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Ler por aí

Ler por aí

24
Mar19

Ragnarök, O Fim dos Deuses, de A.S. Byatt

Patrícia

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A importância de preservar as histórias, as lendas, as fábulas e os mitos de uma cultura faz com que, volta e meia, se conte a mesma história de uma forma ligeiramente diferente. Se é verdade que nos custa (a mim, pelo menos, custa) ouvir "aquela" história com inflexões completamente diferentes (sabem lá vocês o que sofro quando ouço as várias versões da guerra de Tróia) a verdade é que essa é uma forma usada desde sempre, seja na tradição oral, seja na escrita ou na sétima arte. Mudam-se os tempos e os mitos, de acordo com a sua essência, adaptam-se com toda a facilidade.

É assim que neste livro, que faz parte da colecção The Myths, nos é recontado o mito nórdico do Ragnarök, uma sequência de eventos que levam ao fim do mundo, à batalha final onde a maioria dos deuses morre. 

Ora, o meu problema com este livro começa precisamente aqui. Isto é, para mim, uma história completamente nova. Sim, já tinha ouvido falar de Thor e do seu martelo, de Odin, Tyr, Loki e até de Fenris mas Yggdrasil, , Rándrasill, Baldur, Frigg, Jörmungander e outros tantos foram completamente novos para mim. Um livro que era suposto transportar-me para um mundo mágico já conhecido acabou por me transportar para um sítio onde só lá para o final sabia quem era quem.

Este foi um claro caso de "não és tu, sou eu", tenho plena consciência que é um livro muito bom mas que me custou imenso a ler e que não consegui apreciar.

É verdade que aprendi muito sobre a mitologia nórdica e agora que o terminei estava capaz de começar a ler sobre os deuses nórdicos e efectivamente perceber, desde o início, o que estava a ser contado.

Ainda assim, no meio da luta para prosseguir na leitura, consegui apreciar a escrita e gostar imenso das partes da "criança magra". Deixem-me explicar-vos.

O Ragnarök é-nos contado pela criança magra que, estando protegida na Inglaterra rural na altura da segunda guerra mundial, comparava os mitos contados no livro Asgard e os Deuses com as histórias sobre Jesus que lhe eram contadas na catequese e com a sua própria vida. Foram estas partes do livro que me marcaram e agarraram. Dei por mim a destacar passagens, a ler algumas frases várias vezes. 

Não tenho dúvidas que ainda vou reler este livro e gostar muito mais mas esta primeira leitura foi algo penosa. Mas continuo a achar que o livro tem uma capa maravilhosa.

20
Mar19

Uma lista muito interessante

Patrícia

Uma lista, composta pela Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias, com "uma dúzia de títulos de ficção escrita por mulheres que porão certamente os homens a pensar (mas que todos devemos ler, independentemente do sexo)"

  1. O Deus das Pequenas Coisas, Arundhati Roy
  2. Rebecca, Daphne du Maurier
  3. A Balada do Café Triste, Carson McCullers
  4. Cisnes Selvagens, Jung Chang
  5. Persépolis, de Marjane Satrapi
  6. Jane Eyre, de Charlotte Brontë
  7. Lila, de Marilynne Robinson
  8. Manual para Mulheres de Limpeza, Lucia Berlin
  9. A História de Uma Serva, de Margaret Atwood
  10. A Hora da Estrela, de Clarice Lispector
  11. Diários, Anaïs Nin
  12. Orlando, Virginia Woolf
  13. Bonjour Tristesse, Françoise Sagan
  14. A Campânula de Vidro, de Silvia Plath
  15. Um Bom Homem é Difícil de Encontrar, Flannery O’Connor

Eu, desta lista, li o O deus das pequenas coisas (muito antes de ter blog), Jane Eyre, A história de uma serva e  Orlando. É pouco. Eu não sou de fazer nem de me ter em projectos mas aqui fica a sugestão, para quem a quiser apanhar, de um excelente projecto. Seria fabuloso. 

20
Mar19

Hardy, irmãos em acção, versão 2019

Patrícia

Ontem descobri, por puro acaso, que os Hardy tinham ressuscitado pela mão da editora Bertrand. A minha primeira reacção foi de um enorme sorriso. Voltei à minha infância, às histórias de mistério em que acompanhava Frank e Joe enquanto estes resolviam mistérios e crimes. 

A minha segunda reacção foi: mas que raio, os Hardy? Isto vai ter sucesso?

Eu não duvido que vá vender. A minha geração e as gerações antes da minha garanti-lo-ão. Os Hardy, como a Patrícia ou a Nancy Drew fazem parte da nossa infância e quando chegar a altura de oferecer um livro, a parte afectiva vai ajudar-nos a tomar uma decisão - afinal queremos que os putos tenham as mesmas experiências literárias que nós.

Conheço mais ou menos a história da série - e as polémicas que a envolveram, obrigando a várias revisões após queixas de racismo e xenofobia - e não falo do "politicamente correcto" de hoje em dia uma vez que a primeira revisão foi de 1959. Mas com esta revisão os Hardy, que eram pobres  e um bocadinho anárquicos, passaram a ser ricos e respeitadores da lei. As personagens não brancas quase desapareceram da série (para apenas voltarem nos anos 70), os enredos foram alterados para eliminar cenas e pormenores de maior violência. 

A série conseguiu sempre reinventar-se e sobreviver, e foram muitos os livros editados em cada uma das séries - há uns 190 volumes no The Hardy Boys Mystery Stories (cá foram editados como Os Hardy em Acção, pela Verbo), 42 nas série Nancy Drew and the Hardy Boys (Be a Detective Mystery Stories e  SuperMystery Series), 127 na The Hardy Boys Casefiles Series, 17 na The Clues Brothers, uns 40 no The Hardy Boys: Undercover Brothers, que teve mais de 20 graphic novels e já há pelo menos 20 títulos no The Hardy Boys Adventures que começaram a ser editados em 2013.

Como volta e meia gosto de ir procurando pelos livros da minha infância/adolescência e porque gosto de saber o que se vai editando para os 9-12 anos (ainda nada conseguiu bater as viagens no tempo, da Ana Maria Magalhães e a Isabel Alçada) fui logo cuscar esta ressurreição dos Hardy. 

E eu, que esperava a edição de alguns dos livros não editados em Portugal fiquei um bocado desiludida quando percebi que não, que são reedições de livros que já se venderam por cá (eram editados pela Verbo) - e enervo-me sempre quando isso não é referido quando se fala deste tipo de livro - "A Bertrand Editora publica pela primeira vez os dois volumes que iniciam esta saga de clássicos juvenis" ... é verdade, a Bertrand edita pela primeira vez... mas a Verbo já editou antes e apesar de ter também presença no Brasil, esta editora tinha uma enorme presença cá.

Agora estou cheia de curiosidade para analisar o texto e perceber se houve uma nova tradução (a antiga tradução de O tesouro da torre era da Maria Helena Lopes Ribeiro, foi editado pela Verbo em 1989), se mexeram no texto (o original é de 1927) e se o "actualizaram" ou se é apenas uma nova revisão e uma capa. Infelizmente, pelos detalhes do produto no site da editora não consigo perceber (devia ser obrigatório indicar o tradutor)

o segredo da torre.JPG

A minha versão era esta:

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Quando puser as mãos nesta nova versão hei-de reler ambos e depois venho cá contar-vos tudo.

 

 

15
Mar19

Fantasia?

Patrícia

O post do Craig Hanks no blog do Legendarium Podcast "The Rising Cost of Entry to the Nerd Tribe" vale a pena ser lido na integra mas deixo-vos aqui alguns excertos e algumas considerações (mas ide lá ler tudo, sff).

O género Fantástico sempre foi um dos meus preferidos mas, a verdade, é que não tive muitas oportunidades de o explorar quando era miúda e tinha tempo para ler e reler os livros (e que é como a fantasia precisa ser lida). Sou uma apaixonada mas não conheço assim tanta coisa. Agora, mais adulta do que às vezes gosto de admitir (e não tem nada a ver com a idade que vivo bastante bem com os 40 anos que tenho), falta-me o tempo para lhe dedicar -  e a verdade é que gosto demasiado de outros géneros de literatura para apenas me dedicar a um. 

Ainda assim, tenho imensa pena de não ser uma total geek da fantasia que acho um género de eleição porque, na verdade, permite tudo. Mas tudo mesmo. O Craig fala neste texto um bocadinho disso.

Há uns anos teria dúvidas se ainda era possível que alguém se tornasse um "geek" deste género literário - com a quantidade de livros que existem por aí - mas depois de conhecer Cosmere deixei de questionar.

Ser fã, mas fã a sério, de fantasia é sempre motivo para um sorriso e para se ser absolutamente posto de lado... mas isso apenas revela burrice porque, a verdade, é que ser fã de fantasia dá mais trabalho e exige mais dedicação do que vocês possam pensar. 

E consome "espaço no disco". Um verdadeiro fã sabe pormenores. Leu e releu as obras.. várias vezes. Conhece as personagens de dentro para fora. E não esquece. Não são livros que possamos pôr na estante e esquecer o enredo, deixando espaço para os próximos. Nós vamos acumulando... não só porque sabemos que aquilo nos vai fazer falta mas porque não conseguimos esquecer. Aqueles personagens agarram-se a nós, fazem parte da nossa vida. E ajudam-nos a conhecer bem melhor a realidade do que aquilo que vocês possam pensar.

The year 2001 was a major turning point for nerd culture. The holiday season that year saw the release of two major, era-defining movies, the debuts of two franchises: Harry Potter in November and The Lord of the Rings in December. (...)

There had always been a pretty vivid line separating nerds from the rest of the mainstream culture. Even with something as widely loved as Star Wars, there were fans, and there were fans. (...)

With the release of LotR and HP, that vivid line in the sand had just been washed over by the tide and nobody was sure where to redraw it. And if you think nerds didn’t badly want it redrawn, you’re mistaken. It’s tempting to think that we want everyone else to love the things we love. But that’s not always (usually?) the case. We want some people to love the things we love. Our people.

Like any art form, a good fantasy novel teaches us something about human nature, about ourselves and our purpose, about how to relate to the people around us. And that deserves to be shared.

14
Mar19

The Assassin's Apprentice, de Robin Hobb

Patrícia

Assassin's apprentice.jpg

Fitz fitz fice fitz. Fatz sfitz

FitzChivalry Farseer, bastardo de Chivalry, o príncipe herdeiro dos Six Duchies é entregue à família do pai aos 5 anos. Sem lugar na corte, acaba por crescer, sem nunca conhecer o pai (que acaba por abdicar do trono), aos cuidados de Burrich, o responsável pelos animais em Buckkeep. Um bastardo tem que encontrar o seu lugar. Mas não deixa de ser uma falha no plano, uma carta fora do baralho, que cria todo um leque de novas possibilidades.

"Do you think I keep you alive because I am so entranced with you? No. It is because you create so many possibilities. While you live you give us more choices. The more choices, the more chances to steer for calmer water. So it is not for your benefit, but for the Six Duchies that I preserve your life. And your duty is the same. To live so that you may continue to present possibilities.”

Este primeiro livro da série, conta-nos o crescimento de Fitz, o bastardo, como King's Man, como aprendiz de assassino, como ajudante de tratador de animais, como adolescente.

Não posso dizer que tenha sido o melhor livro de fantasia que li na vida. Não me foi difícil entrar na história mas foi complicado convencer-me a continuar - confesso que, de início, não me interessei muito pelo que andava Fitz a fazer mas sabendo a paixão que a Célia e a Carla tem por esta saga tinha mesmo que chegar ao fim. E senti muito a falta de um verdadeiro anti-herói, de um verdadeiro antagonista.

Tendo ouvido o audiobook, narrado por Paul Boehmer, fiquei bastante surpreendida quando, numa busca para perceber como raio se escreviam o nome dos personagens (tenho sempre este problema), percebi que este livro é de 1995. Nem imaginam como gostaria de ter lido este livro nessa altura - não só teria gostado muito mais como o teria lido inúmeras vezes (que é como os livros de fantasia devem ser livros) e nenhum dos seus segredos me teria passado ao lado.

Mas, não tendo sido o melhor dos livros de fantasia que já li, é um bom livro e tem um enorme potencial. 

(a partir de agora poderá haver alguns spoilers... nada que estrague a leitura mas sigam por vossa conta e risco)

 

Fitz, o nosso protagonista, conta-nos a sua história na primeira pessoa, o que significa que ao longo de todo o livro vemos os acontecimentos pelos olhos de miúdo. Às vezes vemos um bocadinho mais que ele (aquela mania de ser um King's man... vá, convenhamos que todos a percebemos quando o Verity contou ao Fitz o que Chiv tinha feito ao Galen quando eram miúdos) outras deixamo-nos enganar, sorrimos e sofremos com ele. Mas ainda não me "apaixonei" por esta personagem. Falta qualquer coisa nem vos sei explicar bem o quê. A personalidade dele ainda não está bem formada, as escolhas ainda não são bem dele e só no fim, mesmo no final deste livro, comecei a interessar-me pelas suas escolhas.

Mas gostei imenso de algumas das personagens deste Assassin's Apprentice.

Burrich ainda nos irá surpreender. É, desde o início, óbvio que também possui o talento para a ligação provocada pelo Wit e tem sido um bocadinho irritante por causa disso mas é daqueles que ainda vai aprender. E é, de facto, o pai do Fitz. Não o progenitor mas o pai.

Adoro a Lady Patience. Adoro. Deposito algumas fichas nela e no papel que ainda vai desempenhar.

E gosto muito do Verity. Ele e a Kettricken ainda vão provocar bons momentos de leitura. Da Molly e do Shrewd será inevitável falarmos nos próximos livros mas para já nem um nem outro me deixaram grande impressão.

O Galen desiludiu-me como vilão. Demasiado a preto e branco. A história do Chivalry com ele lá lhe deu alguma cor mas foi só de passagem. O Regal é, para já, apenas irritante e ainda terá que crescer muito para se tornar realmente o antagonista desta história (mas é ele a minha primeira aposta para o lugar) a não ser que apareça alguém verdadeiramente marcante nos Red-Ship (esta parte bem que podia ter sido um bocadinho mais desenvolvida mas lá chegaremos, não é?)

Já perceberam para quem vai o meu amor e entusiasmo nesta história, não é?

Pois, isto valeu pelo Fool e pelo Chade. Quem ou que género de criatura é o Fool? E o que vou sofrer quando o Chade morrer? Gosto tanto dele mas o mentor morre sempre... (ca nervos). 

Outro ponto forte do livro é o(s) sistema(s) de magia. Wit e Skill. Quero muito saber mais sobre ambas e se tivesse que escolher uma para mim, nem hesitava. Wit, obviamente. Ainda não recuperei do destino que Nosy e Smithy tiveram. Não se faz.

08
Mar19

O Processo Violeta, de Inês Pedrosa

Patrícia

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Violeta, uma professora, envolve-se com um aluno, Ildo. Ana Lúcia, professora, vive o seu drama pessoal após ter sido violada por outro aluno. Clarisse, jornalista, persegue a história de Violeta e Ildo, enquando vive uma gravidez com a qual não se consegue conciliar. Paulina, mãe de Ildo, tenta sobreviver às consequências de uma verdade revelada.

Inês Pedrosa não nos facilita a vida e tenta obrigar-nos a olhar para os nossos próprios preconceitos (principalmente aqueles que insistimos que não existem). Apesar de nos transportar para os "loucos e maravilhosos" anos 80, é dos temas fracturantes da sociedade actual actual que este livro trata. Mas não é (ou não deveria ser) sempre assim na literatura?

Como olhar para a relação entre um miúdo e uma adulta? Aos 14 anos é-se miúdo ou adulto? O tema "consentimento", discutido até à exaustão nas tascas actuais (aka redes sociais) tem um lugar de destaque neste livro. Amor ou abuso? 

E quem acha que, com 14 anos, Ildo não tem maturidade para consentir num relacionamento como vê o miúdo, exactamente com a mesma idade, que viola Ana Lúcia?

E Violeta? Abusada ou abusadora? Mulher apaixonada ou infantil? 

Este livro, cheio de histórias de mulheres, obriga-nos a rever as convicções com que olhamos a sociedade actual. Não tenho dúvidas que, por isso, por ser uma história de mulheres que se atreve a pôr em causa limites e convicções estabelecidas será um livro mal visto, polémico e muito criticado. Aliás, já o é.

Por mim, gostei bastante. Não concordo sempre com as opiniões da autora que oiço regularmente no programa Páginas Tantas e no O último apaga a luz. Nem sequer concordo com tudo o que escritora (parece-me) quis transmitir com este livro. Mas isso não me impediu de o ler, de pensar e de formar as minhas próprias conclusões. Este é um bom ponto de partida para uma excelente discussão. E se há coisa que reconheço e respeito neste livro é que nele se ouve a voz da Inês Pedrosa em cada página...

Quando leio um livro, tento sempre separar o escritor das suas personagens e tento não o procurar em cada página. Claro que neste livro isso foi completamente impossível. Afinal, já ouvi "uma ou duas" daquelas histórias contadas na primeira pessoa pela escritora. Foi inevitável passar o tempo a pensar "quem é quem" no Insubmisso. E gostei do olhar crítico ao jornalismo...

Foi bom, muito bom rever Clarisse e Ana Lúcia, curiosamente duas personagens dos dois únicos livros que já li da Inês Pedrosa (Os íntimos e Desamparo). Gosto destas novas vidas dos personagens, gosto de os encontrar nas páginas de outros livros.

04
Mar19

Os Loucos da Rua Mazur, de João Pinto Coelho

Patrícia

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Um livreiro cego, que vai coleccionando amantes que lhe lêem em voz alta. Um escritor de sucesso que precisa de ajuda para escrever o derradeiro livro da sua vida.

O regresso ao passado leva-nos, pela mão do livreiro, do escritor e da editora,  à história de três amigos, Yankel, Eryk e Shionka. "Preciso de um preâmbulo de pureza, tem de haver crianças. Uma coisa tão virginal como um conto de fadas (...) As últimas páginas vão ser obscenas (...) A inocência é crucial. Sem ela nenhum leitor aceita o absurdo do desfecho".

A história dos três amigos vai confundir-se com a história de uma cidade, um circulo perfeito, dividida entre judeus e cristãos, num equilibrio periclitante. 

No manicómio da rua Mazur, coexistiam os loucos (Depois havia Kasia, a irmãzinha de Florian, tirada da rua poucos dias depois dele. Era uma catraia, a mais nova do hospício, e nunca se conformara por ali estar: aquilo era para loucos e o seu mal estava nos olhos, não na cabeça. No lugar de pessoas, via animais, e então? (...) No círculo perfeito, só os cães eram cães e as crianças crianças.) e, durante a ocupação russa, os presos. E mais tarde... bem, para o saberem têm que ler o livro.

Numa estrutura muito semelhante ao do Sarah Gross, o autor volta a fazer-nos saltar entre dois tempos da mesma história, permitindo-nos respirar antes de mergulhar naquele obsceno desfecho. 

A capacidade para o mal é algo exclusivo do ser humano e é dessa capacidade que trata este livro. A forma como somos capazes de nos distanciar dos outros, de os desumanizar a tal ponto que não existir qualquer empatia, qualquer identificação, que nos impeça de matar, de torturar, de destruir. 

Mas este livro também fala de amor. Do que somos capazes de fazer por amor. E de confiança. E de amizade. 

Há livros que lemos e esquecemos rapidamente. Há livros que levamos algum tempo a esquecer. E depois há livros que nos magoam de tal forma que deixam uma marca permanente.

Já o Perguntem a Sarah Gross me tinha magoado q.b e é um livro que recomendo sem reservas. Este Os loucos da Rua Mazur vai deixar, desconfio, marcas permanentes. Vou esquecer os nomes das personagens, vou esquecer parte do enredo mas nunca vou esquecer o horror, a tristeza, a revolta que este livro provocou.

Percebo perfeitamente todos quantos preferem o Sarah Gross a este Os loucos da Rua Mazur. Pessoalmente, prefiro este.