobre quem somos, sozinhos ou com os outros, é sempre bom.

No geral acabou por ser um livro de que, apesar de não ter sido fácil de ler, gostei muito.

 

 

14
Mai19

O que eu aprendi com o GOT

Patrícia

Please, please, please, please, please.. nunca façam uma adaptação (seja, série, filme, anime ou o raio que o parta) de nenhum dos livros do Sanderson. Ou de quem quer seja.

Se quiserem muito, muito, fazer algo... fiquem-se pelos YA. Assim, como assim, têm muito mais público.