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Ler por aí

Ler por aí

08
Jan19

Três coroas negras, de Kendare Blake

Patrícia

As três coroas negras.jpg

Apetecia-me ler um livro "pastilha elástica" e escolhido foi este "Três Coroas Negras".

Quando pego num livro destes tento não ter grandes expectativas porque sei que este é um género que permite (quase) tudo: romance, filosofia, política. 

A premissa deste livro é interessante q.b: três irmãs com poderes distintos (uma naturalista, uma envenenadora e uma elemental) que ao chegar aos 16 anos iniciam uma luta de morte até que uma delas suba ao trono.

Assim uma espécie "jogos da fome" com uma intriga política e feminista. 

Neste caso vi-me perante um YA (o que geralmente não me agrada) e, acima de tudo, um romance disfarçado (o que ainda me agrada menos). E tive pena porque isto tinha tudo para ser algo bem mais intrincado e interessante.

Vamos por pontos:

Vamos sendo apresentados às três rainhas, e à forma como cada uma foi educada, à vez em capítulos distintos. Esta forma de apresentação é bastante utilizada nas sagas de fantasia mas geralmente um livro acaba sempre por se focar mais numa das personagens que nas outras. Neste caso não senti essa divisão de forma relevante (apesar da história pender mais para o lado da Arsinoe, a naturalista). Pessoalmente não me incomodou apesar de achar que a história tinha bastante a ganhar com isso.

Gostaria de ter conhecido mais acerca da história do mundo, das tradições e do "sistema de magia". Pouco explicito, sem bases que me fizessem acreditar naquele universo (senti-me a ler um conto de fadas) e a revelação final fez-me revirar muito os olhos. Para além de ser (mais ou menos) óbvia não foi lá muito credível. E vai uma aposta que "aquela" não é a única troca lá do sítio??? 

Nem vou perder tempo a falar de triângulos amorosos ou do "poder do amor", ok? (os YA "perdem-me" sempre aqui). 

Há personagens interessantes nesta história e que têm potencial. Das "rainhas" a que me parece ter mais potencial é a Katherine que, ou muito me engano, ou vai ser desconsiderada muito rapidamente. Mas são as personagens secundárias (e não, não estou a falar da Jules) que me parecem mais interessantes. As mentoras, acima de tudo. Aquelas que estão a puxar os fios das marionetas.

05
Jan19

Livro meu, livro meu, há lá estante melhor que a minha?

Patrícia

A maioria dos leitores tem 2 tipos de drama: falta de livros e livros demais. E sim, ambos os dramas acontecem em simultâneo.

Qualquer leitor tem falta de livros. Basta entrar numa livraria, seja ela online, física, de livros novos ou de livros usados e a reacção é sempre a mesma: "quero", "preciso", "procurava este livro há tanto tempo", "olha, não sabia que isto já tinha saído", "um novo livro da minha escritora favorita??!!". 

Qualquer leitor tem livros demais. Basta arrumar a estante ou simplesmente olhar para ela e ver quantos livros "por ler" lá estão.

E qualquer leitor vai conviver com estes dramas toda a sua vida. E vai continuar a comprar, acumular e a ter muitos, muitos livros (que são e não são demais, ao mesmo tempo).

Mas eu hoje queria falar-vos de um fenómeno que me acontece regularmente, quer na casa da minha mãe, quer na minha. 

Eu juro-vos que encontro, SEMPRE que olho para uma das estantes, livros que quero ler, que preciso ler e que já me tinha esquecido (ou não sabia de todo) que tinha. E a verdade é que o sítio mais barato para encontrar preciosidades ou boas leituras totalmente gratuitas são estas estantes.

Acontece muito quando olho, com olhos de ver, para as estantes da minha mãe. A verdade é que eu já sabia que aqueles livros lá estavam porque olhei para eles toda a minha vida (mas ainda não sei porque raio tem ela 3 edições diferentes do "os meus amores" de Trindade Coelho) mas a verdade é que, quando com eles mais convivi, não me interessavam. Hoje em dia encontro por lá preciosidades como um Dostoievski, o Servidão Humana ou o Nossa senhora de Paris e de cada vez que lá vou trago comigo um "novo" (da última vez trouxe o Alexandra Alpha, do Cardoso Pires).

Mesmo na minha própria estante, quando a arrumo/organizo (aka, escolho os que já posso levar para a casa de mamãe, que ainda tem espaço porque é ligeiramente maior que a minha), encontro sempre livros que quero ler.

Contem-me tudo. Também vos acontece?

03
Jan19

Ecologia, de Joana Bértholo

Patrícia

ecologia.jpg

Diz Ursula K. Le Guin (introdução, A mão esquerda das trevas, ed Relógio D'agua) que "A ficção ciêntifica não prediz, descreve." e que "O que os autores de ficção tentam fazer é dizer-nos como são e como nós somos - o que está a acontecer - como está o tempo hoje, agora, neste preciso momento, a chuva, o sol, olhem! Não nos dizem o que veremos e ouviremos. Podem apenas dizer-nos o que eles próprios viram e ouviram, na sua passagem pelo mundo, um terço da qual foi despendida a dormir e a sonhar e o outro terço a dizer mentiras" .

Uma distopia é sempre muito mais sobre a actualidade do que sobre o futuro. Aliás, corrigo, qualquer distopia é sempre sobre o presente, sobre as escolhas que fazemos hoje, sobre a forma como o escritor (e de certa forma o leitor) vê o mundo. Eu, enquanto leitora de fantasia considero que estes géneros - fantasia, ficção ciêntifica, distopias - são aqueles que mais comunicam e envolvem os leitores - a sua interpretação, a forma como o leitor escolhe ler estes livros é fundamental. 

Joana Bértholo, neste ecologia, apresenta-nos uma ideia (brilhante) em 3 fases: um mundo onde tudo se paga, tudo se privativa, tudo se paga... até as palavras. Sim, alguém teve a ideia de privatizar as palavras. E alguém conseguiu pôr essa ideia em prática. E uma ideia mudou o mundo. revolucionou tudo. Abriu portas, fechou portas. Ao longo desta história acompanhamos vários personagens neste percurso de privatização de tudo. Lúcia e Pablo, um casal como tantos que conhecemos, um casal a tentar manter um casamento e um filha, a Candela. Carolina e Tápio. Jeff, Darla, a Mulher-Eco, Nelson, Pedro. Cada um deles, da sua forma, a tentar viver e adaptar-se às mudanças no mundo como todos nós fazemos.

Nós temos o privilégio de viver tempos interessantes. Somos das gerações que vimos o mundo mudar. Somos as gerações que, para o bem e para o mal, mudaram o mundo. A evolução das espécies baseia-se na sobrevivência do mais apto. Hoje isso é (quase) tão verdade como no passado distante... o que mudou foi a definição de mais apto.

Sim, eu sei que estou a divagar e que pouco ou nada vos contei acerca da história mas vou deixar as coisas assim, para não estragar a leitura a quem a quiser ler.

Apenas mais duas notas.

A premissa deste livro, a ideia base, a história, é genial. A escrita é fabulosa, acho mesmo que a Joana Bértholo escreve muito bem. Mas acho que por vezes escreveu demais. O ritmo deste livro não é o que acho mais adequado para as distopias. Este tipo de livro ganha mais com uma escrita mais escorreita, ganha mais sendo de leitura compulsiva, rápida e a deixar as conclusões para o leitor. No meu ponto de vista, há demasiada reflexão - que gostava de ter sido eu a fazer. Não precisava ser conduzida pela mão da escritora. Menos 100 páginas e este seria o livro que ia, durante anos, aconselhar a toda a gente. Assim, sei que a maioria das pessoas que conheço não terão pachorra para o ler. Às vezes "menos é mais".

Uma das coisas que adorei neste livro foi a forma como o livro interage connosco. Encontrar os segredos escondidos nos QR codes espalhados nestas páginas foi bastante interessante (também quebrou um pouco o ritmo mas valeu a pena).

 

 

02
Jan19

Ainda as sugestões livrescas

Patrícia

Consegui sugerir, se não me falham as contas, livros de 21 escritoras portuguesas. Faltaram-me dias com tempo/vontade de vir preparar o post e assim ficaram fora nomes como Maria Velho da Costa, Cristina Drios, Raquel Ochoa, Sandra Carvalho, Isabela Figueiredo, Ana Teresa Pereira, Rosa Lobato de Faria, Maria Archer, Ana de Castro Osório, Florbela Espanca e tantos outros nomes que deveria ter incluído. 

Digam-me vocês, que escritoras me faltaram? Melhor, façam um post/vídeo/cena de instangram ou facebook/qq coisa assim com algumas sugestões (e deixa-me o link, que eu prometo um post de divulgação - é o melhor que posso fazer).

01
Jan19

Um

Patrícia

O início de um novo ano, tal como o início de um livro, é sempre uma promessa. Hoje já não é dia de balanços, é dia de projectos novos, objectivos traçados e de olhar os próximos 12 meses como uma página em branco que podemos preencher como queremos.

Vocês já sabem que eu não traço objectivos de leituras, não participo em desafios nem proponho metas para cumprir.

Não pensem que é por não me interessar ou por não valorizar os v/ esforços. A verdade é que me conheço e sei que metas e objectos, no que ao lazer diz respeito, é meio caminho andado para não atingir ou cumprir nada. 

Há por aí vários desafios que me interessam e em que gostava de participar. Basicamente todos os que envolvem, de uma ou outra forma, leituras em português, de escritores portugueses ou de mulheres, portuguesas ou não. A grande probabilidade é que cumprisse esses desafios todos sem esforço (leio cada vez mais escritores portugueses) mas recuso-me a condicionar as minhas leituras por causa de um desafio.

Ler mais também não é um objectivo... a meta é sempre "ler melhor", algo totalmente subjectivo, pessoal e intransmissível. 

Ter como objectivo dinamizar o blog também é sempre algo que não funciona. Cumpro o planeado durante umas semanas e depois há um dia em que sol lá fora está bonito demais, o livro que estou a ler é bastante interessante ou tenho sono.  

Afinal o que vos posso prometer para 2019? O mesmo que até aqui. Opiniões de livros que vou lendo, sugestões quando me apetecer, textos avulso sobre temas mais ou menos literários.

A todos desejo um ano novo cheio de boas leituras...

 

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