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Ler por aí

Ler por aí

21
Fev19

Leituras conjuntas

Patrícia

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imagem daqui

 

As leituras conjuntas são uma óptima forma de tirar livros da estante que, de outra maneira, lá ficavam a ganhar pó enquanto esperavam pacientemente pela sua vez. As leituras conjuntas são uma óptima maneira de manter um ritmo de leitura. As leituras conjuntas são uma fantástica maneira de conhecer gente da nossa "tribo". As leituras conjuntas são, acima de tudo, uma óptima maneira de falar de livros. Mas....

Ter a oportunidade de ler um livro e discuti-lo, falar sobre ele, poder partilhar aquele choque, aquela lágrima, aquele sorriso, é maravilhoso. Adoro a ideia de leituras conjuntas. Mas na prática não me dou com elas. Na verdade sou a fraude das leituras conjuntas)

Estou neste momento a ler em modo "leitura conjunta" o maravilhoso "O Conde de Monte Cristo" de Alexandre Dumas. Quando a Elisa me falou pela primeira vez deste projecto nem pensei duas vezes e disse-lhe que também entrava. Há muito tempo que queria reler este clássico que é um dos meus livros favoritos. Li-o e reli-o inúmeras vezes na adolescência (de tal forma que os meus livros - tenho em versão trilogia - estão a desfazer-se, as páginas ficam-me nas mãos quando lhes toco, enfim, são livros que mostram ter sido muito amados) e achei que esta era uma boa oportunidade para o fazer. É giro ir vendo as reacções e previsões (imaginem-me com um riso à Mutley e não estarão muito longe da verdade) e maravilhoso ver como este livro está a agradar. É muito bom ter a oportunidade de discutir certos episódios do livro.

Mas deixem-me fazer-vos uma confissão que vos vai fazer entender porque é que eu não me dou com leituras conjuntas: eu não cumpri uma única das metas de leitura. Eu passei todas e na verdade eu já acabei de ler o livro (releitura, só leio um livro de cada vez, sou viciada neste livro, etc, etc). Sendo uma releitura, ninguém estava ali à espera das minhas reacções mas se assim não fosse a leitura tinha deixado de ser conjunta para mim... 

Seria também normal eu não ter cumprido as metas por não ter lido o suficiente para acompanhar o ritmo. Nunca me dei bem com o ritmo dos outros e tanto sou capaz de devorar livros como de ler uma página por dia. 

Esta não é a primeira vez que entro numa leitura conjunta - as outras, menos formais, foram mais leituras paralelas que conjuntas porque o ritmo das pessoas envolvidas nunca foi o mesmo). 

O que eu aprendi com esta experiência é que só me posso meter em leituras conjuntas de livros que já li. Será a única forma da coisa resultar mais ou menos e de não defraudar as restantes companhias literárias. 

17
Fev19

A estranheza de gostar de ler

Patrícia

Por mais estranho que pareça (e para mim, "não ler" é um conceito estranho) há quem se interrogue como é que alguém gosta de ler. Eu sei que nenhum leitor deste blog acha estranho gostar de ler mas tenho a certeza que todos já se depararam com esta questão: Porque lês?

É demasiado simples e redutor responder "porque gosto". Provavelmente cada leitor terá as suas próprias razões. Eu sei que tenho as minhas. 

Ler é, para mim, um modo de vida. Não exagero quando digo que ler já terá, provavelmente, salvado a minha vida. Talvez "salvar a vida" tenha um toque de exagero. Mas digo com 100% de certeza que ler ajudou-me a manter a sanidade mental em todos os períodos negros da minha vida. E já tive vários.

Quando tinha medo era nos livros que ganhava coragem. Quando me sentia sozinha era nas páginas dos livros que encontrava amigos. Quando precisava chorar e não o podia fazer abertamente era através do sofrimento das personagens que me permitia exteriorizar essa tristeza. 

A possibilidade de fuga oferecida por uma história emocionante é uma das mais-valias da leitura. E desde miúda, sempre que se tornava muito difícil viver na minha própria pele, era dentro de um livros que mergulhava. Pelo menos por algumas horas.

Conheço muito bem a circunstância de não ter tempo para ler. E isso desestabiliza-me de uma maneira muito similar à falta de tempo para dormir. São coisas de que preciso para me manter viva. 

A verdade é que quando estou mais triste, tenho mais trabalho ou tenho um problema qualquer, leio mais. Não leio, necessariamente, muito, até porque são épocas de uma grande pressão e em que as 24 horas do dia não chegam. Mas leio mais. Leio em cada momento. Leio na pausa do café, leio à hora do almoço, leio enquanto conduzo (calma, falo de audiobooks, não sou louca), leio enquanto espero que uma peça de teatro comece (true story). Eu que, normalmente, sou fã de não fazer a ponta dum corno e aterrar no sofá a ver uma má série de tv, nessa épocas... leio. Faço-o porque sei que ler vai permitir que o meu cérebro se desligue do que quer que me esteja a incomodar, faço-o porque ler é o meu porto seguro, faço-o porque funciona*. 

 

 

 

*Mas nunca se esqueçam que ler não substitui um bom amigo, um médico ou um psicólogo. 

 

13
Fev19

Por amor aos livros

Patrícia

Diz a editora Maria do Rosário Pedreira, no seu Horas Extraordinárias:

Por mais que Umberto Eco nos tenha assegurado em variadíssimas entrevistas que o livro nunca vai morrer, a verdade é que todos os dias me convenço mais de que, se as coisas não mudarem muito depressa em relação ao excesso de atenção dada por jovens e adultos aos dispositivos digitais, a leitura a sério (não só em papel, mas em profundidade, com as sinapses todas a funcionar) tem os dias contados (excepto para a pequena minoria que não desiste, e ainda bem).

Ora, também eu me convenço que sim, as coisas têm que mudar.

Por um lado não acredito que o livro alguma vez vá morrer. Basta olharmos para o exemplo de Portugal e percebemos que o principal interveniente da coisa não o faz por dinheiro. Falo, obviamente, dos escritores. Os que conheço escrevem por amor à escrita, escrevem porque querem e têm que escrever ou por qualquer outra razão que eles lá sabem mas , parece-me, não é por dinheiro, que raros são os casos que podem "viver e comer" do que ganham com os livros. Há quem traduza, há quem edite, há quem faça outra coisa qualquer... mas por cá, não se vive da escrita. Aliás, isto é tão assim que há quem ache que escrever não é bem uma profissão e que não há mal em pedir um texto, só por favor... A verdade é que um dos problemas é esse, é que escrever não é bem uma profissão mas devia ser. 

Por outro lado, não sei se acredito bem nessa história de haver menos leitores... Acho que até há mais, mas há mais livros, outros formatos e, acima de tudo, uma democratização das leituras, uma acessibilidade diferente. E é aqui que, na minha opinião, reside o problema.

Não é a leitura pela rama (que a há), nem os maus livros (que também os há), nem os dispositivos electrónicos e a atenção exagerada que os jovens e adultos lhes dão (que dão, é certo) que está a matar o livro. O que, para minha grande tristeza, está a sucumbir, é a edição em português. E com isso, a edição de livros escritos por escritores portugueses. 

Deixem-me dar-vos o meu exemplo.

Sou leitora, gosto de ler em português e livros de escritores portugueses (cerca de metade dos livros que leio são de escritores portugueses), compro mais do que leio (e lerei, num mau ano de leituras, entre 20 a 30 livros por ano). Compro parte dos livros em formato digital (sejam ebooks ou audiobooks) e parte em formato físico (gosto muito de ter uma, ou várias, estantes cheias de livros). Tenho a sorte e o privilégio de poder comprar os livros que me apetece e a minha consciência é uma treta e não me permite fazer downloads ilegais.

Mas a verdade é que os livros são caros, estão acessíveis com uma facilidade tremenda - qualquer nabo  informático tem acesso a todo os ebooks e audiobooks que quiser sem gastar um tostão (especialmente se ler em inglês ou não for esquisito com o PT-BR) e a maioria dos jovens ganha uma miséria que mal lhe dá para ir beber um copo ao fim de semana quanto mais para comprar livros - que estão, seja através de downloads ilegais ou de uma biblioteca, plenamente acessíveis de borla.

A questão nem é ler ou não ler... é comprar ou não comprar! E enquanto todos nós - leitores e editores - não tivermos consciência disto e não mudarmos alguma coisa, a coisa vai piorar.

Não me venham com merdas: antigamente lia-se mais? Não me façam rir. A sério, não façam. Uma elite lia mas a maioria? Não, sorry mas não. 

Lê-se o suficiente? Não, nem de perto nem de longe. Mas lê-se mais do que se lia.

Antes comprava-se em livrarias. E ia-se à biblioteca.

Agora, compra-se em livrarias e alfarrabistas, vai-se à biblioteca...compra-se (e vende-se) no OLX, facebook, alfarrabistas (sou fã), livrarias, livrarias online, "saca-se da net", troca-se com amigos  (também sou fã), compra-se em ebook, em audiobook, manda-se vir de sites de troca.

E muitas vezes faz-se isto porque se quer ler logo e as traduções tardam, porque se vive no presente e no futuro e esperar é uma seca, porque se os outros lêem, nós também queremos ler.

Eu não tenho soluções.. faço a minha parte, comprando livros em Português, não alinhando no que chamo carinhosamente de "mafia dos livros no facebook" ... mas faço-o porque posso, essa é que é a verdade. 

 

 

 

12
Fev19

Quem disse que eu não sugiro livros para o dia dos namorados?

Patrícia

Já vos disse que oferecer um livro a um leitor é uma prova de amor e não quero que pensem que não ligo ao dia dos namorados por isso aqui vim fazer-vos algumas sugestões de livros para oferecerem aos e às "mais-que-tudo".

Em primeiro lugar: Senhores, a não ser que saibam que a v/ namorada adora aquele/a autor/a fujam a 7 pés dos livros que vos são sugeridos pelas livrarias. É verdade que alguns deles até podem ser bons mas a maior probabilidade é que comprem gato por lebre. Fujam dos livros com fitinhas, saquinhos, corações ou outros que tal. 

Confesso que quando pensei em escrever este post o primeiro livro que me veio à cabeça foi o "Em parte incerta" de Gillian Flynn mas depois achei que era esticar a corda e que não estava a passar a mensagem certa. Assim limito-me a sugerir o Americanah, da Chimamanda Ngozi Adichie (também pensei no A cor do Hibisco mas também achei que não seria exactamente o ideal... mas é um grande livro) e o A história de uma serva da Margaret Atwood. Para os mais românticos (e para que não digam que não há aqui um grande amor*) sugiro o E tudo o vento Levou, de Margaret Mitchell, Orgulho e preconceito, de Jane Austen o Norte e Sul, de Elizabeth Gaskell,  Terra Bendita de Pearl S. Buck ou O (maravilhoso) Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas.

 

 

* Não garanto que acabem bem, mas que há amor aqui, há!

 

07
Fev19

Interlúdio

Patrícia

Ontem foi dia de futebol, que é como quem diz, dia de leituras lá em casa. É sempre assim, quando há jogos em canal aberto, na tv o jogo corre (às vezes bem para um, outras bem para outro) mas no sofá as pernas entrelaçam-se e enquanto ele vai vendo o jogo, eu leio e o gato dorme. Claro que quando há um golo ou uma jogada mais marcante, eu dou um olhinho e o gato apanha um cagaço e dá um salto mas no geral há aquele silêncio que é o do barulho já esperado e nesse barulho (a bem dizer nos outros barulhos também) eu leio. Tenho até uma certa pena que não haja mais jogos em canal aberto, não por mim e pelas minhas leituras mas pelos velhos que já não têm direito a sequer acompanhar os seus clubes do coração. Lembro-me sempre do meu tio que passava os domingos dentro do carro a ouvir os relatos do jogos do benfica (nunca percebi porquê no carro, ele lá deveria saber, se havia rádios com fartura em casa) e às vezes pergunto-me se ainda há quem vá ouvir para o carro ou cole a orelha à telefonia para ouvir os jogos. Há nas tv's (e, para dizer a verdade, em todos os sítios deste país à beira-mar plantado) demasiadas conversas sobre futebol e poucos jogos, os jogos já não são para os velhos nem para os pobres. Mas falava eu da leitura, que é das leituras que este blog é feito não é de coisas que não me preocupam nada como o futebol, nem de coisas que me preocupam muito como o facto de já terem morrido 9 mulheres às mãos dos homens da família, isto sem contar com uma bebé assassinada pelo cabrão do pai, que há coisas tão horríveis que custa a respirar quanto falamos delas, nem é feito de guerras e mais guerras que nascem todos os dias. É feito de livros e leituras e é nas leituras que esqueço a merda que o mundo é e que a idade adulta é tão diferente daquilo que julgava ser, o Peter Pan é que tinha razão mas ninguém lhe deu ouvidos e todos insistimos em crescer e depois dá nisto. Dizia eu que enquanto dava o jogo eu acompanhava um certo Edmond Dantés na sua pena de prisão no castelo de if e com ele sofria, como sofro sempre mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, como vai fugir, de quem se vai vingar, as aventuras, as desventuras, os amores e desamores deste conde de quem gosto tanto. Dizia eu que é sempre bom voltar à companhia de velhos amigos, que o conheci há tantos anos e que lhe acompanhei a aventuras tantas vezes, tantas que várias páginas do livro estão soltas e vou ter que as colar com fita-cola mas pôr fita-cola naqueles livros dá-me pena mas não quero correr o risco de perder as páginas. Dizia eu que, de pernas entrelaçadas em quem escolhi para partilhar a vida e com um gato ao colo, reencontrei velhos amigos.